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sábado, 13 de junho de 2015

400 mil acessos!

Este Blog - que só fala de Arte! - acabou de alcançar a marca dos 400 mil acessos em 5 anos de existência!

Agradecemos a todos os nossos leitores, de todos os lugares do mundo, que vêm acompanhando os textos e artigos publicados neste blog, que tem o único objetivo de ajudar a expandir o conhecimento das pessoas sobre as artes plásticas. E ajudar a tornar o mundo mais belo...

Pessoas dos mais inimagináveis recantos da terra vêm acessando este blog: de Moçambique à Alemanha, do Vietnã à Sumatra, de Nova Zelândia ao Peru, passando por Portugal, Estados Unidos, França, Reino Unido, Argentina, Chile, México, Espanha, Itália... 

São inúmeras as cidades, pequenas e grandes, do Brasil e de mais de cinquenta países, que vem acessando este blog! Com a facilidade da tradução online que a internet permite, o que escrevo por aqui tem alguma repercussão em algum ser humano localizado nos cantos mais diversos do planeta - como Novgorod, na Rússia ou Mossoró, Rio Grande do Norte - que esteja fazendo alguma pesquisa sobre arte.

Tudo isso e todo o apoio que venho recebendo, de conhecidos e desconhecidos, são motivos de sobra para que eu continue publicando neste blog as minhas pesquisas pessoais, as minhas questões e reflexões sobre o assunto, o meu contato com este imenso e maravilhoso mundo da arte!

Obrigada a todos/as pelo acesso e confiança no meu trabalho!

terça-feira, 13 de maio de 2014

O ofício da arte I

Igor Stravinsky, Mazé Leite
carvão sobre papel canson, 13 de maio de 2014
Igor Stravinsky cruzou meu caminho nestes últimos tempos.


Primeiro sketch
Primeiro, através de uma fotografia em preto e branco. Eu procurava referências para desenhar e entre diversas fotos estava um homem já idoso, de olhar triste e um tanto cansado. Fiz um primeiro desenho dele a lápis. Uns dias depois, a foto volta a aparecer de vez em quando em minhas mãos e me intrigar. Fui ouvir sua música, para entender aquele olhar.


Comecei com a "Sagração da Primavera", que ele fez em 1913 e que foi coreografado por um dos melhores bailarinos russos de todos os tempos: Vaslav Nijinski. Depois ouvi "Pássaro de Fogo", "Canção do Rouxinol"… E fui viajar para Montevideu.


No Teatro Solís, enquanto aguardava a hora para ouvir a palestra de John Maxwell Coetzee, fiquei um tempo na pequena livraria do teatro, fuçando os títulos. Cai nas minhas mãos o livro “El mensaje de Igor Strawinsky”, escrito por seu filho o pintor Théodore Stravinsky. Muita coincidência… Folheei o livro, comprei o livro e no dia seguinte comecei a lê-lo avidamente.


Ultimamente há um tema que vem me encucando e cruzando meus pensamentos: o tempo. Stravinsky apareceu nesse meio tempo… Vamos buscar os pontos de união.


O bailarino Nijinski no papel de
Petruska, balé de Stravinsky
Já encontrei logo de cara um frase sua que dizia que a música, para ele, estava “destinada a instituir uma ordem nas coisas, e essa ordem compreende sobretudo uma ordem entre o homem e o tempo”. Pois é…


Entre a música e a pintura há inúmeros pontos em comum, inclusive vários termos, como cromatismo, contraponto, ritmo. Claro que uma pintura é algo que se constrói com as mãos, pinceis e tintas e seu resultado final é feito para ver. A música se faz com as mãos, compondo ou tocando um instrumento, e é feita para ouvir. Alguns ousam buscar relações entre esses dois instrumentos humanos de percepção, podendo “ouvir” algo em uma pintura ou “ver” alguma imagem ao ouvir uma música. Mas não vamos entrar por aí, por enquanto.

O objetivo deste e do próximo post é falar do livro que comprei em Montevideu, o “El mensaje de Igor Strawinsky”.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

A alma do mundo

Gustave Courbet: A onda, óleo sobre tela, 1870
Acabei de ler o texto “Sobre a relação das artes plásticas com a natureza”, do filósofo alemão Friedrich Wilhelm von Schelling (1775-1854). Esse texto foi escrito para seu discurso de entrada na Academia Bávara de Ciências, em Munique, Alemanha, e foi proferido no dia 12 de outubro de 1807. A repercussão do texto foi grande, e até Goethe o felicitou. Schelling foi contemporâneo de Hegel, um dos filósofos que mais escreveu sobre Estética e sobre Arte.


