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quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Contra a ameaça do fascismo no Brasil

Faço uma pausa nos textos sobre Arte neste blog, porque o Brasil corre perigo! A ameaça de fascismo - sinônimo de perda de liberdade e morte - é muito real. Votarei no Haddad 13, no segundo turno, em defesa da Democracia, dos Direitos Humanos, dos Movimentos Sociais, dos Negros e Negras, dos LGBTQI, dos Índios, dos Quilombolas, das Mulheres...

Por isso, como um Manifesto, copio aqui o lindo e triste texto do escritor Marcelo Rubens Paiva. Uma espécie de oração, um pedido aos nossos maiores ancestrais da cultura brasileira - e aos Orixás - que nos protejam da barbárie!

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Marcelo Rubens Paiva 
O Estado de S.Paulo 
06 Outubro 2018 | 02h00

Bênção do Senhor do Bonfim. Bênção, Ogum, ferreiro senhor da guerra, regente em Ifé, dono de todos os caminhos e encruzilhadas. Nos ensine a nos armar para o que vem. E a triunfar. Bênção, Oxóssi, caçador. Olhe por nós, guardião da noite, rei da fartura, do conhecimento, nos proteja. Saravá.

É melhor ser alegre que ser triste. Alegria é a melhor coisa que existe. Saravá Vinicius. A tristeza tem sempre uma esperança, de um dia ser mais triste não: “Feito essa gente que anda brincando com a vida, cuidado, companheiro, a vida é pra valer. Não se engane, não”

Olhe por nós, Xangô, meu rei, protetor da justiça, forte e valente, Afonjá dos iorubas. Kawó- Kabiesilé. Jogue seus raios para calar os mentirosos. Obá Lubê, chame Oxumaré, que nunca nega ajuda a quem precisa e traz as águas de volta pelo arco-íris. Nos proteja, pai.

“Põe um pouco de amor na sua vida.”

Bênção, Cony. Bênção, Nelson Pereira. Bênção, Glauber Rocha. Que falta faz sua metralhadora verbal giratória, para combater a estupidez, para unir o Brasil, trazer política à política. Saravá. Bênção, Tom Jobim, que nos trouxe tanta beleza, nos deu tanto orgulho, nos fez sentir tão brasileiros, nos definiu. Saravá. Bênção, Zélia e Jorge Amado, que falta vocês fazem, literatura com tempero, cheiro, gosto de Brasil. Saravá.

“A vida é arte do encontro, apesar de ter sempre desencontro na vida. Vai ver que ninguém no mundo vence.”

Bênção, Chico Buarque. A luta continua, irmão, chama o ladrão. Bênção, Caetano e Gil, que bom que vocês existem, estão conosco, mais sóbrios e lúcidos que nunca. Precisamos mais do que nunca de vocês. Saravá. Bênção, Elis, Nara, Gal. Bênção, Renato Russo. Que país é esse, amigo? Que país ele virou? Onde erramos? Saravá.

Bênção, Mãe Menininha. Saravá, Gantois. Bênção, Pierre Verger.

Saravá, Millôr Fernandes, o maior provocador e mais sábio gozador. Bênção, mestre Henfil! Voltou tudo pra trás, amigo. Estamos todos contaminados. Saravá. Betinho, onde você está?

Bênção, meu pai, olha no que deu, onde caímos. Você que viu tudo começar. Tudo está de volta. Defendem a tortura, pai, depois de lutarmos com suor, sangue e lágrima contra ela. Tiramos os militares, pai, eles voltam. Perdemos o rumo. Perdemos o sentido de tudo. Perdemos aos poucos o altruísmo, a democracia. Tudo em vão, pai, tudo em vão. Mas você tem sete netos lindos, pai, e acabou de virar bisavô. Você ainda está aqui. Saravá.

Saravá, Exu, o chefe da missão, o mais humano dos orixás, mais sutil, mais astuto, faça o erro virar acerto. Força que abre caminhos, tranca as ruas, nos movimenta, nos transforma. Afaste o mal, traga o bem. Amante dos tambores, da música, da festa, não deixe o silêncio reinar.

