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quarta-feira, 19 de abril de 2017

O círculo de artistas de Mamontov - os precursores


Foto de 1885 de grupo de artistas e intelectuais.
Ilya Repin é este baixinho sentado em penúltimo lugar à direita
Retrato de Savva Mamontov,
pintura a óleo de Ilya Repin
Savva Ivanovich Mamontov, nascido em 1841, foi um industrial russo, o magnata das estradas de ferro que se tornou famoso também por ter sido um grande patrocinador da arte russa do seu período. Tendo estudado em universidades de São Petersburgo e Moscou, também era cantor, escultor, diretor e autor de peças de teatro.

Camilla Gray, autora do livro “O experimento em arte russa” afirma que o nascimento do movimento moderno da arte naquele país pode ser localizado no grupo de artistas que se reuniam em torno deste industrial de grande visão. Na sua casa em Abramtsevo, próximo a Moscou, Mamontov atraía “as personalidades mais progressistas de sua época”: pintores, compositores, cantores, arquitetos, historiadores de arte, arqueólogos, escritores e atores. Entre eles estavam Konstantin Korovin, Rafael Levitsky, Ilya Repin, Vasily Polenov, Valentin Serov. Mamontov também chegou a patrocinar compositores russo como Pyotr Tchaikovsky, Nikolai Rimsky-Korsakov, Alexander Borodin e Modest Musorgsky.

Estes personagens do mundo artístico e intelectual russo começaram a provocar a todo-poderosa Academia de Belas-Artes de São Petersburgo, cujo sistema “tinha controlado completamente a vida artística do país, desde a sua fundação por Catarina a Grande”. Neste novo período, em que a Rússia dava os primeiros passos em seu desenvolvimento econômico, comerciantes e industriais milionários de Moscou é que passaram a ser os patronos das artes, em lugar da velha aristocracia.


A propriedade de Abramtsevo, dos Mamontov, até hoje bem conservada
Reunidos na casa de Abramtsevo, esses agrupamentos de artistas passaram a ser conhecidos como “O círculo de Mamontov”. Eles eram motivados por uma “determinação comum de criar uma nova cultura russa”.

O compositor Modest Mussorgsky,
estudo em óleo pintado por mim
com base no original de Ilya Repin
Em 1863, dois anos após a emancipação dos servos russos, um grupo de 13 artistas, liderados por Ivan Kramskoi, anunciou seu desligamento da Academia de Artes de São Petersburgo, inspirados pelo desejo de levar a arte para o povo e pela vontade de voltarem suas pinturas para a realidade. Esse grupo se auto intitulava “Os Errantes”, pois sua ideia era a de fazer exposições itinerantes em todos os cantos do país, em especial para os camponeses.

Junto com Dostoievsky, Tolstoi, Turgeniev (escritores), Mussorgsky, Borodin e Rimsky-Korsakov (compositores) eles queriam tornar sua arte “útil” para a sociedade. Repudiavam o conceito da “arte pela arte”, pregado na academia, que se inspirava nos padrões neoclássicos do Ocidente e no romantismo alemão. “Os Errantes” defendiam a ideia de que a arte deveria em primeiro lugar se preocupar com a realidade e se subordinar a ela. É nesta direção onde podemos encontrar todo o realismo da pintura de Ilya Repin, por exemplo.

O grande inspirador destes artistas era o pensador Nicolai Chernichevsky, socialista, filósofo materialista e crítico de arte. “A realidade é mais bela que sua representação em arte”, dizia e, por isso, “A verdadeira função da arte é explicar a vida e comentá-la”. Ele era uma espécie de “propagandista estético” dos anos 1860, observa Camilla Gray.

Nesta linha de pensamento, os artistas de “Os Errantes” consideravam que a arte seria uma força ativa “em prol da reforma social” e este deveria ser sempre o motivo para a escolha dos temas de suas obras. “Só o conteúdo é capaz de refutar a acusação de que a arte é uma diversão vazia”, apontava Chernichevsky. Neste sentido, os escritores buscaram – “de maneira muito literal e literária”, diz Gray – descrever a vida do camponês, com sua inocência e austeridade, como a de verdadeiros heróis. Junto com eles, os pintores pretendiam “despertar a compaixão e a simpatia pelo homem comum”. Essas figuras do povo jamais haviam sido tema para a arte em nenhum período da Rússia. 

Garota com os pêssegos,
pintura a óleo de Valentin Serov, 1887
Esta era também uma forma de defender a tradição cultural, o modo de vida do povo, em contraponto à europeização do país que havia começado desde Pedro o Grande. Desde então, “tudo o que era russo era descartado como bárbaro, rude” e até mesmo a palavra “cultura” significava algo essencialmente estrangeiro. Neste aspecto, isso não lembra o nosso próprio país, o Brasil, cuja elite - historicamente e até hoje, 2017 - ainda carrega a “síndrome de vira-latas” em relação à Europa?

Aqueles eram tempos de grandes contendas intelectuais entre dois movimentos teóricos: os “Eslavófilos” e os “Ocidentalistas”. O primeiro rejeitava a cultura ocidental, o segundo a defendia. “Os Errantes” não participavam diretamente do movimento eslavófilo, mas buscavam criar uma “cultura nacional nova que fosse baseada no camponês russo e nas tradições artísticas nacionais de há muito negligenciadas”, observa Camilla. Os eslavófilos também defendiam um modelo de desenvolvimento nacional, sem se espelhar no Ocidente, que se inspirasse na “primitiva glória de Moscóvia” e nos direcionamentos do cristianismo ortodoxo primordial. Além de tudo, tinha que se recuperar o poder de Moscou e diminuir o de São Petersburgo, cidade mais aristocrata.