Schelling
Pela atualidade do tema e por descobrir grande convergência entre a visão de Schelling sobre a pintura e minhas próprias convicções pessoais sobre arte Realista, faço abaixo uma tentativa de expor um resumo dessas ideias.


A arte realista busca beber na fonte inesgotável da realidade do mundo, realidade em permanente mudança, buscando ir além das aparências até alcançar o movimento interno que gera a vida. A pintura realista considera que expressar a forma de um objeto ou figura significa também expressar seu movimento interno, sua alma pulsante na alma do artista, num jogo dialético que abrange espaço, tempo, forma, cor, luz, valor, mas também conceito e visão de mundo.


Vale lembrar que a pintura realista sempre esteve presente nas artes plásticas desde tempos imemoriais. No período da Idade Média, incluindo o Renascimento, os artistas eram obrigados - por força das circunstâncias da época (econômicas, políticas, culturais e filosóficas) - a pintar o mundo idealizado do reino celestial com suas figuras de anjos e santos, além de ilustrar as histórias bíblicas e seus diversos personagens. Ticiano e Caravaggio inovaram a pintura de seu tempo, incluindo como modelos pessoas reais (Caravaggio) e uma forma de ver o mundo através do movimento das cores que rompiam as linhas do desenho (Ticiano). Depois deles, gerações de artistas se voltaram para o mundo concreto, para o Real e seu sentido de inesgotabilidade, de permanente mudança e movimento contínuo. Esse Real do qual não se vê mais do que a aparência, que é fugidio, se desnuda para a observação profunda e a contemplação silenciosa dos artistas.


Neste ponto, nos encontramos com Schelling, e com ele prosseguimos.


Logo no começo do seu discurso, ele traça uma diferença entre formas de descrever o mundo. Uma delas é por meio do discurso, da eloquência, da exposição oral. “Mas a arte - diz ele - possui essa vantagem de ser dada visualmente”, apresentando de uma maneira diferente - para os olhos - aquilo que é difícil de ser apreendido por palavras. E neste sentido a arte plástica se torna Poesia, “poesia muda”, como ele acrescenta. Silenciosa, a arte plástica cria um vínculo, uma ponte entre a alma humana e a Natureza, o Real.


O verdadeiro modelo e “fonte primordial” da arte plástica é a Natureza. Mas Schelling aponta os questionamentos que dizem que isso já é feito pela ciência e que há “tantas representações” da natureza quanto “os diferentes modos de vida”. Sim, mas mesmo aí há também diferentes tratamentos para o mesmo tema e isso é o que cria a enorme diferença de visão de mundo a partir das artes plásticas, o que se torna ainda mais claro nos dias atuais.


Schelling já falava daqueles (incluindo pintores) para quem o mundo não passa de um amontoado de eventos e objetos e coisas sem vida, como “uma imagem muda”, “completamente morta”:

“Um esqueleto oco de formas a partir do qual uma imagem igualmente oca
deveria ser transportada para a tela.”


Observa Schelling que esse era o modo rude de ser dos povos antigos e que somente com os gregos é que o mundo pulsante passou a ser visto como tal. E com isso, admitiu-se que “o perfeito está misturado ao imperfeito, bem como o belo àquilo que é destituído de beleza.” Em outras palavras: o mundo como ele é, ou como aparenta ser. Pois também aqui há que se ter mais acuidade: uma coisa é ver as formas do mundo separadas do todo, ou mesmo vazias, abstratas. Outra é enxergar através da forma a sua essência, acessível ao nosso espírito (mente). E Schelling adverte: àquele que enxerga do mundo somente a sua casca “jamais será facultado atingir o processo profundo”.


Mas sem idealização, pois as “formas ideais” estão tão mortas quanto aquelas que parecem sem vida a um observador sem alma. Portanto, é preciso - para apreender o Real - “acrescentar o olho do espírito, para penetrar sua casca e sentir a força que nelas se efetua”. Entenda-se esse “olho do espírito” como o olho da mente. O entendimento, portanto, não é fruto de uma observação passiva de um dado evento ou objeto, mas surge da interação entre a mente que observa (a inteligência) e a coisa observada efetivamente. Este é um tema muito antigo e para o qual Karl Marx também atentou: o mundo objetivo tem precedência sobre as ideias. Mais Schelling:


“... os artistas decerto mantiveram, desde tal época, um certo ímpeto idealista, bem como representações de uma beleza que se eleva acima da matéria, mas tais representações assemelhavam-se às belas palavras que não correspondem aos atos.


