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terça-feira, 9 de maio de 2017

O retratista Valentin Serov

"A menina com pêssegos", Valentin Serov, 1887, óleo sobre tela, 91 x 85 cm
Autorretrato, 1880
Valentin Serov nasceu em São Petersburgo, em 19 de janeiro de 1865. Seus pais eram músicos: Aleksander Serov era compositor e crítico musical, um admirador da obra de Richard Wagner; Valentina Bergman, de origem alemã, também era compositora e estava sempre ocupada organizando festas e musicais. Ele foi o único filho do casal.

Serov, então, teve uma infância impregnada pela atmosfera artística, não somente por causa dos pais músicos, mas pelos amigos da família, escultores e pintores, como Mark Antokolsky e Ilya Repin, que sempre visitavam sua casa. Precocemente observador, logo o talento de Valentin para o desenho atraiu a atenção de todos.

Seu pai morreu quando o menino tinha seis anos. Sua mãe, assim que percebeu o talento do filho para o desenho decidiu ir a Paris, que na época era o centro principal da arte. Lá também já residia Ilya Repin, que ela conhecia bem e pensou nele para orientar a educação artística do filho. Foi Repin quem iniciou Valentin Serov no caminho da pintura.

Mas lembramos que em 1874, o casal Savva Mamontov (leia aqui) passou por Paris, vindos da Itália, e de lá trouxeram de volta para a Rússia Ilya Repin, assim como Valentina Bergman e seu pequeno filho de 9 anos de idade. Foram todos viver na mansão de Abramtsevo, propriedade do mecenas. Foi nessa comunidade de artistas e intelectuais que Valentin Serov cresceu e se desenvolveu como artista.

Ilya Repin por Serov
Valentin continuou seus estudos com Repin e conheceu outros artistas que frequentavam aquela residência, onde as atividades comunitárias incluíam leituras em grupo nas noites de domingo. Inicialmente liam-se os clássicos, mas isso logo evoluiu para “representações de pantomima” que se tornaram, por volta de 1881, produções teatrais que Savva Mamontov encenava nos invernos da mansão de Moscou. Ele mesmo escrevia os roteiros das peças, baseados em contos do folclore russo ou em algum episódio da história.

Para a montagem dessas peças, todos participavam. Victor Vasnetsov, assim como Korovin, Roerich, Golovin e Isaac Levitan, pintaram as cenografias das peças. Estes pintores trabalhavam nas produções teatrais da “ópera particular” de Mamontov. Na sequência, outros espaços teatrais começaram a seguir também o costume iniciado pelo mecenas de contratar pintores profissionais para pintar cenários. Isto acabou gerando o costume europeu de decoração teatral realística, pois antes os “panos de fundo” das salas de teatro eram apenas decorativos. “Isso provocou, por sua vez, uma revolução na ideia de teatro”, diz Camilla Gray. “A produção passou a ser vista como um todo e o ator teve de subordinar seu desempenho aos outros elementos: cenário, figurino, postura, música, linguagem. Assim uma síntese emergiu, uma unidade dramática.”

Com isso, o teatro atraiu as novas gerações de pintores. Vassily Polenov trouxe dois jovens estudantes da Faculdade de Moscou, Isaac Levitan e Konstantin Korovin (1861-1939). Este último, observa Gray, “foi o primeiro artista russo a refletir a arte dos impressionistas franceses”. Korovin havia ido a Paris em 1885 e tinha conhecido alguns dos pintores impressionistas daquela cidade. Dele teria sido a responsabilidade de revolucionar o desenho teatral.

Isaac Levitan, por Serov
Serov era um comediante natural e gostava de entreter os convidados de Mamontov. Em Abramtsevo, chegou a participar das peças e outras performances, fazendo os convidados se divertirem.

Além dessas pantomimas, Serov adorava artesanato, especialmente cerâmica. O prato de cerâmica que aparece na pintura "A Menina com pêssegos" foi feito à mão pelo próprio artista, que nos anos 1890 chegou até mesmo a montar uma cerâmica.

Valentin Serov também pintou de paisagens, pois havia estudado com Isaac Levitan.

Em 1890, Serov apresenta a Mamontov seu amigo Mikhail Vrubel (leia aqui), que vinha da Academia de Belas-Artes de São Petersburgo, onde havia ingressado em 1880 e também tinha sido aluno de Chistyakov.

