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sexta-feira, 19 de maio de 2017

Isaac Levitan, pintor da paisagem russa

"Eterno silêncio", Isaac Levitan, óleo sobre tela, 1894
Retrato de Isaac Levitan,
por Valentin Serov
Isaac Ilich Levitan nasceu em 1860, em Kybartai, na Lituânia, filho de judeus pobres. Seu pai, Eliashiv Abramovich, era professor particular das línguas francesa e alemã, e com isso pagava as despesas familiares, mas também educava seus filhos. Levitan recebeu suas primeiras lições com seus pais, em casa. Sua mãe, Bert Moiseevna, também havia sido educada e valorizava muito a formação dos quatro filhos. No final da década de 1870, a família se mudou para Moscou. Lá, apesar de uma situação financeira ainda pior, os pais de Levitan queriam incentivar a paixão de seus filhos pela arte, o que mostraram desde o início, e não se opuseram à decisão de Isaac de se tornar um artista e entrar para a Faculdade de Pintura e Escultura de Moscou.

Em 1875, a família sofreu um duro golpe com a morte da mãe. Em seguida o pai ficou gravemente doente de tifo e não podia mais sustentar seus quatro filhos com as aulas particulares. Em 1876 Eliashiv faleceu.

Autorretrato, Isaac Levitan, 1880
Levitan passou sua juventude em extrema pobreza, sendo inclusive expulso da escola por não pagar seus estudos. Seus amigos reuniram o dinheiro necessário, e ele pode retornar às aulas. Mais tarde, o conselho de professores da faculdade decidiu deixá-lo estudar gratuitamente e até mesmo concedeu-lhe uma pequena bolsa de estudos, levando em conta o talento do rapaz. No mesmo ano, foi transferido para o curso de ciências naturais de Vasily Perov, que fazia parte do grupo “Os Errantes” (uma sociedade de artistas realistas russos formada em 1870).

Mais tarde, Levitan foi estudar com o famoso paisagista Aleksey Savrasov, que tomou conhecimento dos talentos de Levitan, assim como de sua pobreza, e lhe ajudou até financeiramente. Em 1877, na quinta exposição de arte de “Os Errantes” em Moscou, exibida no edifício da faculdade, Levitan participou com duas pinturas. Apesar de terem recebido grande aclamação, o Conselho Universitário só lhe ofereceu um diploma que lhe dava o direito de ensinar arte. Mesmo assim, segundo seu amigo Mikhail Nesterov, Levitan havia “trabalhado duro” e merecia o prêmio.

"Dia ensolarado", Levitan,
óleo sobre tela, 1876
Em 1879, o revolucionário judeu Alexander Soloviev tentou matar o czar Alexandre II, disparando seu revólver contra ele. O czar conseguiu fugir, e Soloviev foi condenado à morte por enforcamento. Por causa disso, foi decretada oficialmente a proibição aos judeus de viver na capital russa. Isaac e seus irmãos tiveram que deixar a cidade e se estabeleceram numa pequena casa na província de Saltykova. Nesse mesmo ano ele conseguiu vender sua pintura “Noite depois da chuva”. Continuava pintando sem parar a paisagem de seu país, apesar dos preconceitos que sofria por ter origem judaica. “O menino judeu talentoso incomodava outros professores que diziam que ‘judeu não deve pintar a paisagem russa’”. Mesmo assim, aos 24 anos de idade Isaac Levitan já tinha seu diploma de Pintor pela Faculdade de Pintura e Escultura de Moscou.

No mesmo ano, 1879, Levitan participou de uma segunda exposição de estudantes onde exibiu sua pintura "Um dia no outono em Sokolniki", que foi adquirido por Pavel Tretyakov e, com isso, seu talento foi reconhecido oficialmente.

Somente em meados da década de 1880 sua situação financeira começou a melhorar, graças a trabalho duro e muito sacrifício. Ele conheceu e se tornou grande amigo do escritor russo Anton Tchekhov, quando ainda ambos eram estudantes pobres. Mantiveram contato durante a década de 1880, encontrando-se constantemente em Moscou e nos arredores e foram os melhores amigos até os últimos dias de Levitan. Sua amizade era baseada em uma percepção similar sobre a natureza e sobre o mundo. 

"Depois da chuva", Levitan, óleo sobre tela
Em 1887 realizou seu grande desejo de conhecer o rio Volga, bastante retratado por seu professor de paisagens Savrasov. Mas seu primeiro contato foi frustrante: o dia estava muito frio e muito nublado e o rio lhe pareceu “triste e morto”. 