Há duas questões a se levar em conta: a beleza presente no conceito emanado da alma e a beleza da forma. O que une esses dois elementos numa pintura? Ele responde: “Se a arte não fosse capaz de estabelecer tal vínculo, tal como o faz a natureza, então, em geral, ela não estaria apta a criar nada.” E ele aponta que o artista que somente foi capaz de tomar como ponto de partida a forma em si, mesmo que tenha alcançado o mais alto refinamento de seu trabalho como pintor, ainda assim sua obra será a expressão do vazio. Pois não é possível CRIAR através “da mera forma”.


“Antes de mais nada, a natureza vem ao nosso encontro de modo hermético e sob uma forma mais ou menos rígida. Assemelha-se à beleza sóbria e serena, que não chama a atenção por meio de sinais gritantes e nem atrai o olhar vulgar. Como podemos fundir, digamos, do ponto de vista espiritual, aquela forma aparentemente rígida a fim de que a força mais clamorosa das coisas flua juntamente com a força de nosso espírito, transformando-as num só molde? Temos que ultrapassar a forma, para, aí então, readquiri-la como algo inteligível, vívido e verdadeiramente sentido. (grifo meu)


Leonardo da Vinci: Dama com arminho,
1485-90
Mais à frente em seu discurso, Schelling felicita aquele pintor que consegue, em seu espírito criador, nos mostrar uma obra em que a atividade consciente do seu espírito se une à força inconsciente presente na Natureza. Complementa: “a arte transfere à sua obra, com a mais elevada claridade do entendimento, aquela realidade inescrutável mediante a qual ela termina por se assemelhar a uma obra da natureza.”


Mas nada disto significa copiar. O filósofo alemão criticava aqueles que apenas copiavam o que viam, com “fidelidade subalterna”: “talvez lhe fosse dado produzir larvas, mas de modo algum obras de arte”, diz ele. Pois o critério para definir uma obra de arte é que ela possua em si aquela dupla união entre a forma e o conceito. Que, diga-se de passagem, vai muito além da simples discussão entre “forma e conteúdo”, temas que despertaram calorosos debates nos últimos cem anos. Em muitas pinturas dos mestres não só chama a atenção a sua qualidade técnica, mas também seu “pensamento”. É o que Schelling afirma, junto com outros estudiosos: “Esse espírito da Natureza, que atua no interior das coisas e fala por meio da forma e da figura como que através de imagens-sentido, decerto deve ser emulado pelo artista, haja vista que só quando este o captura com uma vívida imitação lhe é dado criar algo verdadeiro.”


Pois obras que emergem de uma composição de formas, ainda que belas,
seriam destituídas de toda beleza, já que a única coisa que concede beleza à
obra ou ao seu todo já não pode ser a forma. Trata-se de algo que está além 
da forma; é a essência, o universal, vislumbre e expressão do imanente
espírito da natureza.”


As imitações, inclusive levadas ao nível da ilusão, continua Schelling, sempre aparecerão falsas. “Ao passo que uma obra na qual vigora o conceito, termine por lhe arrebatar com a plena força da verdade, transpondo-o de saída ao mundo legitimamente efetivo”.


Michelangelo: Tondo Doni
Avaliando a evolução histórica da arte, desde sua tenra juventude dos tempos mais remotos até os dias atuais, Schelling destaca que a arte suprime algo que não é, segundo ele, essencial: o Tempo. Não “tempo” no sentido histórico humano, mas no sentido mais amplo do tempo como movimento que não se repete. O tempo daquele instante único capturado pelo pincel do artista e que o torna eterno: o instante em que a leiteira derrama o leite dentro de um recipiente e que foi eternizado por Jan Vermeer; aquele momento em que o velho Tiziano, com o rosto já marcado com os sofrimentos da vida, decidiu pintar seu autorretrato; ou o instante do olhar do filho Titus que foi marcado para sempre numa tela por seu pai Rembrandt; ou o momento de angústia de Gustave Courbet detido por sua participação ativa na Comuna de Paris…


Outra das grandes ideias defendidas por Schelling e que deve sempre nos nortear é a da percepção da totalidade das coisas, tendo consciência de que nada no mundo se encontra em separado. Tudo existe em relação. Eu me relaciono com o mundo em que vivo, sofrendo todo o tempo as influências do tempo presente, com sua cultura pulverizada, que tem pregado, nestes tempos pós-modernos, o reino da individualidade e do particular. A “maioria considera o particular em chave negativa”, diz o filósofo, ou seja, o particular como algo que não é parte do todo. Mas o particular só existe em face da totalidade: “morta e insuportavelmente rígida seria a arte que tencionasse expor a casca vazia ou a limitação daquilo que é individual.”