A formação artística de Serov foi então bastante influenciada pela vida em Abramtsevo. Ele amava passear pelo campo, com seus bosques e espaços cercados por ravinas e aldeias. Em 1880, Serov entrou para a Academia de Belas-Artes de São Petersburgo, onde foi aluno de Pavel Chistyakov, que havia ensinado pintura também a Mikhail Vrubel, Surikov, Polenov e Repin. Mas cinco anos depois, Serov decidiu que seus estudos na Academia estavam encerrados. Se sentia “entediado".

Na segunda metade da década de 1880, Valentin Serov resolveu viajar para o exterior e, com isso, conheceu os impressionistas franceses. Começou a usar as cores vivas dos Impressionistas em seus trabalhos. Suas obras "A menina com pêssegos" (1887) e "A menina sob a luz solar" (1888) logo o fizeram conhecido e admirado. Nessas duas pinturas pode-se observar que Serov aplica nelas alguns dos conceitos pictóricos impressionistas, como a luminosidade das cores e uma forma mais solta de usar o pincel. O retrato de Konstantin Korovin, feito em 1891, mostra uma certa influência de Edgar Degas, cujas obras Serov pode ter visto em Paris.

Sacha e Yuri Serov
Com estas pinturas, Serov recebeu um prêmio da Sociedade de Arte de Moscou, sendo que a segunda foi imediatamente comprada pelo empresário russo Pavel Tretyakov, patrono de artistas, colecionador e filantropo, cujo nome ilustra a Galeria Tretyakov em Moscou.

Em 1887, Serov casou-se com Olga Trubnikova, com quem teve vários filhos. Ele era um pai amoroso e gostava de pintar seus filhos. O retrato "Crianças" de 1899, é um dos quais ele mostra seus filhos Yury e Sasha. Mas eles apareceram em outros de seus desenhos e pinturas.

A partir de 1890, o retrato tornou-se o gênero básico na arte de Serov. Foi neste campo que ele mais se destacou, pois foi um excelente retratista, conseguindo captar as características psicológicas de seus modelos. Logo conquistou a reputação de ser um dos melhores retratistas de sua época, ao mesmo tempo que Repin, seu antigo professor.

Serov passou a receber muitas encomendas para retratos. Em 1892, recomendado por Repin, Serov recebeu uma encomenda para pintar um retrato grande do imperador Alexander III e de sua família. Serov levou quase três anos para terminar a peça, pois tinha que pintar a partir de uma fotografia, pois somente uma única vez teve a chance de ver o soberano pessoalmente!

Os historiadores contam um caso curioso que ocorreu com o retratista Serov: ele foi encarregado de pintar o retrato de Nicolau II. A imperatriz acompanhou de perto o trabalho do artista, examinando cada pincelada que era dada. Imediatamente apontava o que ela via como “furos” do artista. Serov ouviu silenciosamente por um período de tempo, mas em determinado momento entregou a palheta e os pincéis para a imperatriz e lhe disse: “então é melhor a senhora mesmo fazer”! Felizmente Nicolau II saiu em sua defesa e pediu desculpas pelas interferências da esposa...

Nicolau II, por Serov
Valentin era muito exigente quando se tratava de pintar seus modelos, um trabalho que muitas vezes levava meses para concluir, em sessões ao vivo onde os modelos tinham que ficar horas imóveis. O menor movimento causava descontentamento ao artista. Alguns tinham até um pouco de medo de sentar-se para Serov pintar seus retratos, de tão rigoroso que ele se tornara. Mesmo assim, sempre havia muitos que queriam ser retratados por ele. Serov nunca falhava com seus clientes: sempre receberam belos e elegantes retratos dos quais poderiam se orgulhar.

Tendo ganhado larga popularidade, em 1894 Valentin Serov se juntou ao “Os Errantes”, grupo de artistas realistas russos que, em protesto às restrições acadêmicas, formaram uma cooperativa que também promovia exposições de obras de seus membros. Esta sociedade foi formada em 1870 em São Petersburgo, sob a liderança de Ivan Kramskoy. Ele e mais Grigory Myasoedov, Nikolay Ghe e Vasily Perov resolveram abandonar a Academia de Arte, naquele evento que se tornou conhecido como “A Revolta dos quatorze”.

