sábado, 3 de abril de 2010

O Velázquez que nos mira há 354 anos

Desde o dia 16 de março de 2010, o quadro do pintor realista John Singer Sargent, “”As Filhas de Edward Darley Boit”” (1882), ficará exposto, até 31 de maio, no Museu do Prado, em Madri, Espanha, ao lado da obra-prima que o inspirou, “”As Meninas”” (1656), do espanhol Diego Velázquez.


A tela de Sargent sendo colocada ao lado da de Velázquez
John Singer Sargent nasceu em Florença, Itália, em 1856, mas era filho de pais norte-americanos, originários da Filadélfia. Esse pintor, que desde criança demonstrava talento para o desenho, encorajado por sua mãe, aos 13 anos, começou a ter aulas de pintura na Academia de Belas Artes de Florença. Com apenas 18 anos de idade, foi admitido no Atelier do pintor realista Carolus-Duran, em Paris, um artista que se inspirava na obra do também pintor francês, realista e revolucionário, Gustave Courbet.


John Sargent, Carolus-Duran e Gustave Courbet, três importantes pintores, unidos no mesmo gosto pela estética realista, formam, através do tempo, uma linha artística que alcançou, no passado, o pintor Diego Velázquez, e – indo indo ainda mais distante no tempo e na história da arte – se encontram e se agrupam no mesmo fervor pela pintura do estranho e maravilhoso pintor italiano Caravaggio, o iniciador de uma linha genealógica de pintores que atravessam os tempos.


Seriam necessárias centenas de páginas para nos reportarmos à importância de cada um desses pintores. Ainda voltaremos a falar de cada um deles, nesta coluna. 


Autorretrato de Velázquez em As Meninas
Mas por enquanto, fiquemos com o espanhol Diego Velázquez, pois neste ano de 2010 completam-se 350 anos de sua morte. Expor ao lado de sua obra ““As Meninas”” a tela de 222,5x222,5cm do pintor John Singer Sargent, um óleo sobre linho, pintado em homenagem a seu mestre dois séculos depois do quadro que o inspirou, é parte das homenagens que o artista espanhol terá. Sargent teria feito árduos e persistentes estudos, uns 58 ao todo, para reproduzir em seu quadro ““As Filhas de Edward Darley Boit”” o rigor técnico e as características mais marcantes do mestre.


Mas vamos a Velázquez.


Diego Rodriguez de Silva Velázquez, filho de pai português e mãe espanhola, nasceu em Sevilha, em 1599. A Espanha de Velázquez era, no dizer do historiador da arte francês Élie Faure (1873-1937), um país “cortado “em dez partes pela religião, pela guerra e pela natureza””. Não havia uma cultura espanhola única, mas todo um emaranhado cultural de vários povos, que foram formando aos poucos a alma espanhola, intensa e trágica, tão bem expressa nas famosas touradas e no som das castanholas.


Velázquez desenhava desde muito cedo, e ainda adolescente foi estudar pintura no atelier de Francisco Pacheco, seu futuro sogro. Desde o início, interessa-se por pintar motivos comuns como jarras, peixes, pássaros, flores e frutas, que ele via no mercado de Sevilha. Nesta época, pinta o famoso quadro “”Velha fritando ovos”,” que trazem expressas as raízes de sua inspiração nos pintores El Greco e Caravaggio, de onde aprendeu os efeitos de claro-escuro e o tom realista.


Diego Velázquez: Velha fritando ovos, 1618
Em 1624, muda-se com a esposa para Madri, para trabalhar como pintor contratado pela Corte do Rei Filipe IV, um amante das artes. Em duas viagens à Itália, Velázquez fez diversos estudos, em pintura e desenho, de obras de Michelangelo, Rafael, Ticiano e Tintoretto. Amigo do pintor holandês Rubens, fazia retratos da família real e da corte, além de quadros com temas religiosos e mitológicos.


Diego Velázquez:
O aguadeiro de Sevilha, 1620
Mas antes, em sua Sevilha natal, povoada por nobres, mercadores, eclesiásticos e viajantes de todas as origens, Diego de Silva Velázquez – como também ficou conhecido – convivia com as multidões de pobres, indigentes e delinquentes dessa cidade. Em meio a esse contraste, ele desenvolveu sua sensibilidade artística, que deixou transparecer em muitos de seus quadros em todas as fases de sua vida, mesmo quando já era o pintor do rei. Suas telas, mesmo as de temas religiosos ou mitológicos, estampavam rostos muito parecidos com os rostos da gente simples que ele conheceu em sua terra natal. Rostos enrugados, olhares perdidos, roupas rotas, aparência cansada da lida do dia a dia, surgem até mesmo em telas como ““Cristo na casa de Marta e Maria””, na ““Adoração dos Reis Magos””, na ““O Aguadeiro de Sevilha””, na ““Os Bêbados (Triunfo de Baco)””, na ““A Forja de Vulcano””. Até mesmo em seu apreciadíssimo quadro ““As Meninas””, quando em primeiro plano, à direita da infante Margarida, aparecem dois empregados da família real, a alemãzinha hidrocéfala e anã Mari-Bárbola e o pequeno italiano Nicolasito Pertusato, ambos acompanhados de um cachorro. Disse o jornalista e ativista político, combatente contra a ditadura de Franco, José Ortega y Gasset: “”Nosso Velázquez reúne alguns ganhadeiros, alguns pícaros, escória da cidade, sujos, ladinos e inertes. E lhes diz: Vinde, que vamos zombar dos deuses”.”