Jan Vermeer: A leiteira, 1658-1661
Nada pode ser separado de nada, nem o sólido do frágil, nem o determinante do determinado. Uma coisa pressupõe a outra e só pode existir em conjunto. Por isso, mesmo aquilo que não é belo, torna-se belo “mediante a harmonia do todo”. Por outro lado, Schelling faz uma admoestação ao artista: na distribuição do espaço, da luz, da sombra e do reflexo, há que se levar em conta as gradações da beleza, para que o quadro não se revele uma “antinatural monotonia”. Há que se particularizar um ponto da obra em que a beleza plena se destaca. Não é possível dar a todo o conjunto a mesma medida de beleza, mas, como Rafael, saber romper sua regularidade para que a expressão mais bela possa brilhar no centro do quadro. Schelling disse também que o “caráter” de uma pintura é aquilo que se extrai do ritmo interno, da “unidade de múltiplas forças” que agem em conjunto para “lograr uma certa harmonia e uma determinada medida”. Somente é possível criar uma unidade viva “se as forças, levadas à sublevação por meio de alguma causa, saírem do equilíbrio.” É a necessária assimetria que cria vida.


Ou seja: o edifício teórico que sustenta uma boa pintura é pleno de conceitos, de movimentos dialéticos entre o olhar do artista e sua observação do mundo.


Ticiano: Autorretrato, óleo sobre tela, 1550
Isto é fácil? Não, dificílimo! Por isso, essa postura tem sido não somente esquecida, mas deixada de lado pela arte dita contemporânea. Pois é melhor atender ao pragmatismo exigido pelo sistema de artes atual (que inclui o Mercado capitalista), mesmo que para isso seja feita uma mutilação no conjunto da teoria, que vem sendo enriquecida ao longo de toda a história humana. Esquece-se o rico legado teórico que herdamos e que poderia nos levar ao lado e além dos mestres do passado, em troca do utilitarismo pragmático que nada cria, a não ser fumaça. Ou que corta um pedaço do pé, para que caiba no sapato da teoria acadêmica atual...


Mas, diz Schelling, a pintura enobrece, modela as almas ou pelo menos indica o poder da alma que nela existe. Ao criar sua obra, o artista leva ao público observador uma possibilidade de mergulho na unidade do mundo, que eleva e dignifica. Mas que também lhe mostra seu potencial e capacidade de criador de seu próprio mundo. Também podemos lembrar do que pensava seu contemporâneo, o filósofo Hegel, que considerava a obra de arte como o meio privilegiado “através do qual o espírito humano se realiza”.


Ao final do seu discurso, Schelling faz menção a alguns dos grandes mestres do passado:


Rafael: Retrato de Agnolo Doni, 1505-06
- Michelangelo, “aquele espírito gigante”, atraído “pelos fundamentos mais recônditos da forma orgânica e, em especial, da figura humana, ele não evita o assustador, senão que o procura intencionalmente, despertando-o de seu repouso nas obscuras oficinas da natureza”;


- Leonardo da Vinci e Correggio apaziguam a violência inicial e “o espírito da natureza transfigura-se em alma” (entenda-se “espírito da natureza como a vida das coisas”). “A expressão geral dessa alma sensível é o claro-escuro (...) pois aquilo que o pintor põe no lugar da matéria é o escuro; sendo esse o estofo no qual ele deve afixar a fugidia aparência da luz e da alma”;


- Rafael “toma posse do sereno Olimpo e, consigo, conduz-nos da Terra à assembleia dos deuses”. “O florescer da vida perfeitamente formada, o perfume da fantasia e o tempero do espírito exalam, juntos, de suas obras. Ele já não é pintor, mas sim filósofo, sendo, a um só tempo, poeta.”;


Abaixo, destaco algumas questões colocadas por Schelling naquele 12 de outubro de 1807 e que até hoje rondam as cabeças de muitos artistas:


- “Como ainda seria possível contemplarmos essas obras dos antigos mestres, de Giotto ao professor de Rafael, movidos por uma espécie de devoção, inclusive por uma certa predileção, se a fidelidade de seus esforços e a grande seriedade de sua serena e espontânea limitação não nos impusesse respeito e admiração?”;


- “(...) temos de recriar a arte seguindo o mesmo trilho que eles seguiram, mas com nossa própria força, para nos igualarmos a eles.”;


- “Tudo o que cresceu a partir de inícios árduos e pequenos, mas terminou por adquirir vasto poder e altura, tornou-se grande por intermédio do entusiasmo. Isso vale tanto para impérios e Estados quanto para as artes e ciências. Não é porém a força do indivíduo que leva isso a efeito; tal tarefa cabe apenas ao espírito, o qual se espraia pelo todo.”;


- Ao artista, ninguém “pode ajudá-lo, já que ele mesmo deve ajudar-se; tampouco pode ser gratificado com algo que esteja fora de si, pois tudo aquilo que viesse a produzir sem vontade própria tornar-se-ia, de imediato, nulo; justamente por isso ninguém pode comandá-lo ou prescrever-lhe o caminho que deve peregrinar. Se é lamentável que tenha de lutar contra sua época, é tanto mais desprezível se com ela for indulgente.”


- “Apenas uma mudança operada nas próprias ideias é, pois, capaz de erguer a arte de seu esgotamento; somente um novo saber e uma nova crença estariam aptos a incitá-la ao trabalho por meio do qual ela revela, numa vida rejuvenescida, uma opulência semelhante àquela do passado. Com efeito, uma arte exatamente igual, em todas as suas determinações, à arte dos séculos precedentes jamais retornará; pois a natureza nunca se repete. Não haverá um Rafael como aquele de outrora, mas um outro a quem, de maneira particularmente similar, será facultado atingir o vértice da arte. Desde que se atenda àquelas condições básicas, a arte revitalizada mostrará o objetivo de sua determinação, tal como mostrara, em suas primeiras obras, a arte que a antecedeu”.
Rembrandt: Titus, óleo sobre tela, 1655

segunda-feira, 24 de junho de 2013

200 mil acessos

Hoje - 24 de junho - este BLOG QUE FALA DE ARTE acabou de marcar os 200 mil acessos! Este é um espaço dedicado às Artes Plásticas, à História da Arte e às minhas visões pessoais sobre o assunto. Este blog tem sido útil em diversas escolas e faculdades de artes, auxiliando estudantes em suas pesquisas. Continuaremos com nosso trabalho teórico postando textos aqui neste blog, somente que de forma um pouco mais lenta, uma vez que a autora resolveu privilegiar agora seus horários mais livres à pintura do que ao estudo teórico. No entanto, sempre traremos as novidades do mundo das artes plásticas e, sempre que possível, nossas opiniões a respeito do mundo.

Muito obrigada às centenas de pessoas de todos os lugares do Brasil e de muitos outros países que acessam este BLOG QUE FALA DE ARTE frequentemente!

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Cem mil acessos!


Este BLOG QUE FALA DE ARTE  acaba de cravar 100 MIL acessos em menos de três anos de existência!

Isso é resultado de muito trabalho de pesquisa, de reflexão, de visão crítica e da vontade de levar a Arte para perto de mais e mais pessoas! A Arte é necessária. A Arte é fundamental. Sem ela o ser humano se embrutece, perde o rumo, se depaupera, se destroi. Neste mundo tão dividido, tão individualista, tão contrário à natureza humana, a Arte nos inspira, nos dá uma percepção diferente do mundo, nos une, nos torna comunidade, nos torna humanos. Nos ajuda a OLHAR para o mundo.

Seguimos em frente com este trabalho, desejando que este BLOG QUE FALA DE ARTE seja cada vez mais lido por cada vez mais pessoas, levando informação sobre eventos de arte,sobre teorias da arte e sobre os artistas. Nossa satisfação em ter alcançado CEM MIL ACESSOS é muito grande!

De todos os lugares do mundo este Blog é acessado. De todos os estados brasileiros pessoas passam por aqui interessadas em saber um pouco mais sobre a arte e o que anda acontecendo no mundo da arte. Este blog já gerou um livro: "As Artes Plásticas na Formação do Professor", lançado no mês de julho passado, com a presença de cerca de cem pessoas. Outros projetos virão, outros frutos irão amadurecer e criar vida, flores novas brotarão...