De 1897 a 1909, Valentin Serov passou a ensinar na Escola de Pintura, Escultura e Arquitetura de Moscou. Em 1900 mudou-se para São Petersburgo para participar do grupo “Mundo da Arte”, uma nova associação de artistas russos que estavam insatisfeitos com “Os Errantes”. Eles tinham também uma revista com o mesmo título, onde expunham suas ideias. Assim como seu amigo Korovin, Serov contribuia com textos para a revista, assim como para as exposições organizadas pelo grupo. Foi este grupo "Mundo da Arte" que organizou em 1907 a apresentação de um balé baseado no estilo dos "Contos de Horfmann", escritor alemão. O coreógrafo, Michel Fokine, apresentou um bailarino que havia sido seu aluno como sugestão para que ele atuasse nesse balé. Era Vaslav Nijinsky, que depois se tornou mundialmente conhecido como um dos maiores, senão o maior, bailarino de toda a história do balé mundial!

No começo do século XX, Serov se torna cada vez mais modernista, abandonando o estilo impressionista. Mas mantinha-se fiel à sua compreensão realista da natureza. Nesta época fez vários retratos, que continham alguma dramaticidade, de pintores, músicos, escritores e atores, como o retrato do escritor Maximo Gorki que vemos aqui.
Retrato de Maximo Gorki, por Serov

Valentin Serov também participava ativamente dos movimentos democráticos russos que culminaram com a Revolução de 1905. Ele chegou a fazer várias ilustrações satirizando figuras da vida política. Ele era uma espécie de membro consultor da Academia de Artes de São Petersburgo desde 1903, mas em 1905 renunciou a esse cargo em protesto contra a execução dos trabalhadores em greve, no episódio que ficou conhecido como “domingo sangrento”. Também executou algumas pinturas históricas. 

Em 1907, junto com Leon Bakst (pintor e cenógrafo russo, além de figurinista) viajou para a Grécia, para a ilha de Creta, onde os dois artistas estudaram as ruínas do Castelo de Knoss. Depois de voltar para casa, Serov começou a fazer esboços do antigo castelo e temas da mitologia clássica. É dessa época "O Rapto de Europa" pintado em 1910 (veja abaixo). Também nesta época pintou cenários para a ópera “Judith” no teatro Mariinsky.

O artista deixou uma grande quantidade de obras, que vão desde a pintura de paisagem a retratos e pinturas de eventos históricos. Seu nome se junta aos dos maiores da arte realista russa, mas ao mesmo tempo mostra que, assim como Vrubel, ele foi um dos artistas que inspiraram os posteriores modernistas russos.

Valentin Serov morreu de problemas cardíacos em 5 de dezembro de 1911, com 46 anos de idade. Foi enterrado no Cemitério Novodevichy, de Moscou.

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"O rapto de Europa", Valentin Serov, 1910, óleo sobre tela, 71 x 98 cm, Galeria Tretyakov
"Retrato de Olga Tamara", Valentin Serov, 1892
"Ida Rubistein", Valentin Serov, óleo sobre tela, 1910, 147 x 230 cm
"Camponesa na carroça", Valentin Serov, 1896
"Retrato de Praskovya Mamontov", Valentin Serov, 1889

"Retrato de Semion Petrovitch Chokolov", Valentin Serov, 1887
"Sasha estudando", Valentin Serov, aquarela, 1897

"Alexander Puchkin no parque Bench", Valentin Serov, aguada, 1899

"Retrato de Sophia Botkina", Valentin Serov, óleo sobre tela, 1899

"Retrato de Sophia Dragomirova", Valentin Serov, oléo s/ tela, 1889

"Retrato de Nicolau Posniakov", Valentin Serov, óleo sobre tela, 1910
"Retrato da princesa Olga Orlova", Valentin Serov

"Retrato de Nicolau Rimsky-Korsakov", Valentin Serov, 1898, 94 x 11 cm

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Arte em construção, o sonho de Tatlin - final


Cartaz de propaganda de autoria de Alexander Rodchenko, que começou a usar suas fotografias na criação de cartazes
Arte em construção, o sonho de Tatlin - final

Tatlin trabalhando na maquete
do Monumento à III Internacional
Vladimir Tatlin nasceu em 1885. Perdeu a mãe ainda bebê e era muito maltratado por seu pai e madrasta. Fugiu de casa aos 18 anos para se tornar marinheiro e sua primeira viagem levou-o ao Egito. Nessas viagens desenhou portos e pescadores. Em 1904, quando seu pai morreu, voltou e entrou na Escola de Arte Penza, onde estudou com um pintor. Em 1910 foi para Moscou e entrou na Faculdade de Pintura, Escultura e Arquitetura. Sua primeira exposição foi em 1911, organizada pela União da Juventude. Conheceu e trabalhou muito próximo a Larionov e Natalia Goncharova. Em 1913 fez uma viagem a Paris e Berlim.