Bênção, Otavio, que falta você me faz, com seu sorriso doce, seu olhar amigo, suas palavras sábias. Sonho muito com você. Choro todos os dias ainda por você. Vamos tentar de novo, né? Reconstruir, reconciliar, como já fizemos juntos, tolerar, ser plural, querer o bem de todos. A inteligência vencerá. Saravá.

Bênção, Babenco. Bênção, meu irmão Adílson Barros, que saudades, amigo... Saravá, Flávio,

Machado, que cedo você nos deixou, agregador, amigo, sábio, gênio precoce que foi levado.

Bênção, Chico Science, que deixou o maior legado, construído em tão pouco tempo, uniu Brasis. Bênção, Cássia Eller, Raul Seixas, Cazuza. Bênção, Mano Brown. Bênção, Racionais. Bênção, Nação Zumbi. Xangô acordou. Bênção, Tim Maia, Bênção, síndico.

Eu não sou perfeito, mas o mundo também não é.

Bênção, minha mãe, que lutou tanto para mudar o País... Onde quer que esteja a sua memória, que falta você nos faz, com a lucidez arrebatadora. Saravá. Bênção, mamãe, Bênção, papai. Bênção, Ben Jor: “Mas eu não quero ser o primeiro. Nem ser melhor do que ninguém. Só quero viver em paz, e ser tratado de igual para igual...”.

Bênção, Plínio Marcos, meu palhaço da dor, meu mestre-mentor, meu autor indispensável. Saravá. Vamos construir uma estátua para você no Redondo. Já está acertado. Censuraram um livro sobre ditadura numa escola. Vamos ter de escrever de novo em metáforas, com protesto nas entrelinhas.

Bênção, mãezinha, rainha dos mares, proteja nós, Iemanjá, você que nos fez nascer, Mãe do Mundo. Saravá. Que o rio esteja bom, Iemanjá. Dona Janaína, Inaê, Princesa de Aiocá e Maria, saudades dos dias livres na floresta...

Me deixa chorar contigo, Oxum. Orarei Oxum, adoro Oxum. Saravá, Iansã, nos guie a um dos nove céus, apazigue Xangô, pedimos clemência. Epahhey Oia, Oyá guerreira! Reine entre nós, Oxalá, precisamos da sua paz, calma e confiança, rejeitar todas as formas de violência, respeitar todos.

Cantemos juntos: “Oní sé a àwúre a nlá jé, oní sé a àwúre ó bèrì omon. Oní sé a àwúre, a nlá jé Bàbá, Oní sé a àwúre ó bèrì omon” (Senhor, nos faça que tenhamos boa sorte, e com que sejamos grandes, senhor que nos dá o encantamento da boa sorte, cumprimente os filhos, senhor que nos dá boa sorte e nos torna grandes).

Bênção, Cartola. Deixe-me ir, preciso andar, vou por aí a procurar, rir pra não chorar, quero assistir ao sol nascer, ver as águas dos rios correr, ouvir os pássaros cantar. Eu quero nascer, quero viver, vou por aí a procurar... Saravá.”

E eu posso acrescentar, benção meu pai, minha mãe, meu irmão, que segurem nas nossas mãos nessa travessia difícil.

terça-feira, 8 de março de 2016

O galo da madrugada

“Devo acomodar a minha história à hora; eu mesmo
poderia mudar um outro tanto, não só de fortuna, 
mas também de intenção. (...) 
Se a minha alma pudesse ganhar pé, eu não faria experiências comigo, 
resolver-me-ia; mas ela está sempre em aprendizagem
e sendo posta à prova”.
(Montaigne, em A condição Humana)


Eu era uma menina em 1978, quando já havia me encantado a companhia de poetas, de artistas, de humanistas. Aquele mundo era belo, profundo, pura vida! Enquanto eu ia descobrindo o mundo, mundos vinham até mim. E com ele - numa noite em que nos juntamos um tanto amedrontados com a presença de espiões da ditadura militar - veio o poeta Thiago de Mello e sua poesia. Eu morava em São Luís do Maranhão, terra de poetas imensos!