"Dia de outono", Levitan,
óleo sobre tela, 1879
Voltou no ano seguinte, na primavera, junto com outros artistas como Alexei Stepanov e Sofey Kuvshinikovoy. Durante a viagem, os amigos descobriram a beleza da pequena cidade de Plyos, próxima a Moscou, às margens do Volga. Resolveram ficar por lá um tempo e ele passou três temporadas de verão bastante produtivo, quando executou cerca de 200 obras. Esse esforço lhe rendeu fama e Levitan passou a ser popularmente conhecido como pintor de paisagens.

É desse período sua pintura "O refúgio silencioso". Seus contemporâneos diziam que essa pintura mostrava a natureza russa como "algo novo, mas muito próximo e querido". Desde então, todas as exposições itinerantes, assim como todas as exposições da Sociedade dos Amantes da Arte de Moscou e as exposições internacionais em Munique apresentavam obras de Levitan.

No final de 1889, pela primeira vez Isaac Levitan viajou para a Europa Ocidental, visitando França e Itália. Queria ver a pintura impressionista de perto mas, voltando a seu país, se manteve fiel a seu próprio caminho pictórico. 

Novamente foi obrigado a deixar Moscou em 1892, por ser de origem judaica. Viveu um tempo nas províncias de Tver e Vladimir. Graças a esforços de seus amigos, Levitan obteve uma “permissão especial” para voltar a viver em Moscou. Em seguida, viajou à Finlândia. Neste mesmo ano teve um infarto, do qual não se recuperou mais. 

Faculdade de Pintura, Escultura
e Arquitetura de Moscou
Sua saúde era muito frágil. Seus biógrafos dizem que por causa da fome que passou na infância e de uma vida sempre atribulada, Levitan desenvolveu problemas cardíacos muito cedo. O ano de 1895 foi um ano muito difícil para o artista. A doença do coração lhe trazia muita dor e sofrimento, e juntando a isso problemas em sua vida pessoal, Isaac Levitan vivia melancólico o que levou-o ao desespero e a tentar o suicídio. Mas seu amor pela natureza e pela arte o sustentou e o ajudou a superar sua doença e a fazer novas descobertas na arte. Em 1896 participou de mais uma exposição coletiva, desta vez na província de Odessa.

O melhor amigo, o escritor
Anton Tchekhov
Em 1897 escreveu a Tchekhov: “As coisas estão ruins. Meu coração não bate, sopra. Em vez de tum-tum eu ouço pfff…” Em março, em Moscou, teve um encontro com Pavel Tretyakov. 

Em 1898 recebeu o título acadêmico de “pintor de paisagens” e passou a ensinar pintura na mesma escola em que estudou em Moscou. Lá, criou um local especial para a pintura de paisagem, um lugar onde poderiam trabalhar todos os pintores de paisagens russas. Um de seus estudantes ressaltou a grande influência de Isaac Levitan em sua vida de artista: “sob sua orientação, a pintura ia tomando vida, cada vez de forma nova, como as suas próprias, que eram verdadeiros cantos da mãe natureza que ele percebia mais do que ninguém”. 

Em 1899, os médicos o enviaram para passar uma temporada em Yalta, onde vivia Tchekhov, que viu seu amigo chegando ofegante, pesadamente apoiado em sua bengala, falando que a morte se aproximava dele. Seu coração doía quase continuamente…

O pintor Serov, pintando Levitan
Mas os ares de Yalta nada puderam fazer pelo pintor doente. Levitan retornou a Moscou e quase não saía mais de casa. Em maio de 1900, Tchekhov foi visitar o amigo, agora gravemente doente. No dia 22 de julho, por volta das oito horas da manhã, seu coração parou de bater. Faltava pouco tempo para completar 40 anos de idade. Em sua oficina, mais de 40 pinturas estavam inacabadas e deixara mais de 300 esboços. A última pintura em que trabalhou foi “Lago”, também inacabada. Foi enterrado no cemitério judeu de Dorogomilovsky. Em seu funeral, estavam presentes os pintores Valentin Serov, Apolinário Vasnetsov, Konstantin Korovin, entre outros, assim como alguns de seus alunos, amigos e admiradores.