Camilla Gray afirma: “Essa guinada para Moscou foi significativa para a arte”.

"Eles não o esperavam",
pintura a óleo de Ilya Repin, 1888
Moscou se transformou no centro principal do movimento nacionalista, que foi importante para o movimento moderno da arte naquele país. Repudiando o neoclassicismo da arte internacional, que era liderado pela academia francesa e tinha penetrado no campo artístico russo desde o final do século XVIII, os artistas se puseram a redescobrir sua tradição artística nacional. Esse movimento em direção à sua cultura original foi “o ponto de partida de uma escola moderna na Rússia”.

Neste sentido, como a aristocracia apoiava a arte acadêmica, foi a burguesia nascente que apoiou esses novos artistas. Comerciantes ricos e industriais como Savva Mamontov passaram a patrocinar o movimento. De imediato, “Os Errantes” foram apoiados por outro empresário rico, P. M. Tretyakov, que comprou pinturas desses artistas durante 30 anos. Depois, doou sua coleção para a cidade de Moscou, em 1892, o que deu origem à famosa Galeria Tretyakov, hoje uma das coleções de arte mais visitadas em todo mundo. Foi o primeiro museu russo a se dedicar inteiramente à arte russa.

Outros burgueses também fizeram contribuições significantes para a cultura russa do século XIX: Soldatenkov, que também ajudou na publicação de muitos trabalhos científicos, educacionais e culturais; Bakhrushin, colecionador de arte teatral; Belyayev, mecenas dos cinco compositores nacionalistas como Rimsky-Korsakov, Balakiev, Moussorgsky e Borodin. Nos primeiros anos do século XX, continua Camilla Gray, os empresários Sergei Shchukin e Ivan Morosov continuaram esse costume de colecionar obras de arte e de apoiar artistas. Shchukin colecionava também arte oriental, arte folclórica russa e pintura impressionista e pós-impressionista francesa. Essas obras estão hoje em museus de Moscou e São Petersburgo.

Savva Mamontov
Mas o maior benfeitor da arte moderna russa foi mesmo Savva Mamontov, enfatiza Camilla Gray. Sendo artista também, foi ele quem fundou a primeira companhia privada de ópera russa. Como mecenas, ele foi absolutamente generoso com os pintores de “três gerações sucessivas”.

Ele e sua esposa Elizabeth, ambos amantes das artes, começaram a viajar para a Itália, sempre no inverno, por causa da saúde do filho Andrei e porque tinham negócios em Roma. Foi lá que o casal ficou sabendo de um grupo de pintores russos ligado aos “Os Errantes”. Um deles era o escultor Antokolsky (1843-1902), além do pintor Vassily Polenov (1844-1927) e do historiador de arte Adrian Prakhov. Tinham ido estudar arte em Roma como bolsistas da Academia e da Universidade de São Petersburgo.

Rapidamente se tornaram amigos e passaram a frequentar espaços artísticos em Roma, como museus, ruínas, igrejas. Mas também se reuniam nos ateliês dos artistas para pintar e esculpir juntos. Antokolsky deu aula de escultura a Mamontov, atividade à qual este se dedicou durante toda a vida. “Todas as noites o grupo se encontrava e falava dos seus planos para a criação de uma nova cultura russa”, diz Camilla. Os Mamontov, assim como os artistas, não se preocupavam só com a cultura, queriam ver melhorar a vida do povo.

Em 1870, o casal Mamontov comprou a propriedade de Ambramtsevo, e prometeu ser fiel à tradição do antigo dono da moradia, o escritor Sergei Aksakov, amigo íntimo do também escritor Nicolai Gogol. Abramtsevo se tornou uma espécie de comunidade onde até mesmo esses artistas passaram a morar. E os que não viviam lá, também se sentiam em casa.

Pintura a óleo de Vassily Polenov
Em 1871, após uma epidemia de cólera, Mamontov iniciou a construção de um hospital em sua propriedade. Mais tarde, uma escola também foi instalada na parte mais vazia do hospital, depois se transferindo para uma casa de madeira de modelo camponês, que havia sido inteiramente transportada de Bibinok, uma aldeia vizinha. Esta foi a primeira escola da região, para os filhos dos camponeses. Em seguida, o casal construiu um ateliê de escultura, que depois se tornou uma espécie de oficina onde os artesãos locais ensinavam sua arte. Também se tornou oficina de restauração de objetos antigos, dentro da ideia de valorizar a cultura do passado.

Na primavera de 1874, o casal Mamontov voltou da Itália com alguns de seus amigos que estudavam em Roma. Antes, passaram por Paris, onde se encontraram com Ilya Repin, que estudava lá. Ansioso por voltar à sua terra, Repin acompanhou os amigos, pois “pouca coisa lhe interessava em Paris”. Juntou-se a eles a viúva do compositor Serov e seu filho de 9 anos, Valentin Serov. Foram todos para Abramtsevo e foi assim que começou a história do “Circulo de Mamontov”. Em 1879 juntaram-se a eles, os pintores Vasnetsov, Victor e Apollinarius. Viviam nessa comunidade, mas também se reuniam na mansão confortável de Savva Mamontov em Moscou, “onde organizavam leituras e sessões de desenho e montavam produções teatrais para as quais a intelligentsia de Moscou afluía com ansiedade e prazer”.

"Os rebocadores do Volga", pintura a óleo de Ilya Repin, 1870-73
Ilya Repin (1844-1930) morou durante muitos anos com sua família na propriedade dos Mamontov em Abramtsevo. Assim como Valentin Serov, e outros.