Sigamos em frente!

domingo, 1 de julho de 2012

Lançamento do livro: As artes plásticas na formação do professor - uma perspectiva interdisciplinar

Estudo da pintura de Vermeer "Moça com brinco de pérola", no Atelier Vermeer, Paris, 2011
Na próxima quarta-feira, dia 4 de julho, a partir das 19 horas, estarei fazendo o lançamento do meu livro As artes plásticas na formação do professor, uma perspectiva interdisciplinar. Todos estão convidados a comparecer na Livraria do Espaço Unibanco de Cinema, à Rua Augusta, 1475, São Paulo.


Este livro surgiu de uma ideia do meu amigo e poeta Jeosafá Gonçalves, educador e consultor de diversas editoras, de transformar textos e artigos publicados neste blog e em alguns portais e revistas, num formato de livro de apoio à formação do professor.

Essa possibilidade me mobilizou a vasculhar, entre os meus escritos, aqueles que podiam formatar um livro que fosse útil para quem quisesse saber um pouco mais sobre arte. Jeosafá me ajudou nessa escolha, e a organização dos textos em livros e capítulos passou por suas mãos, experimentadas em preparar livros de apoio a professores.

Mas esse livro, na verdade, pode servir a qualquer pessoa que queira conhecer um pouco mais sobre o mundo fascinante e encantador das artes plásticas. É fruto de vários anos de estudo e pesquisa da teoria e da história da arte, do ponto de vista de uma artista figurativa, que insiste em permanecer imersa dentro da linhagem dos mestres da pintura com viés realista.

Vale salientar que participar de um Atelier de Arte Realista aqui em São Paulo, sob a orientação do pintor Maurício Takiguthi, tem sido fundamental para guiar meus estudos teóricos e práticos tendo como foco a obra de grandes mestres da pintura universal, que vem desde Ticiano, Rafael, Caravaggio, Rembrandt, Velázquez, Vermeer... Ser parte dessa visão teórica e plástica é um exercício diário de resistência ao canto da sereia que poderia nos impelir a prescindir do exercício muitas vezes extenuante da técnica, da busca do nosso próprio aperfeiçoamento, em prol da mesmice e do pragmatismo dos dias atuais.

Vale também dizer que um outro grupo do qual faço parte, em torno do Cineclube Baixa-Augusta, que reúne artistas, cineastas e intelectuais, tem enriquecido muito as minhas reflexões, após muitas discussões, estudos e conversas de alto nível, focadas no mundo cultural contemporâneo.

Assim como minha formação humanista não me deixa esquecer que meu desejo por um mundo justo e solidário é também parte do meu impulso criativo. Do fundo da minha alma parte uma vontade enorme de ser grande, e que sempre me leva a buscar a vida em grupo, a formação coletiva que me leve para mais perto de um futuro igual para todos.

Então este livro também pode ser visto como a minha forma pessoal de ver esse mundo que nos maravilha, que é o mundo da Arte, que aproxima os seres humanos uns dos outros no tempo e no espaço. Enquanto vamos estudando a história da arte, desde tempos remotíssimos, vamos percebendo que a realidade objetiva vai impulsionando ideias, movimentos, sistemas. E que o artista, imerso em seu mundo em mudança, vai criando sua própria narrativa, descrevendo sua visão pessoal das coisas e muitas vezes sendo parte de profundas mudanças de rumo. O historiador da arte alemão Heinrich Wölflin dá um exemplo: Rafael, enquanto pintava a Stanza d’Eliodoro em Roma, entre 1512 e 1514, estava rompendo, aos olhos do mundo, com o modo plástico de ver as coisas de forma linear, inaugurando a fase pictórica em que as massas de cores rompiam os espaços, criando mais relações entre as cores, figuras e efeitos do quadro. Simultaneamente, a ciência se desenvolvia, assim como o capitalismo, a filosofia, a literatura, o teatro, a música.


O livro também traz algumas entrevistas e textos com pintores da atualidade: Maurício Takiguthi, Rubens Ianelli, Tereza Costa Rêgo, Edíria Carneiro. Assim como faço uma visita a importantes artistas plásticos europeus, americanos – inclusive brasileiros – e orientais. Dos clássicos aos contemporâneos, o leitor tem em mãos aspectos biográficos, estéticos e mesmo filosóficos mobilizados por esses artistas para expressar seu tempo, ou negá-lo.