Em 1901 foi realizada uma exposição póstuma de obras de Isaac Levitan em São Petersburgo e Moscou, entre elas a pintura inacabada "Lago", que mostra a natureza russa a partir do sentimentos e pensamentos do artista a respeito da Rússia, que ele considerava sua pátria. Dois anos depois, seu irmão Abel Levitan erigiu um monumento no túmulo de seu irmão.

Em abril de 1941 seus restos mortais foram transferidos para o Cemitério Novodevichy, ao lado dos túmulos de seus amigos Tchekhov e Nesterov. 

Isaac Levitan deixou mais de mil pinturas!

Abaixo, você pode apreciar uma pequena amostra das obras deste grande mestre:


"Savvinskaya sloboda perto de Zvenigorod", Levitan, 1884
"Crepúsculo na dacha", Levitan



"Março", Levitan, 1895

"Nenúfares", Levitan, 1895

"A noite após a chuva", Levitan, 1879
"Noite no rio", Levitan



"Outono dourado", Levitan, 1895

"Ponte em Savvinskaya Sloboda", Levitan, 1884

"Primavera na Itália", Levitan, 1890

"Rosas", Levitan

"Claustro tranquilo", Levitan, 1890

"Vladimir", Levitan, 1892

"Fortaleza na Finlândia", Levitan
"Lago", última pintura de Levitan, 1900 - inacabada

quarta-feira, 19 de abril de 2017

O círculo de artistas de Mamontov - os precursores


Foto de 1885 de grupo de artistas e intelectuais.
Ilya Repin é este baixinho sentado em penúltimo lugar à direita
Retrato de Savva Mamontov,
pintura a óleo de Ilya Repin
Savva Ivanovich Mamontov, nascido em 1841, foi um industrial russo, o magnata das estradas de ferro que se tornou famoso também por ter sido um grande patrocinador da arte russa do seu período. Tendo estudado em universidades de São Petersburgo e Moscou, também era cantor, escultor, diretor e autor de peças de teatro.

Camilla Gray, autora do livro “O experimento em arte russa” afirma que o nascimento do movimento moderno da arte naquele país pode ser localizado no grupo de artistas que se reuniam em torno deste industrial de grande visão. Na sua casa em Abramtsevo, próximo a Moscou, Mamontov atraía “as personalidades mais progressistas de sua época”: pintores, compositores, cantores, arquitetos, historiadores de arte, arqueólogos, escritores e atores. Entre eles estavam Konstantin Korovin, Rafael Levitsky, Ilya Repin, Vasily Polenov, Valentin Serov. Mamontov também chegou a patrocinar compositores russo como Pyotr Tchaikovsky, Nikolai Rimsky-Korsakov, Alexander Borodin e Modest Musorgsky.

Estes personagens do mundo artístico e intelectual russo começaram a provocar a todo-poderosa Academia de Belas-Artes de São Petersburgo, cujo sistema “tinha controlado completamente a vida artística do país, desde a sua fundação por Catarina a Grande”. Neste novo período, em que a Rússia dava os primeiros passos em seu desenvolvimento econômico, comerciantes e industriais milionários de Moscou é que passaram a ser os patronos das artes, em lugar da velha aristocracia.


A propriedade de Abramtsevo, dos Mamontov, até hoje bem conservada
Reunidos na casa de Abramtsevo, esses agrupamentos de artistas passaram a ser conhecidos como “O círculo de Mamontov”. Eles eram motivados por uma “determinação comum de criar uma nova cultura russa”.

O compositor Modest Mussorgsky,
estudo em óleo pintado por mim
com base no original de Ilya Repin
Em 1863, dois anos após a emancipação dos servos russos, um grupo de 13 artistas, liderados por Ivan Kramskoi, anunciou seu desligamento da Academia de Artes de São Petersburgo, inspirados pelo desejo de levar a arte para o povo e pela vontade de voltarem suas pinturas para a realidade. Esse grupo se auto intitulava “Os Errantes”, pois sua ideia era a de fazer exposições itinerantes em todos os cantos do país, em especial para os camponeses.

Junto com Dostoievsky, Tolstoi, Turgeniev (escritores), Mussorgsky, Borodin e Rimsky-Korsakov (compositores) eles queriam tornar sua arte “útil” para a sociedade. Repudiavam o conceito da “arte pela arte”, pregado na academia, que se inspirava nos padrões neoclássicos do Ocidente e no romantismo alemão. “Os Errantes” defendiam a ideia de que a arte deveria em primeiro lugar se preocupar com a realidade e se subordinar a ela. É nesta direção onde podemos encontrar todo o realismo da pintura de Ilya Repin, por exemplo.

