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terça-feira, 8 de março de 2016

O galo da madrugada

“Devo acomodar a minha história à hora; eu mesmo
poderia mudar um outro tanto, não só de fortuna, 
mas também de intenção. (...) 
Se a minha alma pudesse ganhar pé, eu não faria experiências comigo, 
resolver-me-ia; mas ela está sempre em aprendizagem
e sendo posta à prova”.
(Montaigne, em A condição Humana)


Eu era uma menina em 1978, quando já havia me encantado a companhia de poetas, de artistas, de humanistas. Aquele mundo era belo, profundo, pura vida! Enquanto eu ia descobrindo o mundo, mundos vinham até mim. E com ele - numa noite em que nos juntamos um tanto amedrontados com a presença de espiões da ditadura militar - veio o poeta Thiago de Mello e sua poesia. Eu morava em São Luís do Maranhão, terra de poetas imensos!

Ilustro este texto com esta imagem de um folheto que eu mesma escrevi e diagramei em 1978, convidando para o encontro com o poeta. Resgatei esta e outras imagens de coisas que eu tinha feito, nos arquivos do famigerado Departamento de Ordem Política e Social, o Dops. Eles nos seguiam ameaçadores o tempo inteiro naquela época. E eu era só uma menina…

Lembro muito bem da sensação que minha alma inteira sentiu ao ouvir aquele senhor de branco, de estatura baixa, olhar e modos firmes; daquele homem que trazia em sua aura a aura de um outro grande poeta, o chileno Pablo Neruda, de quem era amigo. Um momento singular na minha vida se fez e minha alma cantou ali naquele momento e em muitos outros que vieram a seguir (porque decorei este poema):

Quero dizer teu nome, Liberdade
Quero aprender teu nome novamente 
para que sejas sempre em meu amor
e te confundas ao meu próprio nome.


Deixa eu dizer teu nome, Liberdade
irmã do povo, noiva dos rebeldes,
companheira dos homens, Liberdade.


Teu nome em minha pátria é uma palavra
que amanhece de luto nas paredes.
Deixa eu cantar teu nome, Liberdade 
que estou cantando em nome do meu povo.



Ao ouvir Thiago de Mello em 1978 vi um poeta enorme e eu me fiz enorme com ele. Me juntei ainda mais aos companheiros daqueles tempos, e a gente cresceu junto. E derrubou uma ditadura inteira!

Mas, como diz a frase de Montaigne no início deste texto, “minha alma está sempre em aprendizagem”, “sempre posta à prova”. E o ano agora é 2016 e novamente estarei diante de Thiago de Mello no dia 15 de março, 38 anos depois.
"O poeta da madrugada", em andamento, óleo sobre tela

Jeosafá e Adalberto me encomendaram uma pintura para presentear o poeta amazonense, o poeta da noite, o galo da madrugada. Imenso desafio! Era preciso internar-me em casa durante três dias para dar conta de produzir um quadro em tempo récorde. O ano de 1978 se encontrou ali entre eu e meu cavalete, no meu ateliê em casa. 

Mas de repente desabou, pesada e tenebrosa, a sombra da mais temerosa pata do monstro fascista, mais uma vez. Lula foi arrastado a depor na manhã do primeiro dia da minha pintura. Mas não era Lula: era o Brasil dos enjeitados secularmente, o Brasil dos confins do Brasil, com sua cara de miséria, com seus pobres, com seus pretos, com seu povo que vinha melhorando um pouco mais de condição. Era o Brasil da senzala sofrendo o renovado arresto da Casa Grande!

Ato contínuo, fui também arrastada para o aeroporto de Congonhas, local escolhido para as mais infames intenções do ícone maior da direita atual, o juiz Moro. Larguei meus pinceis ali e corri para me juntar aos companheiros de agora. Era imperativo nos juntarmos, pois vivemos num país de liberdade, conquistada a muito custo e que mais uma vez se vê ameaçada gravemente. Em 2016!