Em todos os capítulos deste livro, a arte, a história e a sociedade se encontram e se revezam em ênfases sutis e articuladas, sob as quais jazem miríades de possibilidades de trabalho, seja em sala de aula, no caso dos professores, ou fora dela, no caso do leitor comum.

Um pouco sobre mim: desde 1979 venho me dedicando ao aprendizado desse mundo do desenho e da pintura, mas não de forma linear. Altos e baixos passaram por mim, nesses últimos 30 anos. Passei por escolas de arte diversas, entre as quais a Sociedade Brasileira de Belas Artes no Rio de Janeiro. Hoje estudo pintura com Maurício Takiguthi. Sou também bacharel em Letras pela Universidade de São Paulo, e faço pesquisa em teoria e história da Arte. Fiz parte de um workshop de pintura no Atelier Vermeer de Paris. Visitei dezenas de museus em diversos países, como Espanha, Portugal, França, Holanda, Alemanha, Polônia, Brasil e Argentina, com finalidade de pesquisa. Desde 2009, mantenho este blog onde escrevo minhas ideias e estudos sobre artes plásticas, assim como colaboro com textos sobre o mesmo tema para diversas revistas e sites.

Para terminar, enquanto consciente de estar dando um passo arriscado, como é publicar um livro, lembro Clarice Lispector:

“Repito por pura alegria de viver:
a salvação é pelo risco,
sem o qual a vida não vale a pena!”




quarta-feira, 7 de março de 2012

Diego Rivera: Murais para o Museu de Arte Moderna

O levante, mural de Diego Rivera, em exposição pela segunda vez no MoMA
Pinturas murais de Diego Rivera retornam a Nova Iorque depois de 80 anos: desde o dia 13 de novembro de 2011 até 14 de maio de 2012, o Museu de Arte Moderna, o MoMA, apresenta a exposição do pintor e muralista mexicano com o tema "Murais para o Museu de Arte Moderna".


Diego Rivera
Em dezembro de 1931, esses murais foram expostos pela primeira vez. Naquela época, o MoMA montou uma grande exposição dessas obras de Diego Rivera, que atraiu um grande público durante as cinco semanas da mostra. O artista, que era comunista, defendia a resistência contra a conquista espanhola e a Revolução Mexicana  (1910-1917). Seus murais são obras de forte conteúdo social e inspirou inúmeros artistas ao redor do mundo, inclusive nos Estados Unidos.


Rivera já gozava de grande prestígio internacional e era a figura mais conhecida do muralismo mexicano, um movimento de arte pública que surgiu nos anos vinte, no final da Revolução mexicana. Mas os murais, gigantescos, não podiam ser transportados para uma exposição em Nova Iorque. Para resolver esse problema, o Museu levou Rivera àquela cidade seis semanas antes da inauguração da exposição. Lá, foi improvisado um ateliê numa das galerias que estava vazia. Rivera criou, então, cinco “murais portáteis” que comemoravam episódios da  história do México, e que ocuparam um lugar de destaque no Museu.


Depois da inauguração da mostra, Rivera fez mais três murais inspirados na cidade de Nova Iorque na época da Grande Depressão. Essa mostra que repete a de 1931,  revela o papel fundamental de Diego Rivera nos debates acerca da influência social e política da arte mural durante o período da crise econômica causada pelo crash de 1929.


Zapata, líder camponês
Daqueles cinco murais sobre a história mexicana se destacam "Zapata Líder Camponês", onde que o líder revolucionário com um cavalo branco guia os camponeses, enquanto um latifundiário jaz morto ao chão. Um outro é o "Guerreiro Índio", um asteca vestido de jaguar crava uma faca no pescoço de um conquistador espanhol.


E das pinturas sobre Nova Iorque durante a crise de 1929, o quadro "Eletricidade" (abaixo) representa trabalhadores dentro de uma usina, em pleno esforço de manter a cidade funcionando. "Furadeira Pneumática" e "Fundos Congelados" mostram o processo de industrialização na América.


A exposição inclui desenhos, esboços e material de arquivos relacionados com a passagem de Rivera em Nova York entre 1931 e 1932. A mostra fica aberta à visitação pública até o dia 14 de maio próximo.