O grande inspirador destes artistas era o pensador Nicolai Chernichevsky, socialista, filósofo materialista e crítico de arte. “A realidade é mais bela que sua representação em arte”, dizia e, por isso, “A verdadeira função da arte é explicar a vida e comentá-la”. Ele era uma espécie de “propagandista estético” dos anos 1860, observa Camilla Gray.

Nesta linha de pensamento, os artistas de “Os Errantes” consideravam que a arte seria uma força ativa “em prol da reforma social” e este deveria ser sempre o motivo para a escolha dos temas de suas obras. “Só o conteúdo é capaz de refutar a acusação de que a arte é uma diversão vazia”, apontava Chernichevsky. Neste sentido, os escritores buscaram – “de maneira muito literal e literária”, diz Gray – descrever a vida do camponês, com sua inocência e austeridade, como a de verdadeiros heróis. Junto com eles, os pintores pretendiam “despertar a compaixão e a simpatia pelo homem comum”. Essas figuras do povo jamais haviam sido tema para a arte em nenhum período da Rússia. 

Garota com os pêssegos,
pintura a óleo de Valentin Serov, 1887
Esta era também uma forma de defender a tradição cultural, o modo de vida do povo, em contraponto à europeização do país que havia começado desde Pedro o Grande. Desde então, “tudo o que era russo era descartado como bárbaro, rude” e até mesmo a palavra “cultura” significava algo essencialmente estrangeiro. Neste aspecto, isso não lembra o nosso próprio país, o Brasil, cuja elite - historicamente e até hoje, 2017 - ainda carrega a “síndrome de vira-latas” em relação à Europa?

Aqueles eram tempos de grandes contendas intelectuais entre dois movimentos teóricos: os “Eslavófilos” e os “Ocidentalistas”. O primeiro rejeitava a cultura ocidental, o segundo a defendia. “Os Errantes” não participavam diretamente do movimento eslavófilo, mas buscavam criar uma “cultura nacional nova que fosse baseada no camponês russo e nas tradições artísticas nacionais de há muito negligenciadas”, observa Camilla. Os eslavófilos também defendiam um modelo de desenvolvimento nacional, sem se espelhar no Ocidente, que se inspirasse na “primitiva glória de Moscóvia” e nos direcionamentos do cristianismo ortodoxo primordial. Além de tudo, tinha que se recuperar o poder de Moscou e diminuir o de São Petersburgo, cidade mais aristocrata.

Camilla Gray afirma: “Essa guinada para Moscou foi significativa para a arte”.

"Eles não o esperavam",
pintura a óleo de Ilya Repin, 1888
Moscou se transformou no centro principal do movimento nacionalista, que foi importante para o movimento moderno da arte naquele país. Repudiando o neoclassicismo da arte internacional, que era liderado pela academia francesa e tinha penetrado no campo artístico russo desde o final do século XVIII, os artistas se puseram a redescobrir sua tradição artística nacional. Esse movimento em direção à sua cultura original foi “o ponto de partida de uma escola moderna na Rússia”.

Neste sentido, como a aristocracia apoiava a arte acadêmica, foi a burguesia nascente que apoiou esses novos artistas. Comerciantes ricos e industriais como Savva Mamontov passaram a patrocinar o movimento. De imediato, “Os Errantes” foram apoiados por outro empresário rico, P. M. Tretyakov, que comprou pinturas desses artistas durante 30 anos. Depois, doou sua coleção para a cidade de Moscou, em 1892, o que deu origem à famosa Galeria Tretyakov, hoje uma das coleções de arte mais visitadas em todo mundo. Foi o primeiro museu russo a se dedicar inteiramente à arte russa.

Outros burgueses também fizeram contribuições significantes para a cultura russa do século XIX: Soldatenkov, que também ajudou na publicação de muitos trabalhos científicos, educacionais e culturais; Bakhrushin, colecionador de arte teatral; Belyayev, mecenas dos cinco compositores nacionalistas como Rimsky-Korsakov, Balakiev, Moussorgsky e Borodin. Nos primeiros anos do século XX, continua Camilla Gray, os empresários Sergei Shchukin e Ivan Morosov continuaram esse costume de colecionar obras de arte e de apoiar artistas. Shchukin colecionava também arte oriental, arte folclórica russa e pintura impressionista e pós-impressionista francesa. Essas obras estão hoje em museus de Moscou e São Petersburgo.