Repin pertencia à segunda geração dos pintores nacionalistas, mas seguia a filosofia e o trabalho da primeira geração. Dos 13 que abandonaram a Academia de Belas-Artes era o mais culto e o mais respeitado. Sua pintura “Eles não o esperavam” foi feita em Abramtsevo. Esta é uma das poucas pinturas de grande formato deste artista, pois passava muito tempo “trabalhando em estudos, antes de executar uma pintura no seu tamanho final”.

"A avó", pintura a óleo de Polenov
Vasily Polenov, o grande amigo de Ilya Repin, Tolstoi e Turgeniev, foi um pintor de paisagens que retratou a zona rural russa. A pintura de paisagem na Rússia, se dava especialmente em Moscou, especialmente após a fundação, em 1840, da Faculdade de Pintura e Escultura de Moscou, que incentivava a prática da pintura ao ar livre. A Faculdade de Moscou também incentivava o estudo da natureza, o que quase não se fazia na Academia de São Petersburgo. Também recebia mais verba privada do que pública naqueles tempos de czarismo. Após os primeiros estudantes se formarem, se tornavam professores da Faculdade. Entre eles, Alexei Savrasov (1830-1897), que ficou conhecido como o “pai da escola russa de pintura de paisagem”. Mas foi Isaac Levitan (1860-1900) o que mais se destacou como mestre paisagista, criativo e expressivo.

A pequena igreja de Ambramtsevo
Na primavera de 1880 uma grave enchente isolou a propriedade de Abramtsevo, impedindo o povo de ir à igreja naquela páscoa. Os artistas resolveram então construir uma igreja, com a colaboração e acompanhamento direto de Elizabeth Mamontov. Todos se envolveram, com desenhos, esboços, ideias. A construção deveria imitar uma igreja de Novgorod, igreja histórica da tradição ortodoxa. Mas até mesmo as pinturas de ícones em seu estado original eram desconhecidas, após tantas camadas de repintura e o escurecimento das tintas. Os ícones foram descobertos como obras de arte no processo de restauração de suas cores brilhantes e a pureza origina de suas linhas. Mas isso se dava de forma muito lenta e esse trabalho somente foi sistematizado após a Revolução de 1917. O trabalho de pesquisa sobre a história da pintura de ícones tinha começado no princípio do século XIX, pela família Stroganov.

Todo o conhecimento adquirido nas pesquisas feitas tanto pelos historiadores como pelos artistas foi aplicado na igrejinha de Abramtsevo, cuja construção se completou em 1882. Toda a comunidade se envolveu na construção, de artistas a moradores locais. Ilya Repin e os outros pintores pintaram o Iconostasis e os murais da igreja. E todos ajudaram fisicamente na construção.

Quando ficou pronta, a igrejinha foi palco da primeira cerimônia de casamento, entre Polenov e a pintora Maria Yakunchikova, prima de Savva Mamontov. Ela foi uma das primeiras artistas do sexo feminino na Rússia, diz Camilla Gray. Assim como Elena Polenova, irmã de Vasily Polenov, que também era historiadora.

Com tudo isto acima, podemos refletir tentando tirar certas lições que extrapolam um pouco o mundo da arte. Quando se trata de uma burguesia culta e de visão ampla, como aconteceu naquele final de século XIX na Rússia, o resultado é a defesa dos valores nacionais, do desenvolvimento do país, da prosperidade econômica e cultural de seu povo. Infelizmente não é o que assistimos hoje, pelo menos em nosso país, onde a elite age absurdamente ao contrário da nossa cultura, da nossa economia, do nosso país...

Savva Mamontov, o grande mecenas das artes russas daquele século, foi o fundador e construtor da maior ferrovia da Rússia. Também lançou as bases da maior fábrica de vagões do subúrbio de Mytishchi, nos arredores de Moscou. Quase metade das ferrovias da parte europeia da Rússia são o resultado de seus esforços. Mas ele também tinha interesses na extração de minério de ferro e nas indústrias de fundição. A bacia de carvão de Donetsk no sul da Ucrânia moderna, onde seus projetos de longo alcance também chegaram, ficou conhecido como o "Panamá de Mamontov." Ele também abriu cinco faculdades voltadas a preparar os estudantes para o mundo do comércio e da indústria, em diferentes partes do Império Russo. 

Mamontov preparava o caminho para a modernização econômica de seu país, enquanto incentivava os artistas russos que, no século XX, ofereceram ao mundo um dos períodos mais férteis de criação artística jamais visto desde o Renascimento...
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Referência bibliográfica:
Gray, Camilla. O grande experimento. Arte russa. 1863-1922. São Paulo: Worldwhitewall Editora Ltda, 2004

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Procissão religiosa na província de Kursk, pintura a óleo de Ilya Repin
Lago, pintura a óleo de Vassily Polenov
Cristo e o pecador, pintura a óleo de Vassily Polenov
Arredores de Moscou, pintura a óleo de Vassily Polenov
Tolstoi arando, pintura a óleo de Ilya Repin
Eterna paz, pintura a óleo de Isaac Levitan, 1894
Lago, pintura a óleo de Isaac Levitan
Savvinskaya próximo a Zvenigorod, pintura a óleo de Isaac Levitan, 1884

terça-feira, 11 de abril de 2017

A Academia de Belas-Artes de São Petersburgo


Academia de Belas-Artes de São Petersburgo
Buscando as raízes do movimento artístico moderno russo, vamos fazer uma passagem pela história da importante Academia de Belas-Artes de São Petersburgo.