Ilustro este texto com esta imagem de um folheto que eu mesma escrevi e diagramei em 1978, convidando para o encontro com o poeta. Resgatei esta e outras imagens de coisas que eu tinha feito, nos arquivos do famigerado Departamento de Ordem Política e Social, o Dops. Eles nos seguiam ameaçadores o tempo inteiro naquela época. E eu era só uma menina…

Lembro muito bem da sensação que minha alma inteira sentiu ao ouvir aquele senhor de branco, de estatura baixa, olhar e modos firmes; daquele homem que trazia em sua aura a aura de um outro grande poeta, o chileno Pablo Neruda, de quem era amigo. Um momento singular na minha vida se fez e minha alma cantou ali naquele momento e em muitos outros que vieram a seguir (porque decorei este poema):

Quero dizer teu nome, Liberdade
Quero aprender teu nome novamente 
para que sejas sempre em meu amor
e te confundas ao meu próprio nome.


Deixa eu dizer teu nome, Liberdade
irmã do povo, noiva dos rebeldes,
companheira dos homens, Liberdade.


Teu nome em minha pátria é uma palavra
que amanhece de luto nas paredes.
Deixa eu cantar teu nome, Liberdade 
que estou cantando em nome do meu povo.



Ao ouvir Thiago de Mello em 1978 vi um poeta enorme e eu me fiz enorme com ele. Me juntei ainda mais aos companheiros daqueles tempos, e a gente cresceu junto. E derrubou uma ditadura inteira!

Mas, como diz a frase de Montaigne no início deste texto, “minha alma está sempre em aprendizagem”, “sempre posta à prova”. E o ano agora é 2016 e novamente estarei diante de Thiago de Mello no dia 15 de março, 38 anos depois.
"O poeta da madrugada", em andamento, óleo sobre tela

Jeosafá e Adalberto me encomendaram uma pintura para presentear o poeta amazonense, o poeta da noite, o galo da madrugada. Imenso desafio! Era preciso internar-me em casa durante três dias para dar conta de produzir um quadro em tempo récorde. O ano de 1978 se encontrou ali entre eu e meu cavalete, no meu ateliê em casa. 

Mas de repente desabou, pesada e tenebrosa, a sombra da mais temerosa pata do monstro fascista, mais uma vez. Lula foi arrastado a depor na manhã do primeiro dia da minha pintura. Mas não era Lula: era o Brasil dos enjeitados secularmente, o Brasil dos confins do Brasil, com sua cara de miséria, com seus pobres, com seus pretos, com seu povo que vinha melhorando um pouco mais de condição. Era o Brasil da senzala sofrendo o renovado arresto da Casa Grande!

Ato contínuo, fui também arrastada para o aeroporto de Congonhas, local escolhido para as mais infames intenções do ícone maior da direita atual, o juiz Moro. Larguei meus pinceis ali e corri para me juntar aos companheiros de agora. Era imperativo nos juntarmos, pois vivemos num país de liberdade, conquistada a muito custo e que mais uma vez se vê ameaçada gravemente. Em 2016!

Não sei o que vai acontecer com o Brasil, poeta! Os tempos de novo se obnubilaram… Aquelas velhas nuvens pesadas e densas de 1978 surgem ameaçadoras sobre o céu do Brasil de 2016… Mas a pintura que lhe presentearemos no próximo dia 15, poeta, - tenha certeza! - está sendo feita de pinceladas firmes, nenhum pouco serenas, resistentes, dispostas a cantar de novo 

Faz escuro mas eu canto, 
porque a manhã vai chegar. 
Vem ver comigo, companheiro, 
a cor do mundo mudar. 
Vale a pena não dormir para esperar 
a cor do mundo mudar. 
Já é madrugada, 
vem o sol, quero alegria, 
que é para esquecer o que eu sofria. 
Quem sofre fica acordado 
defendendo o coração. 
Vamos juntos, multidão, 
trabalhar pela alegria, 
amanhã é um novo dia.

A menina de 1978 é a mulher de 2016, mas a alma é a mesma. E com Montaigne ela grita tão alto quanto pode ser possível:

“Devo acomodar minha história à hora!”