Tatlin participou ativamente do processo revolucionário soviético e se tornaria um dos principais artistas executores dos programas de arte para a sociedade nova que surgia. Foi dele também a criação de um outro monumento, o “Projeto para a Tribuna de Lenin”, que não saiu do papel. Assim como outros, projetou cenários para teatro, vestuário, peças de mobiliário, mesas de trabalho, fez ilustrações, desenhou cartazes. Junto com Rodtchenko, seu impulso era “fazer das ruas seus pinceis e das praças sua paleta”, como disse o poeta Maiakovski.


Em 1920, Tatlin e outros “artistas esquerdistas” criaram o Instituto de Cultura Artística. Sua preocupação era “desenvolver um enfoque teórico da arte sob uma sociedade comunista”, observa Camilla Gray. Inicialmente o programa a ser seguido era o desenvolvido por Kandinsky, que incluía o Suprematismo de Malevich, o Construtivismo de Tatlin e as teorias do próprio Kandinsky. O programa foi publicado em 1920. A segunda parte do curso seria dedicada à criação de arte monumental, incluindo um estudo aprofundado das cores e da geometria das formas.


Capa do manifesto do
"Cavaleiro Azul", movimento
criado por Kandinsky, 1912
“Essas ideias, que deveriam logo depois formar a base do curso da Bauhaus de Kandinsky”, ressalta Gray, foram recusadas pelos “futuros construtivistas” do Instituto. Estes tinham uma concepção mais racional da criação artística. As ideias de Kandinsky eram, para eles, muito subjetivas para serem aceitas. Kandinsky deixou o Instituto. Em 1922 foi convidado para ensinar na escola Bauhaus de Weimar, na Alemanha, e para lá se mudou.


No começo da Revolução, as exposições de arte eram basicamente dominadas pelo estilo abstrato. A V Exposição Estatal, acontecida em 1919, foi intitulada “Sindicato dos Artistas Pintores da Arte Nova - Do Impressionismo à Pintura Abstrata”, ocorrida no Museu de Belas Artes de Moscou. Kandinsky, assim como Rodchenko e as artistas Varvara Stepanova e Liubov Popova expuseram obras abstratas. Tatlin e Malevich não participaram. Na X Exposição Estatal, Malevich expôs uma série intitulada “Branco sobre branco”. Rodtchenko, em contrapartida, enviou sua pintura “Preto sobre preto”, acompanhada de um manifesto onde dizia: “As cores caíram fora, está tudo misturado em preto”, entre outras frases de efeito mescladas com citações do poeta Walt Whitman. Foi a última exposição de pintura coletiva realizada pela vanguarda na Rússia.


O Proletkult


Capa de "Fornalha",
órgão oficial do Proletkult, 1922
Proletkult é a sigla em russo da “Organização para a Cultura Proletária”. Começou a atuar efetivamente após a Revolução de 1917. Sua visão da arte era assim declarada: “Arte é um produto social, condicionado pelo ambiente social. Também é um meio de organizar o trabalho… O proletariado tem de ter sua própria arte de classe, a fim de organizar suas forças na luta pelo socialismo”.


Seu principal teórico era Alexander Bogdanov, um marxista que sempre disputava com Lenin sobre a doutrina, observa Camilla Gray em seu livro. Bogdanov exigia que o Proletkult tivesse autonomia em relação ao partido bolchevique e fosse o “verdadeiro representante da cultura proletária”. Lenin discordava. Gray observa: “Segundo dizem, Lenin chegou a declarar que um tal monopólio do título de arte proletária oficial por parte de uma escola, era prejudicial, ideológica e pragmaticamente”. Lenin não veria o outro erro, na década de 1930, quando se impôs a estética do “Realismo Socialista”...


Em 1918 a capital russa voltou a ser Moscou e para lá se mudaram os principais artistas “esquerdistas”. Para eles foi um tempo de profícua atividade. Estavam obcecados com a ideia do papel que estavam sendo chamados a desempenhar nesta nova Rússia. “A arte não era mais algo remoto, um vago ideal de sociedade, mas a própria vida”, diz Camilla. Eles sonhavam com este novo mundo cheio de arranha-céus, máquinas, foguetes e automatização. Todos os seus projetos se voltavam para ajudar a criar este novo mundo.