Em meio ao século XVIII a Rússia ainda era percebida - pelos europeus - como uma potência bárbara incapaz de produzir alguma forma de arte “evoluída”. O professor Basile Baudez da Universidade da Sorbonne, Paris, afirma, em seu artigo, que logo no começo do século XIX a situação era absolutamente diferente e certos historiadores franceses do final daquele século, como Emile Veuclin, atribuiam isso à “influência benéfica da civilização francesa”. Ao contrário dele, os pesquisadores soviéticos preferiam falar dos efeitos nefastos da preponderância da arte francesa na arte da Rússia naquele período. O fato é que, desde Pedro, o Grande, foi crescente a influência da cultura francesa sobre a cultura russa, coisa que deu origem às querelas entre “eslavófilos” e “ocidentalistas” dentro do próprio país russo. Falaremos disto em outro momento. Mas todos concordam em encontrar as fontes da arte moderna russa na Academia de Belas-Artes de São Petersburgo.

Desenho da Academia
de Belas-Artes de São Petersburgo
Mas o que é o conceito de Academia? - se pergunta Basile Baudez. Nascido durante o Renascimento Italiano no século XV, a “academia” era um local de estudos e formação artística, como a “Accademia del Disegno” de Florença. Se inspirava também no conceito clássico, retratado pela pintura de Rafael, a "Escola de Atenas". Desde então, o que caracteriza basicamente a academia é a convicção do papel central, primordial, do desenho e “a afirmação do caráter intelectual da atividade artística”. Até então, o pintor ou escultor era visto apenas como um artesão, um trabalhador manual. A partir do Renascimento teve seu papel elevado ao do intelectual, do pensador. Esta e outras teses da academia italiana alcançaram sucesso dentro da França a partir do século XVII. Mas, diz Baudez, a função de ensinar “não era a principal preocupação dos fundadores da Academia Real de Pintura e Escultura francesa, apesar do que se poderia pensar”. Mas foi o que fizeram muitas academias fundadas no século XVIII, dizendo-se seguir o modelo francês.

A própria arquitetura dos prédios das academias expressava aquele pensamento clássico. O modelo arquitetural deveria se inspirar no antigo panteão romano, com colunas paralelas sustentando um frontão triangular. Os espaços pedagógicos somente ao longo do tempo foram ganhando importância e amplitude. Foi seguindo esta tradição que o arquiteto Vallin de La Mothe concebeu o edifício de São Petersburgo em 1763.

As reformas de Pedro o Grande, imperador russo, se estenderam a todos os domínios da vida naquele país, mas em especial em relação à educação e à cultura. “Os primeiros projetos da Academia de Belas Artes nasceu sob seu reinado”, diz Baudez.

Mesmo antes da criação da Academia de Belas-Artes, algumas escolas de ensino normal ensinavam os fundamentos de desenho e de pintura a seus alunos, antes de 1757. Até mesmo a escola de formação do Corpo de Cadetes, criada em 1731, ensinava desenho como último estágio da formação cultural militar. Alguns raros ateliês, que existiam porque seus pintores eram empregados da Corte, também ensinavam pintura e desenho. Enquanto isso, a pintura de ícones (veja os posts anteriores sobre este tema) continuava muito viva até o século XVIII.

O prédio original fundado em 1725, se denominou “Academia de Ciências” de São Petersburgo. Só em 1747 passou a se chamar “Academia de Ciências e Belas-Artes”, que dispunha de um curso de desenho. O departamento de Gravura se manteve com sucesso ao longo de todo o século XVIII, por causa das necessidades editoriais da Academia de Ciências, em especial durante o período em que realizou o trabalho de cartografia do império.

Estudo feito na Academia
Os meados do século XVIII foram, então, um período “extremamente favorável” para o florescimento da arte ocidental na Rússia. A nobreza e outros segmentos mais elitizados começaram a viajar ao exterior e a encomendar obras de arte ou construção de edifícios. Entre 1756 e 1762 houve uma verdadeira invasão dos modos franceses na aristocracia russa, que se espalhou para a esfera política. “É neste contexto que a Academia de Belas Artes foi fundada”, acrescenta Basile Baudez.

Ivan Chouvalov foi o fundador da primeira universidade civil do império russo, a Universidade de Moscou. Ele era o protegido da imperatriz Elisabeth Petrovna e amigo do poeta Mikhail Lomonossov. Os dois procuravam dotar a Rússia de instituições de ensino superior segundo o modelo das universidade do mundo germânico. 

A Academia de Belas-Artes, fundada em 4 de novembro de 1757, deveria permitir ao país produzir as obras de arte e os objetos de luxo que eram importados do estrangeiro a grandes custos. Foi construída na ilha Vassilievsky, que já reunia a escola do Corpo de Cadetes e a Academia de Ciências. Os primeiros estudantes, que tinham entre 13 e 20 anos de idade, ou vinham da Universidade de Moscou, ou eram enviados pela Corte ou foram escolhidos entre as crianças da vizinhança. Tinham, portanto, vários níveis de formação. Já os professores eram escolhidos entre os melhores que tivessem se formado nas Academias de Paris ou de Roma.

Uma sala com modelos para estudo
Em março de 1763, Ivan Chouchalov torna-se o diretor da Academia, indicado por Ivan Betskoï, o idealizador de um vasto plano de reforma do ensino secundário russo, desejado pela nova imperatriz Catarina II. Seguindo o modelo de outras escolas de Moscou e São Petersburgo, a Academia de Belas-Artes passou a aceitar como alunos crianças de apenas seis anos, educando-as nos métodos inspirados nas filosofias de Locke e Rousseau. Em linha com os princípios de Pedro o Grande, Ivan Betskoï procurava criar uma nova cultura na sociedade russa, rompendo com o passado bárbaro e inculto. 