Savva Mamontov
Mas o maior benfeitor da arte moderna russa foi mesmo Savva Mamontov, enfatiza Camilla Gray. Sendo artista também, foi ele quem fundou a primeira companhia privada de ópera russa. Como mecenas, ele foi absolutamente generoso com os pintores de “três gerações sucessivas”.

Ele e sua esposa Elizabeth, ambos amantes das artes, começaram a viajar para a Itália, sempre no inverno, por causa da saúde do filho Andrei e porque tinham negócios em Roma. Foi lá que o casal ficou sabendo de um grupo de pintores russos ligado aos “Os Errantes”. Um deles era o escultor Antokolsky (1843-1902), além do pintor Vassily Polenov (1844-1927) e do historiador de arte Adrian Prakhov. Tinham ido estudar arte em Roma como bolsistas da Academia e da Universidade de São Petersburgo.

Rapidamente se tornaram amigos e passaram a frequentar espaços artísticos em Roma, como museus, ruínas, igrejas. Mas também se reuniam nos ateliês dos artistas para pintar e esculpir juntos. Antokolsky deu aula de escultura a Mamontov, atividade à qual este se dedicou durante toda a vida. “Todas as noites o grupo se encontrava e falava dos seus planos para a criação de uma nova cultura russa”, diz Camilla. Os Mamontov, assim como os artistas, não se preocupavam só com a cultura, queriam ver melhorar a vida do povo.

Em 1870, o casal Mamontov comprou a propriedade de Ambramtsevo, e prometeu ser fiel à tradição do antigo dono da moradia, o escritor Sergei Aksakov, amigo íntimo do também escritor Nicolai Gogol. Abramtsevo se tornou uma espécie de comunidade onde até mesmo esses artistas passaram a morar. E os que não viviam lá, também se sentiam em casa.

Pintura a óleo de Vassily Polenov
Em 1871, após uma epidemia de cólera, Mamontov iniciou a construção de um hospital em sua propriedade. Mais tarde, uma escola também foi instalada na parte mais vazia do hospital, depois se transferindo para uma casa de madeira de modelo camponês, que havia sido inteiramente transportada de Bibinok, uma aldeia vizinha. Esta foi a primeira escola da região, para os filhos dos camponeses. Em seguida, o casal construiu um ateliê de escultura, que depois se tornou uma espécie de oficina onde os artesãos locais ensinavam sua arte. Também se tornou oficina de restauração de objetos antigos, dentro da ideia de valorizar a cultura do passado.

Na primavera de 1874, o casal Mamontov voltou da Itália com alguns de seus amigos que estudavam em Roma. Antes, passaram por Paris, onde se encontraram com Ilya Repin, que estudava lá. Ansioso por voltar à sua terra, Repin acompanhou os amigos, pois “pouca coisa lhe interessava em Paris”. Juntou-se a eles a viúva do compositor Serov e seu filho de 9 anos, Valentin Serov. Foram todos para Abramtsevo e foi assim que começou a história do “Circulo de Mamontov”. Em 1879 juntaram-se a eles, os pintores Vasnetsov, Victor e Apollinarius. Viviam nessa comunidade, mas também se reuniam na mansão confortável de Savva Mamontov em Moscou, “onde organizavam leituras e sessões de desenho e montavam produções teatrais para as quais a intelligentsia de Moscou afluía com ansiedade e prazer”.

"Os rebocadores do Volga", pintura a óleo de Ilya Repin, 1870-73
Ilya Repin (1844-1930) morou durante muitos anos com sua família na propriedade dos Mamontov em Abramtsevo. Assim como Valentin Serov, e outros.

Repin pertencia à segunda geração dos pintores nacionalistas, mas seguia a filosofia e o trabalho da primeira geração. Dos 13 que abandonaram a Academia de Belas-Artes era o mais culto e o mais respeitado. Sua pintura “Eles não o esperavam” foi feita em Abramtsevo. Esta é uma das poucas pinturas de grande formato deste artista, pois passava muito tempo “trabalhando em estudos, antes de executar uma pintura no seu tamanho final”.