"Contra-relevo", escultura de Tatlin, 1916
Em meio a apaixonados debates nasceu o Construtivismo. O centro principal era a sede do antigo “Instituto de Cultura Artística” em Moscou, mas as discussões aconteciam em qualquer parte e qualquer hora. Destes debates, surgiu mais uma cisão: de um lado o grupo de Malevitch, para quem a arte era uma atividade essencialmente espiritual, “cuja tarefa consistia em ordenar a visão de mundo do homem”. Do outro lado, se enfileiravam Vladimir Tatlin, Alexander Rodtchenko e Vladimir Maiakovski, dizendo que o artista deveria se tornar um técnico, aprender a usar as ferramentas e os materiais de produção. “Arte para a vida!”, era seu slogan.


Os seguidores de Tatlin, Rodtchenko e os outros, abandonaram por completo a pintura de cavalete para trabalhar na “arte da produção”. Os Construtivistas desejavam criar uma “ponte entre arte e indústria”, mas também negavam o passado, a tradição. Para estes artistas, o passado era a arte burguesa, que não servia à nova sociedade. Seu manifesto era tão doutrinário quanto foi doutrinária na década de 1930 a visão jdanovista da arte...


Eles se dedicaram ao desenho industrial. Vladimir Tatlin foi até à metalúrgica Lessner, perto de São Petersburgo, para se tornar um artista-engenheiro. Popova e Stepanova trabalharam numa fábrica têxtil, onde criaram tecidos. Rodtchenko e Maiakovski passaram “a desenhar cartazes de propaganda e desenvolveram um método construtivista de desenho para tipografia”. Rodtchenko passou a utilizar a fotografia como ilustração dos seus cartazes.


"Dança", pintura de
Alexander Rodchenko
Com a política da NEP implementada por Lenin, que industrializava o país, os artistas passaram a ser contratados para desenhar emblemas, selos, slogans, cartazes. No Clube dos Trabalhadores “tudo, das mesas e cadeiras aos slogans nas paredes e à montagem da iluminação, era projetado em estilo construtivista”, aponta Gray. Tatlin projetava fogões, mesas, cadeiras, pratos, canecas, objetos de uso social.


Mas havia uma divisão em relação à proporção ideal dos objetos. Alguns construtivistas, como Rodtchenko, defendiam a ideia de que o objeto deve seguir uma medida de proporção geométrica. Tatlin discordava e criava objetos mais orgânicos. Nas roupas dos operários que ele desenhava, se preocupava com que as peças dessem o máximo de movimento e calor com um mínimo de peso. “O movimento natural e a medida do homem ditavam seus desenhos”, diz Gray. Os outros construtivistas “trabalhavam os materiais, mas de modo abstrato, como um problema formal, aplicando mecanicamente a técnica à sua arte. O construtivismo não levou em conta a relação orgânica entre o material e a capacidade elástica, sua característica de funcionamento”, teria dito Tatlin, segundo um catálogo de sua exposição feita em Moscou em 1932, onde apresentou pela primeira vez o seu planador Letatlin.


O Construtivismo foi um movimento estético amplo, que atingiu também a Arquitetura e o Desenho Gráfico. Mas como as condições iniciais da URSS eram difíceis, os arquitetos quase só conseguiam ver seus projetos realizados em cenários de teatro e estandes de exposições, como o pavilhão russo da Exposição de Artes Decorativas de Paris, em 1925, projeto do arquiteto Konstantin Melnikov. Além dele, e o mais famoso de todos, foi construído em modelo também construtivista, em 1924: o Mausoléu de Lenin, na Praça Vermelha em Moscou, desenhado por Aleksei Shchusev. Foi construído inicialmente em madeira, depois em granito vermelho e ainda hoje é um dos lugares mais visitados do mundo.