Catarina surge, então, como a verdadeira fundadora da Academia, em 1764. Catarina a Grande, ofereceu grandes privilégios à academia, visando com isso assegurar à instituição autonomia jurídica e financeira. Ao mesmo tempo, liberdade de ação, coisa muito importante para os membros daquela escola naqueles meados de século. Ao colocar os acadêmicos em níveis tão elevados, dava ao artista formado naquela escola um grande status.

A direção da escola era gerida pelo Diretor, escolhido pelo imperador, mas também era gerida pela Assembleia Acadêmica, pouco convocada, e por um Conselho composto pelo diretor, pelo secretário de conferências e por professores de artes liberais. Não havia representação estudantil.

A instituição dispunha de ajuda financeira anual que alcançava 60 mil rublos, dinheiro este que não era controlado e que levou a escola a períodos de deficit de recursos, que chegaram a ameaçar seu funcionamento no final dos anos 1760.

Seus cerca de 300 alunos e 60 funcionários e professores viviam no local. Os alunos mais velhos moravam com seus mestres em apartamentos disponibilizados pela Academia. Todos tinham uniforme e faziam as refeições juntos. A disciplina era rigorosa.

Inauguração da Academia, pintura a óleo de Valery Jacobi
Mas o ambiente também era muito propício para que surgissem lideranças entre eles, que organizavam desde grupos de teatro amador a concertos de música. A música ocupava um lugar importante entre os alunos, o que acabou despertando vocações entre vários que se tornaram compositores de renome. Os líderes estudantis também incentivavam qualquer iniciativa artística ou de trabalhos manuais, mesmo se estavam fora da grade de matérias originalmente definida.

A Academia de Belas-Artes contava com fãs na aristocracia russa ou estrangeira e isso permitia estabelecer ligações com artistas europeus, favorecendo a venda de trabalhos de alunos ou professores e reproduções de sua coleção de pinturas.

A partir de 1764, a Academia, a cada três anos, abria inscrições para novos alunos entre 5 ou 6 anos de idade. O desejo inicial de Ivan Betskoï de somente aceitar alunos russos pobres foi respeitado. A imensa maioria entre eles era feita de filhos de simples soldados, camponeses, artesãos ou pequenos funcionários. Um dos objetivos da Academia de Belas Artes era permitir a formação intelectual e artística que fizesse diferença na sociedade russa, diz Baudez.

Desenho de Nicolai Fechin
O curso completo durava 15 anos, distribuídos em cinco fases de três anos. Nos três primeiros, os alunos eram introduzidos gradualmente ao desenho. Com a idade de doze anos eles tinham que escolher que caminho seguir, como a Pintura, por exemplo. “Junto com o ensino geral, particularmente focado no estudo de línguas estrangeiras, os alunos recebiam uma educação completa, que tinha como objetivo formar cidadãos e homens capazes de evoluir em círculos cosmopolitas da nova Rússia”, continua o professor da Sorbonne.

Mas diferenças ideológicas surgiam e foram crescendo até atingir o paroxismo no final dos anos 1780, quando a guerra entre os defensores da educação francesa e os que defendiam a cultura russa chegou ao fim com a vitória destes últimos, que contavam com o apoio do diretor Ivan Betskoï e do escritor Iakov Kniajnine. O Conselho da Academia passou a não aceitar mais professores estrangeiros, que foram sendo substituídos por russos. O ensino de línguas estrangeiras foi abolido e substituído por curso de Literatura e História Russa. A Academia era parte do movimento patriótico que atingiu seu momento máximo nos primeiros anos do século XIX.

O método de ensino era comum à maioria das academias. O estudantes seguiam cursos regulares de desenho e de anatomia. Eles se beneficiavam de uma importante coleção de obras de arte, doadas por alguns indivíduos, mas também da coleção de Ivan Chouchalov, desenhos da coleção de Ivan Betskoï e de obras de arte doadas pela nobreza.

Mas a fama da Academia era baseada em sua coleção de modelos de esculturas romanas antigas enviadas de Roma desde 1758, além de uma biblioteca que continha no final do século mais de 1500 originais, 4.500 cópias e mais de 7.000 desenhos e esboços arquitetônicos, disponíveis para alunos e professores, ao contrário do que aconteceu em Paris.

Autorretrato de
Ivan Kramskoi
O sistema de competição entre os alunos se inspirava na academia de Paris. No entanto, a atenção pessoal dada a cada aluno era característica da academia russa. A educação foi dada até 1770 por professores estrangeiros que mesmo assim incentivavam o espírito patriótico em seus alunos, oferecendo apenas os temas ligados a seu país.

Num segundo período, quando antigos residentes russos retornaram de Paris e Roma, eles adaptaram as antiguidades romanas ao amor russo pelos ornamentos e pelas coisas grandiosas.

Outra peculiaridade da Academia de São Petersburgo é a de ter oferecido aos estudantes que não puderam entrar nas aulas de arte, o aprendizado de algum ofício ensinado por mestres artesãos empregados e abrigados pela instituição.

No fim do ciclo de estudos, os melhores alunos - não só em termos de qualidade, mas também de comportamento - eram enviados a Paris para se formar com aqueles que os acadêmicos consideravam como os melhores artistas da Europa. E também à Roma, para conhecer as grandes obras de arte e seus mestres italianos. Os alunos tinham que fazer, a cada três meses, relatórios de seus trabalhos, que representariam o que de mais completo a Rússia possuía em termos de pensamento e de produção de arte.