Velázquez: As Meninas, 1656
Mas o quadro mais famoso de Diego Velázquez é mesmo ““As Meninas””. Representava a família de Filipe IV, e foi pintado em 1656. Desde então, muito já se estudou, se escreveu e se elocubrou a respeito desse quadro, onde o próprio pintor aparece em auto-retrato.


A tela mede 312 x 276cm, e as figuras estão pintadas em tamanho natural. Ao centro, em primeiro plano, surge iluminada a figura da infanta Margarida-Teresa, com cinco anos de idade, sendo acompanhada por duas damas de companhia. Além dos anões e do cachorro, já citados, surgem mais três figuras de empregados da corte: logo atrás à direita, uma camareira e um ajudante de ordens. Ao fundo do quadro, através de uma porta aberta, surge a figura de José Nieto Velázquez, parente do pintor e tapeceiro do palácio. Também ao fundo, à esquerda, um grande espelho de moldura escura reflete os rostos do rei e da rainha, que estariam, segundo parece, à frente de todo o grupo e no próprio lugar da pessoa que examina o quadro. O pintor, na tela, com pincel e palheta nas mãos, tem diante de si uma grande tela. Também ele está olhando para nós, os observadores do quadro – ou para o casal real, segundo o ponto de vista escolhido.


Mas penso, enquanto olho para o incrível quadro desse grande pintor, que há uma grande dica que Velázquez continua dando através dele, 354 anos depois: o observador vê a realidade refletida nesta pintura e é, ao mesmo tempo, observado por ela. Lembro-me dos primeiros experimentos da Física Quântica, quando os físicos se depararam com o estranho comportamento das partículas, que pareciam sofrer interferência da observação. Observador e observado em perfeita sincronia. Diante do gigantismo desta tela, não há como não ficar um tanto quanto inquieto com esses olhares, que se lançam do quadro ao espectador, criando essa relação enigmática entre o observador e o quadro. Isso me leva a pensar, a seguir, que os laços que unem realidade e sensibilidade do artista são infinitos. Não se trata de retratar a realidade tal como ela é, como na pintura acadêmica tradicional, ou mesmo no estilo hiper-realista. Trata-se sobretudo de apreender a realidade e refletir sobre ela, devolvendo-lhe uma nova característica, que o olhar do artista transmuta com seu pincel. Carolus-Duran costumava ensinar a seus alunos no atelier, dizendo que é preciso “exprimir o máximo, com o mínimo de meios”.


Velázquez:
Pablo de Valadolid,
1632/1635
No exercício de perceber a realidade, o pintor recria-a, remodela-a e apresenta-a ao espectador, modificada, convidando-lhe também a uma nova visão sobre o mundo. Porque afinal de contas, a vida nos convida todo tempo a APRENDER A VER, a cada momento com um olhar diferente, sem as escamas que nos são lançadas aos olhos pelo sistema vigente (e pela mídia). Cria-se então essa relação dialética entre Realidade e Arte, uma interferindo na outra, em ritmos tensos ou frouxos, mas provocando o movimento natural da vida.


Penso, por fim, que uma tela de 354 anos, mostra que a Realidade, mutável e infinita, será sempre o referencial infindável iluminador da criatividade de tantos e tantos artistas, os que vieram e os que estão por vir. Porque, afinal de contas, uma cadeia de DNA onde constam nomes como Caravaggio, El Greco, Velázquez, Courbet, Fantin Latour, Rosa Bonheur, John Sargent, Vladimir Tatlin, Alexander Rodchenko, Diego Rivera, e tantos outros artistas desse calibre, ainda dará muito o que falar na História da Arte, que é também uma parte importante da história da humanidade.


Penso que a arte realista acima de tudo é uma arte humanista, com tudo o que de belo essa palavra esconde em si.

O direito de dizer "não gostei"

Andy Warhol
Foi inaugurada na Pinacoteca de São Paulo, neste 20 de março, uma exposição com 170 trabalhos do norte-americano Andy Warhol. São pinturas, gravuras, fotografias, filmes e instalações de um dos ícones preferidos da mídia. E de uma certa categoria de gente (dessa gente que gosta de estar na onda da moda) que “ama de paixão” a arte contemporânea.

Mas... Quem foi Andy Warhol?

Warhol nasceu em 1928, na Pensilvânia, EUA, e era o quarto filho de uma família de operários imigrantes, originários da Eslováquia, fronteira com a Polônia. Em 1945, com 17 anos de idade, entrou na, hoje, Universidade Carnegie Mellon, onde se graduou em Design. Logo depois, mudou-se para Nova Iorque onde começou a trabalhar como ilustrador de revistas como a Vogue e a New Yorker. Também fazia anúncios publicitários e dispositivos para vitrines de lojas. Como artista gráfico e diretor de arte, ganhou diversos prêmios. Sua primeira exposição individual aconteceu em 1952, com quinze desenhos baseados na obra de Truman Capote. E a partir daí começa a se construir o personagem Andy Warhol.