Não sei o que vai acontecer com o Brasil, poeta! Os tempos de novo se obnubilaram… Aquelas velhas nuvens pesadas e densas de 1978 surgem ameaçadoras sobre o céu do Brasil de 2016… Mas a pintura que lhe presentearemos no próximo dia 15, poeta, - tenha certeza! - está sendo feita de pinceladas firmes, nenhum pouco serenas, resistentes, dispostas a cantar de novo 

Faz escuro mas eu canto, 
porque a manhã vai chegar. 
Vem ver comigo, companheiro, 
a cor do mundo mudar. 
Vale a pena não dormir para esperar 
a cor do mundo mudar. 
Já é madrugada, 
vem o sol, quero alegria, 
que é para esquecer o que eu sofria. 
Quem sofre fica acordado 
defendendo o coração. 
Vamos juntos, multidão, 
trabalhar pela alegria, 
amanhã é um novo dia.

A menina de 1978 é a mulher de 2016, mas a alma é a mesma. E com Montaigne ela grita tão alto quanto pode ser possível:

“Devo acomodar minha história à hora!”

quarta-feira, 4 de março de 2015

Picasso e a modernidade espanhola, no CCBB-SP

Cerca de 90 obras pertencentes ao Museu Reina Sofia, de Madrid, Espanha, estarão sendo expostas a partir do próximo dia 25 de março no Centro Cultural Banco do Brasil, centro de São Paulo. Com ênfase em obras de Pablo Picasso, que mostram como este artista influenciou a moderna arte espanhola, a mostra ficará em cartaz até o dia 8 de junho próximo. A entrada é grátis. 


Pablo Picasso
A exposição mostrará um pouco do caminho de Picasso como artista, até chegar à realização de “Guernica”, à sua relação com outros artistas da arte moderna espanhola, como Gris, Miró, Dalí, Domínguez e Tàpies, entre outros presentes na mostra. Mas os holofotes principais desta exposição estarão focando especialmente as obras de um dos grandes mestres da arte do século XX, Pablo Picasso (leia mais sobre ele aqui).

Essa exposição foi organizada e realizada em colaboração com o Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía e a Fundación Mapfre. Exposição realizada inicialmente na Fondazione Palazzo Strozzi, Florença, até o mês de janeiro deste ano. Depois de São Paulo, a mostra segue para o Rio, e poderá ser visitada entre 24 de junho e 7 de setembro. Ao todo, serão apresentados 90 trabalhos – metade deles de autoria do mestre cubista. Entre os quadros de Picasso que integram a mostra, estão “Cabeça de Mulher” (1910), “Busto e Paleta” (1932), “Retrato de Dora Maar” (1939) e “O Pintor e a Modelo” (1963).


O catálogo da mesma
mostra na Itália
A arte moderna espanhola mostra a sensibilidade artística dos espanhois e sua forma especial de ver o mundo, como resquícios de uma visão barroca que vem de muito longe. Isto também encontramos no cinema de Luiz Buñuel e Pedro Almodovar. Qualquer um de nós que tenha tido acesso às criações artísticas espanholas consegue identificar uma linha que unifica desde Velázquez ao próprio Almodóvar, numa coisa que podemos chamar de “uma certa espanholice”, conhecida e personificada muito bem por meu amigo Jeosafá Gonçalvez, que descende daquele povo al igual que yo, que traigo en mi nombre un López que viene de hace mucho tiempo...

A arte espanhola é geralmente vista como uma arte de expressão que beira o drama, nunca se identificando com a visão lógica e racional. Não existem medidas lineares na alma espanhola. O próprio Velázquez não obedecia regras vindas “de fora” e se concentrou em seu próprio jeito de pintar, com pinceladas certeiras e livres. Pintava o rei Filipe, mas também os aleijados, os deformados da Corte. Mesmo as tentativas cubistas de Picasso tinham uma razão de ser que vinham do fundo de um artista muito bem informado sobre seu mundo: estraçalhado por uma Europa em frangalhos que em menos de 30 anos passou por duas guerras sanguinolentas. Picasso atravessou diversas circunstâncias históricas, socio-econômicas e políticas que lhe faziam se redefinir gradualmente como artista.


Naquele período a relação com a realidade era difícil: homens matando homens, milhões morrendo na guerra, de fome por causa da guerra, de doenças por causa da guerra. As vidas de todos reviradas. Na Espanha, para piorar, o fascismo de Francisco Franco criou um mundo de terror para os espanhois, milhares dos quais tiveram que fugir de seu país para não morrer, de morte matada ou de fome. Muitos vieram para o Brasil. 