Retrato de Tolstoi, cópia feita por mim
em óleo sobre papel a partir da pintura
original de Ilya Repin
Mas apesar do sucesso encontrado em sua formação, considerada a melhor do império, a Academia não conseguia encontrar mercado suficientemente grande e dar suporte que garantisse a seus alunos uma carreira artística. Um deles, conta o professor Baudez, Anton Losenko, morreu na miséria por falta de encomendas... Mas, apesar disso, a Academia de Belas Artes de São Petersburgo inicia o século XIX como a maior autoridade no campo da arte.

Em uma cidade ainda nova como São Petersburgo, dentro da imagem para a sociedade que seus fundadores lhe queriam atribuir, a Academia de Belas-Artes representou o apogeu do movimento acadêmico, tanto na sua realização arquitetônica quanto em seus objetivos educacionais. Seus membros acreditavam no poder da educação como capaz de transformar simples filhos de soldados ou camponeses sem instrução em artistas que pudessem competir com os melhores mestres das nações europeias.

Em meados do século XIX, os acadêmicos russos bastante influenciados pelos franceses - em especial por Ingres -  começaram a ser contestados por uma nova geração de artistas, formados na academia, mas que queriam ter liberdade para pintar temas realistas e ligados a seu país. Este primeiro movimento foi intitulado de “Os andarilhos” e foi inicialmente dirigido pelo pintor Ivan Kramskoi, cuja qualidade de sua pintura pude averiguar pessoalmente há poucos dias em Londres, numa exposição de arte russa na Royal Academy of Art. 

Em 9 de novembro de 1863, considerado como o dia da "Revolta dos Quatorze", Ivan Kramskoi iniciou o movimento de artistas realistas que, como Ilya Repin e Mikhail Vroubel, passaram a viajar por diferentes cidades russas fazendo exposições de suas obras.

Após a Revolução Russa de 1917, a Academia passou também por algumas transformações. Em 1933 foi denominada “Academia Russa de Belas Artes” e, em 1947, “Academia de Belas Artes da União Soviética”, voltando a se chamar “Academia Russa de Belas Artes”, em 1991. Atualmente, é uma escola de extensão universitária e se intitula “Instituto de Pintura, Escultura e Arquitetura Ilya Repin”. Mas popularmente nunca deixou de ser chamada "Academia de Belas-Artes de São Petersburgo".


Referências bibliográficas:
- L’académie impériale des beaux-arts de Saint Pétersbourg, du Moujik à l’artiste, Basile Baudez, 2000
- História Concisa da Rússia, Paul Bushkovitch, 2015
- Tudo o que é sólido desmancha no ar, Marshall Berman, 1990
Academia de Belas-Artes, hoje Instituto Ilya Repin
Academia de Belas-Artes de São Petersburgo, século XIX

terça-feira, 24 de novembro de 2015

O pintor russo Valentin Serov

Cavalos na praia, Valentin Serov
Autorretrato, Valentin Serov, 1885
O Museu Estatal Tretyakov de Moscou, Rússia, está apresentando uma importante exposição da obra do pintor russo Valentin Serov, marcando os 150 anos de seu nascimento. A mostra foi inaugurada no último 7 de outubro e se encerrará em 17 de janeiro de 2016. Serov é considerado um pintor realista, formado na escola clássica da pintura europeia, e no final de sua vida se aproximou das linguagens contemporâneas. Sem abandonar o figurativismo.

Esta retrospectiva das melhores pinturas e desenhos de Serov ocupam três andares da galeria. A exposição ajuda a mostrar a grande variedade do patrimônio criativo do mestre, não só através de seus retratos famosos, mas também com suas pinturas de paisagens e arte monumental, que foram gradualmente negligenciadas pelos pesquisadores das artes.

Valentin Aleksandrovich Serov nasceu em São Petersburgo em 19 de janeiro de 1865. Filho do compositor russo Aleksandr Serov e de Valentina Bergman, também compositora, que vinha de famílias de origem alemã e inglesa. 

A infância de Serov se passou dentro do meio artístico em que viviam seus pais, ambos músicos. Seu pai, Aleksandr Serov, era também conhecido na época, além de compositor, como crítico musical. Tinha 43 anos quando se casou com sua aluna de 17 anos de idade, Valentina Bergman, com quem teve seu único filho Valentin Serov. Sua casa sempre estava cheia de convidados, entre músicos e estudantes de música. Lá se discutiam as ideias de liberdade e igualdade, defendidas pelo teórico Tchernichévski. O pai músico tinha amigos intelectuais como Turgeniev, além de artistas da música e da pintura. Discutia-se muito a política da época e as ideias que se iam fermentando e que depois confluiram para a revolução russa do começo do século XX.
Retrato de S.M. Dragomirovoy, Serov,1889

Após a morte de seu pai (Valentin tinha seis anos de idade), a vida de Serov mudou. Sua mãe tinha paixão pela música e pelas atividades sociais ligadas a ela. Em 1872 sua mãe resolve mudar-se para Munique, na Alemanha, onde Valentin teve suas primeiras lições de desenho com Carl Kepping, conhecido gravador e ceramista. Vendo que o filho possuía grande talento para o desenho, mudou-se com ele para Paris, onde já vivia então Ilya Repin, o artista de quem ela já conhecia a fama, por causa de seu quadro “Os barqueiros do Volga” (leia aqui). Era 1874 e Valentin foi estudar com Ilya Repin. Seu único entretentimento eram as aulas com o mestre e os desenhos que fazia de forma independente.