No início dos anos 60, em plena Guerra Fria entre os EUA e a União Soviética, os planos norte-americanos de transformar Nova Iorque num centro cultural já estava em pleno andamento. Jackson Pollock, De Kooning e Mark Rothko já eram figuras de proa no Expressionismo Abstrato daquele país, uma estética que representava – para os mandarins culturais ideológicos dos EUA – a ideologia da liberdade, da livre iniciativa e, sobretudo, anticomunista.

Foi nesse meio que o artista gráfico Andy Warhol se formou e começou a construir a personagem Andy Warhol.

Fui ver esta exposição, que se intitula muito apropriadamente “Mr. America”, em Buenos Aires, em dezembro passado, no MALBA. Foi no mínimo curioso ir ver uma exposição como esta, de Andy Warhol, num museu que se chama de Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires e que ocupava três andares, sendo apenas um reservado para os realmente artistas latino-americanos. É a mesma exposição que passou pela Museu del Banco de Bogotá na Colômbia e que agora se inaugura aqui em São Paulo. Essa mostra traz uma boa parte do trabalho desse artista, o que é útil para aqueles que desejarem um conhecimento maior sobre ele. Ou para se juntar à trupe que o aplaude, ou para simplesmente confirmar, ao vivo, que ele realmente nada tinha a dizer que valesse a pena.

Ou melhor, tinha. Warhol se formou no meio da publicidade e do design. Sua importância, enquanto artista deve-se ao fato de que soube, mais do que ninguém, fazer a aproximação máxima entre arte e capitalismo. Show man e show business em potencial – teve até um programa na MTV – Warhol não tinha vergonha de assumir: “Sou uma pessoa profundamente superficial. As palavras enchem espaço. Prefiro encher a carteira”. Para ele o artista devia ser uma estrela, como as hollywoodianas, e todos deveriam perseguir seus “quinze minutos de fama”.

Logo no começo da mostra, entre os primeiros quadros, um que representa o Tio Sam, claro, pois a mostra se chama “Mr. America”. Seguem-se a ele, alguns auto-retratos com Warhol fantasiado de dragqueen. E mais à frente, as famosas serigrafias e estêncils com a logomarca das Sopas Campbell, seguidos por colagens com notas de dólar, e fotografias da Estátua da Liberdade. Deparo-me com a seguinte frase, entre os quadros: “De nenhuma maneira trato de fazer uma crítica aos EUA e nem mostrar coisas feias”. Anotei esta frase no caderninho que me acompanha nas exposições, para não esquecer. Em seguida, passa-se por alguns quadros representando uma morte em cadeira elétrica, um acidente automobilístico e um suicídio – o máximo de “denúncia social” a que o artista se propôs. Mas diz logo em seguida: “Creio que minha arte representa os EUA, mas não faço crítica social: só pinto esses objetos em minhas obras porque são os que melhor conheço”.

Como bom publicitário, ele inaugurou a fase (que ainda dura e ninguém aguenta mais tanta variação sobre o mesmo tema) onde se usa uma marca, um objeto, um produto do mercado de consumo, tentando-se elevá-los ao status de obra de arte. Transformando tudo em produto, como é próprio do sistema capitalista, além das sopas Campbell, Andy Warhol brincou com retratos, como o cansativamente reproduzido Marilyn Monroe, mas também com o de Mao Tse Tung e de Lenin. Por isso, quando vemos broches e camisetas do Che à venda em lojas de departamentos – o Che, o grande revolucionário latino-americano, anticapitalista e cuja face foi transformada em produto de grife – devemos isso ao grande inovador da publicidade-pop-arte-capitalista Andy Warhol.

Porque para ele, acima de tudo, arte era um negócio e, no final da vida, também apenas assinava as serigrafias que sua equipe produzia como autêntica. Já estava em pleno funcionamento a sua indústria artística, que era ao mesmo tempo espetáculo. Assim como suas obras, Andy Warhol se transformou também numa logomarca, numa virtualidade incorpórea. Ele era a própria americanização da arte tão desejada pelos autores norte-americanos da Guerra Fria, ou seja, uma forma nova de se fazer e pensar(?) a arte, com o artista e sua obra se transformando em um espetáculo ao qual todos podiam assistir em horário nobre. A imagem acima de tudo, mas uma imagem irreal. Quanto mais distante da realidade mais venerável.