Vladimir Tatlin morreu aos 68 anos de idade em Moscou. Após o endurecimento das políticas soviéticas em relação às artes e aos artistas, ele continuou na URSS desenhando cartazes. Depois voltou à pintura figurativa de cavalete. Pioneiros em muitas áreas, das artes às ciências, poderíamos dizer que os russos são os verdadeiros inventores da modernidade do século XX. O maior feito moderno da história recente, a Revolução Socialista de 1917, mudou a face do planeta e seus efeitos permanecem, mesmo que a propaganda e o marketing ideológico capitalista ainda hoje tentem esconder este fato. As artes russas - da pintura ao cinema - ainda hoje inspiram artistas e estudantes de arte pelo mundo a fora...
Projeto de Alexander Vesnin para o "Palácio do Trabalhador" em Moscou, 1922-23
Mausoléu de Lenin, na Praça Vermelha, Moscou - estilo construtivista
"Supremus 58", pintura suprematista de Kasimir Malevich

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Arte em construção, o sonho de Tatlin - parte I


Como neste ano de 2017 se comemora uma data muito importante da história mundial, a Revolução Soviética de 1917 na Rússia, iremos dedicar este ano a falar da arte e da cultura russa neste blog. Os assuntos são muito vastos e são riquíssimos em conteúdo! 

De artistas antigos como Andrei Rubliev, o pintor de ícones, à nova safra de jovens artistas estudantes da Academia Ilya Repin de São Petesburgo, passaremos por todos os assuntos possíveis de serem alcançados em meu trabalho de pesquisa para este blog, levando-se em conta que o material de que dispomos aqui no Brasil, e em São Paulo, onde moro, são um pouco escassos. Faremos o possível para apresentar uma boa mostra do que significa para o mundo ocidental a imensa riqueza que a cultura russa trouxe ao mundo, em especial no século XX. 

Iniciaremos com um primeiro artigo sobre o Construtivismo, que acabei de escrever e será publicado na revista Princípios, da Fundação Maurício Grabois. Aqui, o artigo será dividido em duas partes, sendo que a próxima será publicada nesta segunda, dia 30 de janeiro.


"O ciclista", Natalia Goncharova, 1913, pintura cubo-futurista
Arte como construção, o sonho de Tatlin

Entre o final do século XIX e 1932 aconteceu na Rússia o aparecimento de muitas escolas e movimentos artísticos e intelectuais. Pela primeira vez na história, um grupo de jovens artistas viu concretizar sua visão de arte em termos práticos e com a grandiosidade patrocinada pela Revolução de 1917. Vladimir Tatlin, uma das figuras centrais da chamada “vanguarda russa”, inspirou o nascimento de um destes movimentos, o Construtivismo.

A história do povo russo vem de muito longe, quando povos eslavos começaram a se aglomerar em torno de  Kiev, cidade que hoje se situa na Ucrânia. Os Rus de Kiev, como eles se chamavam, passaram a ocupar uma região que, em termos atuais, alcança toda a Bielorrússia, uma grande parte da Ucrânia e o centro e noroeste da Rússia.

Desenho representando o que seria a antiga Kiev
Na passagem para o século XX, ainda era um país muito atrasado. A imensa maioria de sua população vivia nos campos; suas cidades eram aglomerados labirínticos onde viviam os pobres em casas mal iluminadas, com comida escassa. O regime de servidão somente tinha sido abolido em 1861 e o analfabetismo era generalizado. Os romances de Dostoievski fazem um bom retrato do que era a vida nessa Rússia.

Mas antes ainda, em 1682, tomou posse como czar, o homem que tinha mais de dois metros de altura, Pedro, o Grande. “O reinado de Pedro, o Grande, representou a maior transformação da Rússia antes da Revolução de 1917”, diz o professor de história da Universidade de Yale, Paul Bushkovitch em seu livro “História Concisa da Rússia”. Acrescenta: “Ele realizou em 36 anos uma mudança na cultura russa que levou séculos na Europa Ocidental”. E grande parte de seus feitos diz respeito a ter trazido para a Rússia muito da cultura europeia.

Ponte sobre o rio Neva, 1860
Uma de suas reformas foi a construção da cidade de São Petersburgo em 1703, nos pântanos do rio Neva, no golfo da Finlândia. A construção de São Petersburgo “foi planejada, projetada e organizada inteiramente por arquitetos e engenheiros estrangeiros, trazidos da Inglaterra, França, Holanda e Itália”, diz Marshall Berman em “Tudo o que é sólido desmancha no ar”. Pedro construiu São Petersburgo nos moldes das cidades europeias, num padrão de planejamento urbano advindo do Renascimento. O desenho geométrico e retilíneo dava “ao panorama urbano uma aparência de amplitude horizontal infinita”.