Em 1875 mãe e filho retornaram à Rússia. Em 1876 mudaram-se para Kiev. Valentina Bergman não conseguia ficar parada e a vida nômade para Serov continuou. Em 1878, ele retomou suas aulas sistemáticas com Ilya Repin, que havia voltado também para Moscou. Para Serov, Repin era quase um membro da família e acompanha seu desenvolvimento em todos os aspectos. 

Retrato do escritor Maxim Gorky, Serov 
Se inscreveu na Academia de Belas Artes em 1880, que deixou em 1885, pedindo licença "para tratar a saúde”. Em suas memórias Valentin se dizia cansado da Academia. O que o incomodava? Tudo! “As paredes aqui, os corredores ..." Ele tinha desejado entrar para a Academia com a intenção de estudar com Pavel Chistyakov. Mas o seu método de ensino era bruto: zombava dos alunos, lhes chamava de impotentes, de infantis, fazendo críticas impiedosas todo o tempo. Mas Serov se submeteu ao tratamento dado por Chistyakov, pois sua opinião valia mais para ele ainda que a de Repin. Por seu lado, Chistyakov gostava de Serov e tinha orgulho dele. Foi este professor quem primeiro lhe abriu os tesouros do museu Hermitage e que lhe falou sobre a necessidade de estudar os antigos mestres. 

Em 1885 faz uma viagem a Munique e Holanda. Em Munique, Serov estuda a coleção da Alte Pinakothek, e faz cópias de Velázquez. 

Desde cedo, Serov se destacou como grande retratista. Ele seguia as características principais do que se denomina como “impressionismo russo”, ou seja, a preocupação com o movimento da luz e das massas de cor, a harmonia dos reflexos de luz.

Depois de 1890, se assumiu ainda mais como retratista. Seus modelos preferidos eram atores, artistas e escritores, e chegou a fazer retratos de Konstantin Korovin, Isaac Levitan, Nicolai Leskov e Nicolai Rimski-Korsakov. Ele havia optado em pintar com uma paleta mais restrita, sem muita variação de cores, ao contrário de seus colegas que optaram por um estilo colorido em especial na década de 1880. Serov preferia os tons mais cinzas e marrons. Ele havia feito a escolha de seus contemporâneos Anders Zorn e John Singer Sargent, preferindo dirigir seus estudos para as obras de pintores como Diego velázquez, por exemplo. Ele era um apaixonado pela obra do pintor espanhol Velázquez.


Mika Morozov, Valentin Serov
A partir de 1894 Serov começou a participar do movimento “Os Itinerantes”, e com esses companheiros executou várias pinturas de encomenda, como o retrato do grão-duque Pável Aleksandrovich, entre outros. Suas pinturas e desenhos se destacam bastante, pela execução hábil e composições grandiosas. Simultaneamente pintava retratos mais intimistas, em sua maioria de crianças e de mulheres. Com as crianças que pintou, desejava capturar-lhes o gesto e a pose para enfatizar a espontaneidade dos movimentos.

Valentin Serov usava com frequência várias técnicas para se expressar, desde a aquarela, aos pasteis, e as litogravuras. Foi se tornando cada vez mais gráfico e sucinto, especialmente na última fase de sua vida. Entre 1890 e 1900 pintou paisagens do campo, para si mesmo, geralmente em férias em sua dacha na Finlândia ou em Domotkanovo, a propriedade de seu amigo Derviz. 

A fase final de sua vida como pintor tem início por volta de 1900. Rompeu sua relação com o grupo “Os Itinerantes” e passou a fazer parte de outra associação de artistas que tinha também uma revista. Era o grupo do “O mundo da Arte”, que mantinha uma série de atividades como organizar exposições, propagandear as realizações da arte moderna russa e europeia. Nas reuniões de pauta para a revista “O mundo da Arte” em geral ele ficava calado, mas quando falava era sempre cáustico em suas críticas. Estava sempre com um lápis na mão desenhando.


Yuri e Sasha, desenho de Serov
Serov começava a mudar seu estilo de pintura, abandonando as características ditas “impressionistas” de sua pintura anterior, e foi se aproximando mais dos modernistas. Mas a compreensão realista da natureza de seus retratos continuou constante. 

Valentin Serov defendia os valores democráticos das revoluções russas de 1905. Membro de a Academia Imperial das Artes de São Petersburgo desde 1903, abandonou-a em protesto contra a execução de trabalhadores em greve e suas famílias, no dia 9 de janeiro de 1905, episódio que ficou conhecido como “domingo sangrento”. 

Serov também usou sua criatividade para executar pinturas históricas, dando aos fatos da história a importância que lhes devia. Também criou peças gráficas, fez ilustrações para livros, de caráter históricos ou científicos. Em seus últimos anos de vida, Serov pintou temas tirados da mitologia grega clássica, dando-lhes sua interpretação pessoal. 

Valentin Serov morreu em Moscou no dia 5 de dezembro de 1911. Deixou uma vasta obra, considerada das melhores do realismo russo e ele mesmo é considerado um dos maiores mestres da pintura europeia do século XIX. Em 1914 foi realizada uma exposição póstuma com sua obras em Moscou e São Petersburgo.

"Ele era mais do que um artista, era um buscador da verdade", disse o pintor Konstantin Korovin sobre o amigo Valentin Serov.