Todos esses não são valores ainda muito atuais? Talvez seja por isso que Andy Warhol tenha ainda uma legião de fãs entre uma maioria de desinformados, porque a marca, o produto de mídia “Andy Warhol” ainda se multiplica e ainda vende. Ele mesmo, em várias de suas famosas tentativas de profetização, declarou que a “arte empresarial é o passo que vem depois da arte”. E acrescenta: “Depois que fiz a coisa chamada 'arte', ou seja lá como chamam, entrei na arte empresarial”, porque “ser bom nos negócios é o tipo mais fascinante de arte”. Nada mais próximo da receita atual de capitalismo e também do modelo de arte do mercado: pega-se um artista – ou um não-artista, melhor ainda se tiver um 'não' antes – e sua brilhante ideia, passa-se pela peneira da midia, transforma-se ambos em uma grande novidade, combina-se que aquela obra foi vendida por milhões de dólares (às vezes é real!), lança-se artista e produto no mercado de ações, assiste-se freneticamente ao subir de suas cotações nas Bolsas de Valores, atinge-se o clímax ao som das notas de dólares preenchendo as carteiras (né, Warhol?) e, após o orgasmo, poucos sobram para continuarem em movimento de sobe-e-desce. Até vir o próximo.

Mas vale a pena ir ver Andy Warhol na Estação Pinacoteca de São Paulo. Aliás, vale a pena ir ver exposições, sempre, sempre, sempre! Mesmo que o que se apresente aos nossos olhos não seja do nosso gosto. Sim! Porque nós PODEMOS dizer que não gostamos – se não gostamos – seja de Andy Warhol ou de Vik Muniz! Porque hoje em dia até mesmo o básico direito de torcer o nariz para os artistas endeusados pela midia e curadores (mercadores) de arte, é recebido como ignorância! “Andy Warhol – dizem “eles” - era um artista rebelde, que via a sociedade com cinismo”, apesar de ter se dado muito bem com essa mesma sociedade! Mas prefiro ficar com o jornalista brasileiro Luciano Trigo, que diz que quem enxerga na obra de Warhol “uma crítica à sociedade de consumo não entendeu nada”.

Anita, a mulher que modernizou as artes brasileiras

“Não posso falar pelos meus
companheiros de então, mas eu,

pessoalmente, devo a revelação do novo
e a convicção da revolta a ela
e à força de seus quadros”.
(Mário de Andrade)



A obra de Anita Catarina Malfatti, uma das pintoras brasileiras de maior destaque, está tendo uma retrospectiva, em exposição do Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília. A mostra, que foi inaugurada no dia 23 de fevereiro e permanecerá até 24 de abril de 2010, apresenta 120 obras de 70 colecionadores particulares e de museus.

Anita Malfatti, nascida em São Paulo no dia 2 de dezembro de 1889, era filha do italiano Samuel Malfatti e de Betty Krug, norte-americana de origem alemã. Uma característica de sua personalidade era enfrentar os próprios medos e limites, desafiando sua própria fragilidade. A prova disso é que fez um esforço para aprender a desenhar com a mão esquerda, por causa da distrofia de que sofria na mão direita. Além disso, ela fez viagens ao exterior, em um tempo onde não era comum uma moça viajar sozinha pelo mundo. Por volta de 1912, ela foi para a Alemanha, patrocinada por um de seus tios maternos, que incentivava seu estudo de pintura. Depois de passar cerca de quatro anos entre Berlim e Dresden, Anita voltou ao Brasil, para depois viajar em mais uma temporada de estudos, desta vez aos Estados Unidos.

Anita Malfatti com 23 anos
Por que Alemanha e Estados Unidos e não Paris, o destino desejado por qualquer artista plástico de sua época? Em entrevista à professora e estudiosa de Arte, Aracy Amaral, a irmã de Anita, Georgina Malfatti, explicou que isso se deu porque sua família vinha desses países, e essas línguas lhes eram familiares.

De sua experiência na Alemanha, disse Anita: “Procurei o homem de todas as cores, Lowis Corinth, e dentro de uma semana comecei a trabalhar na aula desse professor. (…) Não me lembro das comidas, dos cansaços, das viagens desse tempo, só da alegria de descobrir cores. Fiz uma viagem para o sul da Alemanha para ver a primeira grande exposição dos pós-impressionistas. Pissarro, Monet, Sisley, Picasso, o 'douanier' Rousseau, Gauguin e Van Gogh. Vi também Cézanne e Renoir”...

Voltou ao Brasil cheia de entusiasmo com o expressionismo alemão, mas não encontrou forma de compartilhá-lo com sua família. Ninguém lá gostou dos quadros expressionistas que ela trouxe de sua temporada do lado de artistas alemães. Isso impactou a artista de uma forma muito desestimulante, o que se repetiu em vários outros momentos de sua vida.

A estudante, 1915-1916, de Anita Malfatti
Mais uma vez ela obteve possibilidade de fazer novos estudos, desta vez nos Estados Unidos. Lá o grupo “Ash Can School” se solidificava em torno de uma série de pintores realistas americanos empenhados em retratar cenas da vida das cidades que começavam a absorver as populações de origem rural. Anita deve ter chegado aos EUA por volta de 1915. Em 1913 havia acontecido em Nova Iorque o “Armory Show”, um acontecimento artístico que representou para os EUA o que a Semana de 22 representa para nós, brasileiros. A artista encontrou, então, um ambiente de grande efervescência cultural e artística, muito reestimulante para ela. Anita estudou inicialmente na “Art Students League”, mas um pouco decepcionada com essa escola, procurou o atelier de Homer Boss, um pintor já muito conhecido, com quem ela aprendeu muito.