Com suas linhas retas em meio à sinuosidade caótica das velhas cabanas da aldeia anterior, São Petersburgo era considerada por muitos autores como “produto do pensamento” Iluminista. Criou-se, e acentuou-se nas décadas seguintes, a polaridade Moscou - São Petersburgo. Petersburgo representando as forças estrangeiras e ocidentais, a modernidade, a civilização, o novo; Moscou, por seu lado, a tradição, o sagrado, a nacionalidade, o antigo. Este dualismo também alcançava as mentes da intelligentzia russa, chegando ao final do século XIX com duas grandes correntes antagônicas: os Ocidentalistas, defensores da modernidade e os Eslavófilos, defensores da tradição e da cultura nativa.

Selo em homenagem a
Dostoiévsky, com uma
reprodução de pintura de
Vasily Perov
A Literatura era o “campo de batalha da ideologia política e cultural”, como aponta Paul Bushkovitch. As revistas literárias de Puchkin e Senkovski guerreavam entre si sobre suas opiniões de autores russos ou estrangeiros como Goethe e George Sand. O crítico literário Vissarion Belinski, que fazia parte do movimento Ocidentalista, “passou a ser visto na Rússia como o arquétipo do crítico ‘engajado’, que julgava as obras de arte segundo critérios amplamente utilitaristas e de acordo com sua relevância para a reforma da sociedade russa”.

Ele se inspirava nas ideias de Hegel, que dizia que “a arte era uma das manifestações da Ideia na história, junto com a filosofia ou o desenvolvimento do Estado”. A arte que não tinha esse fim utilitarista era insignificante e ruim. Ele considerava que a sociedade russa deveria se aproximar do padrão civilizado do Ocidente - idealizado, é claro. Com esse ponto de vista, Belinski - que se alinhava com os socialistas utópicos - rejeitava totalmente a antiga cultura russa e inaugurava também uma forma de pensar a arte que mais tarde foi utilizada pelos Construtivistas.

Mas em 1863, treze estudantes da Academia de Arte abandonaram a instituição. Ivan Kramskoi e seus amigos se opunham às condições da premiação anual da academia e formaram a “Associação Livre dos Artistas”. Eles rejeitavam os modelos acadêmicos, as regras e convenções da técnica ensinada naquela escola, importados em grande parte da Academia Francesa. Para esses jovens rebeldes, a pintura que se ensinava lá nada tinha a ver com a realidade russa, “que mudava tão rápido em torno deles nos anos 1860”, diz Bushkovitch. Eles e outros artistas pensavam que se tinham que se inspirar em algum modelo europeu, era no pintor francês Gustave Courbet ou nos realistas alemães. Nessa década a pintura russa realista retratava a vida em seu próprio país, como o fizeram Ilya Repin, Vladimir Stasov e Isaak Levitan.

Entre aquelas duas grandes correntes de pensamento (Eslavófilos e Ocidentalistas) foram se gestando miríades de movimentos artísticos, que também acompanhavam o desenrolar da luta política e ideológica que levou à Revolução de Outubro de 1917. Do final do século XIX até à primeira década de 1920 os debates em torno desta questão - a assimilação ou não da cultura europeia - eram muito intensos dentro do mundo artístico russo. Mas uma grande parte dos artistas, em contato com as novidades francesas se deixaram influenciar por elas e levaram as novas estéticas artísticas às suas últimas consequências, inspirados pelo espírito revolucionário que incendiava o país e criava esperança no futuro. “Una de las metas esenciales de todos los artistas de principios del siglo fue incorporar lo experimental - tan característico de los ámbitos científicos - al mundo del arte”, explica Lourdes Cirlot em “Las vanguardias artísticas en el siglo XX”.

"O galo e a galinha", pintura em estilo
raionista, de Larionov, 1912
Matisse, Cézanne, Manet, Gauguin e depois Picasso, com seu Cubismo, tiveram grande influência sobre os artistas russos, que também buscaram formação na França. Também mantiveram uma constante interrelação com correntes estéticas diversas, da França e Alemanha. Os franceses já haviam inaugurado a pintura Impressionista, que depois gerou outros movimentos como o Pontilhismo e o Fauvismo. Na Alemanha, o movimento “Die brücke” (A ponte) já dava os primeiros passos do Expressionismo alemão.