O rapto de Europa, Valentin Serov, 1910
Nikolai Rimski-Kosarkov, Serov, 1898
"Os dois meninos Serov", Valentin Serov, 1899
"Retrato de Isaac Levitan", Serov
"Outubro em Domotkanovo", Serov, 1895
"Alexandr Serov", Valentin Serov, 1897 - inacabado
"Banhando o cavalo", Serov
"Jovem com peras - retrato de V.S. Mamontova", Serov, 1887

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

As ondas do mar de Aïvazovski

"A nona onda", Ivan Aïvazovski, 1850
Ivan Konstantinovitch Aïvazovski foi um pintor russo do século XIX. Nasceu em 29 de julho de 1817 na região da Crimeia, onde também faleceu em 5 de maio de 1900. Ele é considerado um dos mestres da pintura de cenas do mar, um tema que atraiu muitos pintores românticos e realistas russos.

Aïvazovski em 1870
Aïvazovski nasceu em uma família de comerciantes pobres de origem armênia, emigrados da Polônia. Desde criança ele adorava desenhar e copiar desenhos de livros, como os de um sobre a luta dos gregos contra o jugo do império otomano. Ele frequentou uma escola primária armênia da pequena cidade de Théodosie, onde nasceu, e recebeu sua primeira formação artística no Ginásio de Simferopol, graças à ajuda de conterrâneos que admiravam seu talento para a arte. Em 1833, com apenas 16 anos, Aïvazovski foi para São Petersburgo completar sua formação na Academia Imperial de Belas Artes. Lá, ele faz estudos sobre as obras do pintor paisagista Maxime Vorobev, assim como do pintor de marinas francês Philippe Tanneur, que dava aulas na Academia de São Petersburgo.

Logo seu talento começa a ser observado. Nada menos do que o escritor Alexander Pushkin torna-se admirador da obra de Aïvazovski. Em 1837, com 20 anos apenas, ele recebe seu diploma junto com uma medalha de ouro pela sua dedicação e qualidade como pintor. A Academia também lhe dá uma ajuda de custo para que continue seus estudos, durante dois anos, pintando marinhas. Aïvazovski faz diferentes viagens de navio, acompanhando a marinha russa, a quem consagrou várias telas.

Autorretrato de 1874
Entre 1840 e 1844, ele viaja pela Europa, passando pela Itália, França, Espanha, Inglaterra, Alemanha e Holanda. Nessas passagens por estes países, Ivan Aïvazovski entra em contato com academias locais e é admitido como membro em várias delas. Em Paris, recebe uma medalha de ouro. Suas telas são muito admiradas e em 1841 o papa Gregório XVI compra-lhe a pintura “Caos” para o Museu do Vaticano. Foi na Itália que ele conheceu outro escritor russo, Nicolai Gogol.

Volta à Rússia em 1844, e é nomeado membro da Academia de São Petersburgo e em 1845 recebe o título de pintor da marinha russa. Com isso, ele participa, nos anos seguintes, de diversas expedições da frota russa e assim conhece os mares da Turquia, Grécia, Egito e da América.

De volta a seu país, Aïvazovski resolve ir morar em sua pequena cidade, Théodosie, recusando as honras e as riquezas que os tsares de São Petersburgo lhe queriam oferecer. Preferia a companhia de seus amigos escritores, Pushkin, Tchekov e Gogol. Mas continua a pintar e a expor em Moscou, São Petersburgo e até em Paris e Nova York. Por onde passava, fazia questão de entrar em contato e saber como viviam seus compatriotas armênios. Em Théodosie, por exemplo, ele funda uma nova escola armênia, assim como uma gráfica, e financia a restauração de uma velha igreja armênia. Também cria uma Escola de Arte em 1865 e transforma sua própria casa em museu, que ainda hoje é preservada e guarda uma grande parte de suas obras.

"Pushkin à beira-mar", 1877, autoria de
Ivan Aïvazovski e Ilya Repin
Ivan Aïvazovski teve grande reconhecimento internacional enquanto ainda era vivo. Foi o primeiro artista estrangeiro que recebeu a condecoração da legião de honra francesa. O sultão turco Abdulaziz, que era um grande amante da pintura, lhe encomendou mais de 40 telas e lhe convida, em 1874, a ir à Constantinopla para receber a medalha da Ordem de Osmânia, a mais alta distinção daquele império. Além disso, Aïvazovski era muito querido por Eugène Delacroix e William Turner, dois grandes pintores, francês o primeiro e inglês o segundo. Este pintor russo também influenciou muitos outros pintores de diversos países.

Ele buscava a luz, em suas pinturas, e sua paixão era o mar. Muitas delas, fez de memória, conseguindo traduzir o movimento das ondas do mar, ou a transparência das águas calmas, ou a fúria do mar em tempestade. Turner o considerava um gênio. Suas telas “A nona onda”, “Clarão da lua” e “Tempestade” foram ícones para o movimento romântico europeu do século XIX.

Posteriormente, com o crescente movimento da arte russa e talvez influenciado pelos escritores russos de seu tempo, sua pintura se torna cada vez mais realista. No final do século XIX ele pinta “O Mar Negro”, “Arco-íris”, “Naufrágio” e “A Onda”, além de outras telas.

Ivan Aïvazovski faleceu em 1900, deixando mais de 6 mil obras, sendo que metade eram feitas de cenas de marinhas.

Abaixo, algumas de suas marinhas:

"Mar negro"
"Arco-íris", 1873
"Paisagem lunar com naufrágio", 1863

"Canal do Cáucaso visto do mar", 1894

"Caos", 1841

"Tempestade", 1886
"Vista de Constantinopla e do Bósforo"