Em Nova Iorque, convivendo mais uma vez com artistas que se empenhavam na pesquisa de novas estéticas, Anita Malfatti viveu uma das fases mais intensas de sua vida artística, e foi uma época onde ela pintou muito, convivendo inclusive com artistas europeus que buscavam nos EUA refúgio contra a guerra e a fome. “Só falavam no cubismo”, ela disse “e nós começamos a fazer as primeiras experiências”.

A volta ao Brasil, mais uma vez, foi um baque para ela, por causa do conservadorismo reinante na São Paulo provinciana e pequena. “Quando viram minhas telas todos as acharam feias, dantescas, e todos ficaram tristes, não eram os santinhos dos colégios. Guardei as telas”, lamentou ela.

Mas em seguida, apareceu um convite para que ela expusesse esses quadros,, o que aconteceu de dezembro de 1917 a janeiro de 1918. Exposições eram raras por aqui, e apenas ocorriam por obra de viajantes de passagem, portugueses e italianos. O primeiro Salão paulista de Arte só surgiu em 1922.

Mas voltando à exposição de 1917, Anita mostrou que ousara como pintora, e seus quadros, no dizer de Aracy Amaral, “expressavam força, firmeza e vitalidade”. Eram 53 trabalhos entre pinturas, gravuras em metal, aquarelas, desenhos e caricaturas. Essa Exposição de Anita Malfatti, que aconteceu na rua Líbero Badaró, centro de São Paulo, chocou e desestruturou a consciência estética baseada até então num ideal de beleza acadêmico e neoclássico.

Monteiro Lobato escreveu no jornal “O Estado de São Paulo” uma crítica feroz à jovem pintora que tinha tido coragem de atacar os cânones da época. O artigo intitulado “A propósito da Exposição Malfatti – Paranóia ou Mistificação?”, publicado no dia 20 de dezembro de 1917, representava o conservadorismo em pânico, que se via ameaçado por uma jovem artista, frágil, tímida e com distrofia na mão direita, mas com uma vigorosa linguagem expressionista.

A Exposição de Anita de 1917 teve um papel revolucionário. Foi o estopim da pintura moderna no Brasil e o marco inicial de um movimento modernizante que culminou na Semana de Arte Moderna de 1922, e ela atraiu as atenções de um grupo de escritores jovens, como Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Menotti Del Picchia, que tomaram a sua defesa contra os ataques conservadores de setores retrógrados da Paulicéia.

Mário de Andrade escreveu: “Parece absurdo, mas aqueles quadros foram a revelação. E ilhados na enchente de escândalo que tomara a cidade, nós, três ou quatro, delirávamos de êxtase diante de quadros que chamavam “O Homem Amarelo”, “Estudante Russa”, “Mulher de Cabelos Verdes”... (…) Éramos assim”.

O artigo violento de Lobato feriu profundamente a artista. Ela já convivia com a falta de apoio de sua família, a quem era muito apegada, e que preferia que seus quadros seguissem o estilo acadêmico. Anos depois, lembrando deste fato, Mário de Andrade diria: “... (ela) brigava todo dia consigo mesma porque tudo nela dizia 'Faça obra expressionista' porém a vontade berrava 'Faça obra impressionista pros outros lhe quererem bem' e a mão dela indecisa, tremendo entre essas coisas diferentes, se perdia pouco a pouco e se perdeu”.

Mas já estava cumprido seu papel histórico de unir as forças jovens em busca de um novo tempo nas artes. A pintora da “Estudante Russa”, de “A Boba”, de “O Farol”, está registrada como um marco para a pintura contemporânea brasileira. Anita é bandeira de renovação, mesmo que sua carreira não tenha prosseguido com aquela força inicial, e seja marcada pela inconstância. Era uma moça tímida em resistência contra toda uma sociedade atrasada. Era uma pintora, que com seus quadros ameaçava o conservadorismo do seu tempo.

Anita Malfatti: O Farol
Neste dia 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, nada melhor do que relembrar essa figura de Anita Malfatti, que mudou os rumos da pintura brasileira e fez Mário de Andrade afirmar, anos depois: “... (meus companheiros) podem testemunhar se o primeiro espírito de luta, a primeira consciência coletiva, a primeira necessidade de arregimentação foi despertada ou não pelo que se passava na cidade, com a exposição de Anita Malfatti. Foi ela, foram seus quadros que nos deram uma primeira consciência de revolta e de coletividade em luta pela modernização das artes brasileiras. Pelo menos a mim.”

"Vejo o tempo obrar a sua arte..."

Tela "Os operários" de Tarsila do  Amaral, uma das pintoras modernistas brasileiras.
Tela "Os operários" de Tarsila do Amaral, uma das pintoras modernistas brasileiras.
"Vejo o tempo obrar a sua arte
tendo o mesmo artista como tela
Modelando o artista ao seu feitio

O tempo, com seu lápis impreciso
Põe-lhe rugas ao redor da boca
Como contrapesos de um sorriso”.