"A avó", pintura a óleo de Polenov
Vasily Polenov, o grande amigo de Ilya Repin, Tolstoi e Turgeniev, foi um pintor de paisagens que retratou a zona rural russa. A pintura de paisagem na Rússia, se dava especialmente em Moscou, especialmente após a fundação, em 1840, da Faculdade de Pintura e Escultura de Moscou, que incentivava a prática da pintura ao ar livre. A Faculdade de Moscou também incentivava o estudo da natureza, o que quase não se fazia na Academia de São Petersburgo. Também recebia mais verba privada do que pública naqueles tempos de czarismo. Após os primeiros estudantes se formarem, se tornavam professores da Faculdade. Entre eles, Alexei Savrasov (1830-1897), que ficou conhecido como o “pai da escola russa de pintura de paisagem”. Mas foi Isaac Levitan (1860-1900) o que mais se destacou como mestre paisagista, criativo e expressivo.

A pequena igreja de Ambramtsevo
Na primavera de 1880 uma grave enchente isolou a propriedade de Abramtsevo, impedindo o povo de ir à igreja naquela páscoa. Os artistas resolveram então construir uma igreja, com a colaboração e acompanhamento direto de Elizabeth Mamontov. Todos se envolveram, com desenhos, esboços, ideias. A construção deveria imitar uma igreja de Novgorod, igreja histórica da tradição ortodoxa. Mas até mesmo as pinturas de ícones em seu estado original eram desconhecidas, após tantas camadas de repintura e o escurecimento das tintas. Os ícones foram descobertos como obras de arte no processo de restauração de suas cores brilhantes e a pureza origina de suas linhas. Mas isso se dava de forma muito lenta e esse trabalho somente foi sistematizado após a Revolução de 1917. O trabalho de pesquisa sobre a história da pintura de ícones tinha começado no princípio do século XIX, pela família Stroganov.

Todo o conhecimento adquirido nas pesquisas feitas tanto pelos historiadores como pelos artistas foi aplicado na igrejinha de Abramtsevo, cuja construção se completou em 1882. Toda a comunidade se envolveu na construção, de artistas a moradores locais. Ilya Repin e os outros pintores pintaram o Iconostasis e os murais da igreja. E todos ajudaram fisicamente na construção.

Quando ficou pronta, a igrejinha foi palco da primeira cerimônia de casamento, entre Polenov e a pintora Maria Yakunchikova, prima de Savva Mamontov. Ela foi uma das primeiras artistas do sexo feminino na Rússia, diz Camilla Gray. Assim como Elena Polenova, irmã de Vasily Polenov, que também era historiadora.

Com tudo isto acima, podemos refletir tentando tirar certas lições que extrapolam um pouco o mundo da arte. Quando se trata de uma burguesia culta e de visão ampla, como aconteceu naquele final de século XIX na Rússia, o resultado é a defesa dos valores nacionais, do desenvolvimento do país, da prosperidade econômica e cultural de seu povo. Infelizmente não é o que assistimos hoje, pelo menos em nosso país, onde a elite age absurdamente ao contrário da nossa cultura, da nossa economia, do nosso país...

Savva Mamontov, o grande mecenas das artes russas daquele século, foi o fundador e construtor da maior ferrovia da Rússia. Também lançou as bases da maior fábrica de vagões do subúrbio de Mytishchi, nos arredores de Moscou. Quase metade das ferrovias da parte europeia da Rússia são o resultado de seus esforços. Mas ele também tinha interesses na extração de minério de ferro e nas indústrias de fundição. A bacia de carvão de Donetsk no sul da Ucrânia moderna, onde seus projetos de longo alcance também chegaram, ficou conhecido como o "Panamá de Mamontov." Ele também abriu cinco faculdades voltadas a preparar os estudantes para o mundo do comércio e da indústria, em diferentes partes do Império Russo. 

Mamontov preparava o caminho para a modernização econômica de seu país, enquanto incentivava os artistas russos que, no século XX, ofereceram ao mundo um dos períodos mais férteis de criação artística jamais visto desde o Renascimento...
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Referência bibliográfica:
Gray, Camilla. O grande experimento. Arte russa. 1863-1922. São Paulo: Worldwhitewall Editora Ltda, 2004

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Procissão religiosa na província de Kursk, pintura a óleo de Ilya Repin
Lago, pintura a óleo de Vassily Polenov
Cristo e o pecador, pintura a óleo de Vassily Polenov
Arredores de Moscou, pintura a óleo de Vassily Polenov
Tolstoi arando, pintura a óleo de Ilya Repin
Eterna paz, pintura a óleo de Isaac Levitan, 1894
Lago, pintura a óleo de Isaac Levitan
Savvinskaya próximo a Zvenigorod, pintura a óleo de Isaac Levitan, 1884