Na minha última viagem à Madrid, em 2013, voltei no avião ao lado de uma senhora espanhola que beirava os 90 anos de idade. Veio conversando comigo as 10 horas de viagem do vôo Madrid-São Paulo, me contando coisas dos tempos de Franco, o fascista. Entre outras coisas, ela me contou: “Era tudo uma loucura! Os vizinhos, os parentes, as pessoas que a gente conhecia, começaram a nos dar medo. Você não podia usar uma correntinha de ouro no pescoço. Teu vizinho ou teu parente te roubava para comprar comida! Em casa, um pão teria que durar vários dias. Minha mãe partia um pequeno pedaço para cada filho, e muitas vezes ela mesma ficava sem o pedaço dela. Meu pai saia atrás de trabalho e não tinha. Todo mundo vivia de cabeça baixa, a gente falava pouco. O medo era geral. A gente ouvia tiros pelas ruas, andava se esgueirando nas calçadas… Meu pai foi preso duas vezes, suspeito de ser comunista.” Por isso, assim como milhares de espanhois, ela - que esqueci o nome - veio morar no Brasil, para onde estava voltando de férias, para visitar umas amigas. Sozinha, e com quase 90 anos. O Brasil é o país que tem o melhor povo do mundo, disse ela.


Ruínas de Guernica, cidade espanhola,
após o bombardeio nazista
Mas voltemos à exposição do CCBB. O público também poderá ver estudos e esboços que resultaram na obra-prima “Guernica”, um painel que Picasso pintou em 1937, e que representa as atrocidades cometidas pelas ações da direita fascista e nazista durante a Guerra Civil Espanhola, que durou de 1936 a 1939. O painel, de 3,49 metros de altura por 7,76 metros de comprimento expõe os horrores causados pelos aviões da força aérea alemã nazista contra a população da pequena cidade de Guernica. Aliados do general Franco, os alemães fizeram deste ataque um treino para posteriores ações contra os aliados. Foram lançados 300 quilos de bombas contra o povo da pequena cidade dos bascos.

Em 2001 eu parei diante deste painel durante umas duas horas, dentro do Museu Reina Sofia aonde ele se encontra, em Madrid. Minha alma chorava. Aqueles corpos despedaçados, desesperados, e aquele cavalo em agonia, me mostravam um mundo em que não vivi, mas que nunca deve ser esquecido, para que esse horror não mais se repita. Mas me levava também a lembrar do horror da ditadura militar no Brasil - que vivi! - que assassinou e torturou centenas de pessoas como eu. Quando vi “Guernica”, para minha sorte, ele já não estava mais protegido por vidro blindado e eu pude vê-lo frente a frente.


Do lado esquerdo do quadro, junto com uma mãe gritando de dor com seu filho no colo, aparece a cabeça de um bovino. Seria a representação do antigo Minotauro, criatura mítica - da antiga mitologia grega - um ser com a cabeça de um touro e o corpo de um homem, ou seja, oscilando entre o humano e o bestial. Picasso já tinha feito, no começo da década de 1930, uma série de estudos sobre a saga do minotauro, relacionando-o com as famosas Touradas do seu país. Picasso acabou colocando a imagem do monstro como parte de sua representação da tragédia do povo de Guernica.

O quadro parece uma constelação de relações nem sempre apreensíveis. No meio do quadro, há um cavalo que relincha sobre corpos esquartejados. Picasso era comunista, o cavalo representava o povo: mesmo com a cabeça cortada, e com uma expressão de dor, mas não de derrota, o cavalo luta. Acima de sua cabeça, uma luz se acende e um braço estendido apresenta uma lamparina acesa. Por todo lado, corpos esfacelados. Mas há luz, há esperança. Esta é a grande mensagem de Picasso.

Esta exposição do CCBB, portanto, será uma boa oportunidade para ver de perto as obras deste artista espanhol, além dos outros, e em especial, seus estudos para a “Guernica”. Tomara que mais uma vez 400 mil pessoas façam fila para ver uma grande exposição, como o fizeram para ver Ron Mueck. E que a arte dos espanhois sirva para despertar reflexões sobre os momentos em que vivemos nos dias atuais: momentos “peligrosos”, em que forças bestiais subterrâneas resolveram colocar a cabeça para fora… No mundo, e no Brasil.


"Guernica", painel de Pablo Picasso, óleo sobre tela, 1937