(Tempo e artista, Chico Buarque, 1993)

Muiitas vezes nos perguntamos o porquê de necessitarmos, de vez em quando, olhar para o passado. É como nossa âncora, que, apoiada no leito do rio, nos fornece segurança. Olhar para trás com “o olho de águia do pensamento”, como dizia Marx, para sabermos exatamente onde pisamos. Ou para compreendermos melhor o momento presente, o que facilita nossa ação.

Voltemos à Semana de Arte Moderna de fevereiro de 1922 no Brasil, um evento que, por si só, seria desimportante, não fosse o contexto histórico em que se deu, tanto nacional quanto internacionalmente.

O mundo capitalista produzira uma Primeira Guerra sangrenta, enquanto na Rússia a Revolução Socialista saíra vitoriosa em 1917. O Brasil, especialmente São Paulo, se industrializava, e uma parcela muito grande de imigrantes chegava, em busca de trabalho. Greves operárias muito importantes estouraram em 1917, mesmo ano em que a pintora Anita Malfatti expôs pela primeira vez suas pinturas com clara influência do Expressionismo alemão, que tanto chocou o escritor Monteiro Lobato, avesso às novidades vindas de fora.

No próprio ano de 1922, enquanto os cabeças do movimento modernista preparavam a Semana de Arte Moderna, tenentes começavam a se sublevar nos quartéis e a preparar a famosa Revolta do Forte de Copacabana. Também germinava e frutificava a criação do Partido Comunista do Brasil, em 25 de março. Nas Artes, os sopros das mudanças que ocorriam na Europa desde o século passado, começava a incomodar nossos artistas, levando-os a buscar novos caminhos, na literatura, na música, na pintura...

Na pintura, predominava a arte acadêmica, monitorada pela Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro. Mantinha a tradição, ou, melhor dizendo, mantinha os ensinamentos que começaram com a chegada da Missão Artística Francesa, lá pelos idos de 1816. Predominava a pintura de figuras ilustres, de cenas bíblicas, de heróis e acontecimentos nacionais relevantes. É quando surge o pintor Almeida Júnior, formado inicialmente dentro do ambiente acadêmico. Este artista, depois de uma temporada na França de onde voltou em 1882, resolveu voltar os olhos para a temática regional, afirmando sua vontade de identidade com uma nação que fosse soberana. Inspirado na revolução estética do Realismo de Gustave Courbet (que preferia “pintar a verdade do que a formosura”), inaugurou o Realismo no Brasil e a primeira grande mudança nas Belas Artes brasileiras, voltando seu cavalete para a gente do povo. Ele foi a semente da futura ruptura estética causada pela Semana de 22.

O movimento modernista e modernizante, de um Brasil que se industrializava e caminhava para o seu segundo ciclo civilizatório representado pela Revolução de 30, espalhou-se em ondas pelo país, afetando as nossas artes.

Mário Zanini, Igreja de São Vicente, 1940
Em 1935, no centro de São Paulo, um grupo de trabalhadores iniciou o que ficou conhecido por Grupo Santa Helena. Eles se reuniam aos finais de semana no atelier de Francisco Rebolo localizado no Edifício Santa Helena, Praça da Sé. Para lá acorriam os pintores de parede Alfredo Volpi e Mário Zanini, o ferroviário Clóvis Graciano, o ourives Manoel Martins, o mecânico Alfredo Rizzoti, o dono de açougue Fúlvio Penacchi, o figurinista e bordadeiro Aldo Bonadei e o professor de desenho Humberto Rosa. Todos de origem humilde. Todos inscreveram seus nomes com fortes tintas na História da Arte brasileira! Pesquisando e estudando sozinhos, foram reconhecidos muito depois dos eventos da Semana de Arte Moderna, pela qualidade de suas obras.

No Rio de Janeiro, em 1931, cria-se o Núcleo Bernardelli. Seu primeiro presidente foi o artista Edson Motta, ligado à Escola Nacional de Belas Artes, mas que sonhava em trazer o modernismo para sua cidade. Organiza um Salão de Artes em 1931 com a finalidade de apresentar uma nova linguagem artística. É lá que se destacam pela primeira vez os artistas Manoel Santiago, Roberto Burle Max, Quirino Campofiorito, Rui Campelo, Cândida Cerqueira, entre outros.

Em 1938, no Rio Grande do Sul, é criada a Associação Riograndense de Artes Plásticas Francisco Lisboa, onde despontou a genialidade do artista Carlos Scliar (que foi durante muito tempo filiado ao PCdoB, como tantos artistas pelo Brasil a fora).

No Paraná, em 1940, destaca-se o gravurista Poty Lazzarotto e em 1948 é criada a Escola de Música e Belas Artes de Curitiba, com destaque para o pintor Lóio Pérsio.