Os italianos, em 1909, inauguraram o Futurismo, movimento que foi liderado por Filippo Marinetti, que depois se rendeu ao Fascismo. Do Futurismo italiano e do Cubismo francês, os russos criaram o movimento conhecido como Raionista, no começo do século XX. Em 1914, Kasimir Malevich cria na Rússia o seu Suprematismo, corrente que abria espaços largos para a Abstração, que já havia sido iniciada por Vassili Kandinsky. Outros artistas russos já haviam passado pelo Raionismo, pelo Simbolismo…

"Tribuna de Lenin", projeto de
El Lissitzky, 1920
Veio a Revolução de 1917. Naqueles tempos de radicalismos, para “os artistas, este era o sinal para a exterminação da odiada velha ordem e a introdução de uma nova, baseada na industrialização”, diz Camilla Gray em seu livro “O grande experimento - Arte russa - 1863-1917” (Camilla Gray foi uma bailarina inglesa que visitou a URSS pela primeira vez em 1955 e deixou como legado uma rica pesquisa sobre a vanguarda russa). “A revolução deu um senso de realidade às suas atividades e uma direção, longamente aguardada, às suas energias - uma vez que não havia, em suas mentes, nenhuma dúvida que os impedisse de identificar suas descobertas revolucionárias no campo artístico com essa revolução econômica e política”.  

A Revolução acendeu verdadeiras fogueiras no coração dos artistas. Malevitch, Rodtchenko, Maiakovski e Tatlin, dentre muitos outros, tomaram em suas próprias mãos a reorganização da vida artística russa enquanto anunciavam que estava terminada a fase da “pintura de cavalete” que eles associavam ao sistema burguês: agora eles tinham as ruas para pintar, as praças e pontes, como arena de suas atividades artísticas.

Nos quatro primeiros anos pós-revolucionários conseguiram montar museus e escolas de arte por todo o país, assim como salas de teatro e de concerto. Foram eles que decoraram as ruas para as celebrações de Primeiro de Maio e do aniversário da Revolução. Artistas, atores, escritores, músicos e compositores se empenharam em organizar espetáculos de arte para festejar essas datas. “Trens decorados com temas revolucionários foram enviados para o front levando notícias da Revolução política e artística para todos os cantos do país”, conta Camilla Gray.

Vladimir Tatlin
Em 1919, o Departamento de Belas Artes encomendou a Vladimir Tatlin o “Monumento à III Internacional”. Era um projeto para ser erguido no centro de Moscou.Tatlin trabalhou neste projeto de 1919 a 1920, construindo um modelo em madeira e metal. Esta obra foi exibida no VIII Congresso dos Sovietes em dezembro de 1920. Foi este o primeiro símbolo do movimento Construtivista, que se tornou modelo para as esculturas de Naum Gabo e os móbiles de Alexander Rodtchenko.

Camilla Gray, que teve acesso aos esboços e projetos, assim descreve o “Monumento à III Internacional”, de Tatlin:

O monumento de Tatlin era para ter duas vezes a altura do Empire State Building. Seria executado em ferro e vidro. Uma armação espiral em ferro apoiaria um corpo formado por um cilindro de vidro, um cone de vidro e um cubo de vidro. Esse corpo seria suspenso sobre um eixo assimétrico dinâmico, como uma Torre Eiffel inclinada, que prolongaria, assim, seu ritmo espiral, espaço adentro. Tal ‘movimento’ não iria limitar-se ao desenho estático. O corpo do próprio Monumento mover-se-ia literalmente. O cilindro deveria girar sobre seu eixo uma vez por ano: a esta parte do edifício seriam destinadas atividades tais como: palestras, conferências e reuniões do congresso. O cone deveria completar uma revolução uma vez por mês e abrigar atividades do executivo. No topo, o cubo deveria completar uma volta completa em seu eixo uma vez por dia, e ser um centro de informações. Iria constantemente transmitir boletins, proclamações e manifestos - por telégrafo, telefone, rádio e alto-falante. Como traço singular, uma tela ao ar livre, iluminada à noite, deveria constantemente retransmitir as últimas notícias; uma projeção especial deveria ser instalada para que, em tempo nublado, pudesse lançar palavras no céu, anunciando o lema do dia.”

O projeto nunca foi executado. Os tempos eram de profunda penúria, pois a Rússia estava passando por um período de muita fome, causada pelos longos anos da guerra civil e dos ataques estrangeiros à recém-inaugurada nação soviética. Mas os artistas construtivistas eram férteis na criação de seus projetos.

Maquete do Monumento à III Internacional, de Vladimir Tatlin,
realizado entre 1919 e 1920
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