Em Fortaleza, Ceará, em 1941, criou-se o Centro Cultural Belas Artes, onde se destacaram os artistas Antonio Bandeira, Inimá de Paula e Aldemir Martins. Este último, ganhou diversos prêmios com seus temas nordestinos, como na Bienal de São Paulo em 1955, e de Veneza em 1956.

Na Bahia, a partir de 1944 começou a ofensiva modernista em Salvador, com Carlos Bastos, Genaro de Carvalho, Rubem Valentim, Carybé, e outros.

Ainda em 1944, em Minas Gerais, o prefeito de Belo Horizonte Juscelino Kubitschek, organiza a primeira Mostra de Arte Moderna, além de apresentar ao público a arquitetura de Oscar Niemeyer.

Em Recife, no ano de 1950 criou-se a Sociedade Moderna do Recife, com os artistas Cícero Dias, Lula Cardoso Ayres, Reinaldo Fonseca e Francisco Brennand. Cícero Dias sempre se manteve fiel à temática de sua terra natal e seus quadros refletem a rica cultura pernambucana.

Em Natal, Rio Grande do Norte, em 1951 aconteceu a Primeira Mostra Moderna, nos Salões da Cruz Vermelha, destacando-se os artistas Dorian Gray Caldas, Newton Navarro e Ivan Rodrigues.

No Maranhão criou-se o Núcleo Eliseu Visconti, em 1959, com os artistas e intelectuais Ferreira Gullar, Luci Teixeira, Floriano Teixeira, Lago Burnett e Bandeira Tribuzi, que tinham a finalidade de renovar as artes maranhenses.

Ainda nos anos 40 foram criados o Museu de Arte de São Paulo (MASP), com o patrocínio de
Assis Chateubriand, assim como o Museu de Arte Moderna, também na capital paulista, e o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Em 1951, fruto de todo esse processo, é realizada a primeira Bienal de Arte de São Paulo.

Cena da peça de teatro do CPC da UNE:
A mais-valia vai acabar seu Edgar
Indo um pouco mais além, podemos dizer que os ventos da modernidade brasileira alcançaram os anos 60, com a fundação de Brasília, a Bossa Nova, o Teatro de Arena, o CPC da UNE, as Neovanguardas, o Cinema Novo, o Tropicalismo. Todos esses eram movimentos que guardavam uma crença na história e no sujeito, o que nos leva a refletir: nós, artistas, emitíamos nossos pontos de vista naquela época! Emitimos hoje? Alguém ouve o que não é dito? Ou diz-se hoje para uma minoria de iniciados que tratam o público dos museus e exposições como ignorante e atrasado porque simplesmente o público não “entende” e não gosta da sua “arte”? Como disse o poeta Ferreira Gullar sobre uma Instalação artística: “De gato morto e ovo frito no prato, sinceramente não sou obrigado a gostar!”

Porque hoje assistimos a essa “arte” que se voltou a falar para si mesma, quando deveria abandonar esse autismo-narcisismo e voltar a falar do mundo e da vida. A arte da moda, a arte-mercadoria, arte-coisa, arte-objeto, arte-conceito, arte discurso. Antiarte não é Arte. O cálculo, mesmo que conceitual, da arte contemporânea me faz lembrar o bom e velho Mário de Andrade em sua Ode ao Burguês, de onde extraio o verso que encerro por hoje a minha revolta:

“Fora os que algarismam os amanhãs!”

Nós, os antropófagos, e a Semana de 22

Cartaz da Semana de Arte Moderna de 1922
Em junho de 1556, os índios caetés – que habitavam uma parte do litoral alagoano – fizeram um verdadeiro banquete antropofágico: devoraram o primeiro bispo do Brasil (que era português), dom Pedro Fernandes de Sardinha. Por causa disso, os índios foram dizimados em cinco anos de guerra. “Tupi, or not tupi, that is the question”, diria Oswald de Andrade, 370 anos depois, em seu Manifesto Antropófago.

Em 1913, a Pinacoteca de São Paulo realizou uma Exposição de Arte Francesa, trazendo da Europa exemplares de mobiliário e decoração franceses, além de pinturas, com o intuito de inspirar, na sociedade paulistana, a estética do bom gosto europeu. A elite brasileira fazia questão, desde o século 19, de se manter em conformidade com a cultura europeia, importando os valores estrangeiros. Isso gerava também, é claro, alguns aspectos de distinção de classe, uma vez que não desejava ser confundida com negros, índios, mulatos, mestiços. Mais uma vez Oswald: “Foi porque nunca tivemos gramáticas, nem coleções de velhos vegetais. E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental”...

Mas o que esses dois fatos têm em comum? Exatamente a Semana de Arte Moderna de fevereiro de 1922, que se realizou há exatos 88 anos completados no próximo dia 13 de fevereiro.

A nata da sociedade paulistana que, naquelas três noites, subiu as escadas do Teatro Municipal de São Paulo – vestida rigorosamente à caráter para assistir a apresentações musicais de Heitor Villa-Lobos e Guiomar Novais, conforme dizia um pequeno reclame escondido num canto dos jornais da época – jamais poderia imaginar de que seria, muito à contragosto, testemunha histórica de um momento de virada na vida artística e cultural brasileira. Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Graça Aranha, Menotti Del Picchia, Di Cavalcanti, Anita Malfatti e outros jovens artistas brasileiros convencidos de que um salto havia que ser dado – um salto para DENTRO do Brasil, pois os ventos da modernidade forçavam esse salto – chocaram a platéia do teatro lotado, enquanto Ronald de Carvalho declamava em alto e bom som o poema “Os Sapos”, de Manuel Bandeira, que criticava o gosto da refinada poesia parnasiana:

“Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
- "Meu pai foi à guerra!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!"
O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: - "Meu cancioneiro
É bem martelado.”

As linhas neoclássicas dos detalhes arquitetônicos do Teatro Municipal pareciam vir abaixo! Vendo-se pega numa espécie de flagrante, a elite paulistana desabou em uivos, gritos e vaias, e o caos tomou conta da Semana de Arte Moderna de 1922. Nos dias que se seguiram, os jornais registravam aquele evento como uma “verdadeira falta de respeito” à gente tão refinada, à nata da sociedade paulistana! Um bando de rapazes e moças enlouquecidos, recitando poemas sem rima, sem metro, e mostrando pinturas e esculturas que eram um acinte ao gosto neoclássico e parnasiano da época! Um horror! As damas e os cavalheiros de Higienópolis e dos Campos Elíseos tinham sido acintosamente agredidos por aquele bando de loucos futuristas (denominação que se dava aos modernistas na época).

Mas além dos gritos histéricos e dos apupos, as senhoras e os senhores deixaram bilhetes malcriados atrás das pinturas expostas no hall do teatro, incapazes de achar beleza num homem que parecia sofrer do fígado de tão verde, numa tela de Anita Malfatti. Os modernistas haviam conseguido sacudir a modorrenta e provinciana elite de São Paulo, como o desejara Di Cavalcanti, que havia sugerido a Paulo Prado (escritor) a realização de "uma semana de escândalos literários e artísticos de meter estribos na burguesiazinha paulistana".

Eram os índios caetés de volta ao palco, sobre os ombros de Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Mário de Andrade, Di Cavalcanti e dos outros! A elite brasileira concentrada no Rio de Janeiro e em São Paulo, vivia sob os eflúvios da vida europeia, sua referência para todos os seus valores. A Europa estava lá para ser imitada e idolatrada! Nada da cultura da gentalha nacional, “peste dos chamados povos cultos e cristianizados”, diria Oswald de Andrade.

A Semana de Arte Moderna amplificou-se ao longo das décadas, e suas influências se seguiram além das três noitadas caóticas e ruidosas. Teriam feito ruído, os índios, enquanto comiam o bispo? Sua antropofagia alcançou os tempos novos que começavam com o modernismo brasileiro: já que “o de fora” é inevitável e deve ser assimilado, que ele seja primeiro deglutido! Deglutição pós deglutição, nas artes plásticas, Anita Malfatti e Di Cavalcanti, e depois Portinari, Tarsila do Amaral, Clovis Graciano, Carlos Scliar, Quirino e Hilda Campofiorito, Lívio Abramo – e tantos outros – expressaram em suas obras o efeito colateral da refeição cujo prato era (sempre) o modelo europeu: já que a nova estética exigia novos pincéis e novas formas de pintar, que se pintasse o Brasil. Que se modernizasse o Brasil.

Alguns dos modernistas de 22:
Mário de Andrade e outros
Essa onda modernista alcançava também o outro lado da cidade, a região do Brás e do Cambuci, aonde viviam os operários e os imigrantes pobres, como o pintor Alfredo Volpi. Esses artistas que estavam desse lado da cidade, criaram o chamado Grupo Santa Helena, que era uma comunidade de artistas que se encontravam para trabalhar e aprender juntos num mesmo prédio do centro de São Paulo. Desses modernistas de outro calibre – uma vez que não eram intelectuais como os outros – surgiram pintores como Rebolo, Aldo Bonadei, Clovis Graciano, Mário Zanini, etc, que foram reconhecidos a partir da década de 30.

Hoje, ano 454 da Deglutição do Bispo Sardinha, os efeitos da Semana de Arte Moderna de fevereiro de 1922 ainda continuam lançando suas questões: como defender a cultura brasileira em meio a um mundo “globalizado”? Como defender as artes plásticas dessa “arte” vazia de sentido e conteúdo, minimalista e cansativa (e já agonizante)? Como argumentar contra o idealismo conceitual que antecede a obra? Como permitir que possibilidades infinitas não sejam subjugadas pela mesmice estética imposta pelo sistema de arte atual? Como vencer o velho problema da falta de espaço para os reclames (e obras de arte) que não sejam os preferidos da mídia? Como continuar engolindo os novos Sardinha e não sofrer de indigestão? Como voltar a meter estribos na burguesiazinha metropolitana?

Oitenta e oito anos depois da eclosão modernista no Brasil, ainda vemos, felizmente, que os componentes e as facetas da realidade são riquíssimos e inumeráveis! À contragosto do atual establishment...

Como bons antropófagos, comamos-lhe!