O pintor Diego Rivera


Diego Rivera nasceu em 8 de dezembro de 1886, em Guanajuato, México. Passou para a história da pintura por executar obras de alto conteúdo social em edificios públicos, os famosos murais mexicanos. Ele criou esses murais em diversos pontos do centro histórico da Cidade do México e em outras ciudades mexicanas, como Cuernavaca e Acapulco. Mas também fez murais em São Francisco na Califórnia, em Detroit e Nova Iorque, nos Estados Unidos.


Rivera e sua esposa, a pintora Frida Kahlo, 1932
Em sua certidão de batismo ele foi registrado com o nome enorme de Diego María de la Concepción Juan Nepomuceno Estanislao de la Rivera y Barrientos Acosta y Rodríguez.


Com apenas 10 anos de idade, começou a ter aulas de desenho na Academia de São Carlos, na capital mexicana. Em 1905, recebeu uma bolsa para estudar na Espanha, onde fez estudos sobre a obra de Francisco Goya, El Greco e Pieter Brueghel. Passou a frequentar o atelier do pintor espanhol Eduardo Chicharro, em Madri.


Entre 1908 e 1916 ele residiu em muitos lugares: México, Equador, Bolívia, Argentina, Espanha e França. Em Paris, teve contato com intelectuais e artistas em Montparnasse, tradicional bairro de artistas parisiense, entre eles Alfonso Reyes Ochoa e Pablo Picasso. Com esses contatos, ele se aproximou das novas correntes estéticas europeias, como o Cubismo. Mas se deixou influenciar também pela obra de Paul Cézanne, pintando telas com cores vivas, bem diferente de outros pintores mexicanos que também se tornaram muralistas.


Em 1920, com o apoio do embaixador mexicano na França, Alberto J. Pani, Diego Rivera viajou para a Itália, onde fez estudos da arte do Renascimento. De volta a seu país, em seguida, juntou-se aos muralistas mexicanos José Clemente Orozco, David Alfaro Siqueiros e Rufino Tamayo, assim como o artista francês Jean Charlot.
Eletricidade, em exposição no MoMA, inspirado na cidade de Nova Iorque na crise de 1929
Em janeiro de 1922 começou a pintar seu primeiro mural, no Anfiteatro Simon Bolivar da Escola Preparatória Nacional. Sua pintura começa a se converter num fator importante de influência do Movimento Muralista Mexicano e Latino-Americano. No mesmo ano, casou-se com Guadalupe Marin, também conhecida como "Gata Marín". Ela era de origem indígena mexicana, de pele morena, cabelos negros e fartos e os olhos verdes. Com ela, Rivera teve duas filhas.


Em setembro de 1922 começou a pintar o afresco da Secretaria de Educação Pública e foi co-fundador da União de Pintores, Escultores e Artistas Gráficos Revolucionários. Ainda em 1922 se filia ao Partido Comunista Mexicano, cujas ideias marcariam grande parte da vida e da obra de Diego Rivera. Vê-se a influência de suas ideias comunistas em sua pintura a partir de então. Passou em seguida a pintar os murais do Palácio Cortés em Cuernavaca e na Escola Nacional de Agricultura, de Chapingo. No Palácio Nacional da Cidade do México pintou, de 1929 a 1935, uma série de murais onde fazia uma narrativa da história mexicana desde os tempos dos aztecas até o século XX.


Fundos congelados, Nova Iorque no
tempo da crise de 1929, retratada por Rivera
Em 1927, Rivera foi convidado para os festejos dos 10 anos da Revolução de Outubro da União Soviética. Em 1929, casou-se pela terceira vez, com a pintora Frida Kahlo. Em 1930 foi convidado a ir aos Estados Unidos para a realização de diversas obras que tinham sido encomendadas. Sua temática comunista causou graves desentendimentos com as autoridades norte-americanas, assim como com a imprensa daquele país. Nos EUA, ele pintou na Escola de Arte de São Francisco e no Instituto de Artes de Detroit. Até que em 1933, o industrial John D. Dockefeller Jr o contratou para pintar um mural na parede de entrada do edificio RCA em Nova Iorque. Esse edificio fazia parte de um conjunto de prédios denominados Rockefeller Center. Ficava localizado na Quinta Avenida, um dos lugares mais famosos e emblemáticos do capitalismo norte-americano.


Mas Diego Rivera, mesmo assim, desenhou o mural intitulado “O homem controlador do universo”, onde aparecia um retrato de Vladimir Lenin, líder da revolução comunista da Rússia. Mas quando Rivera estava para terminar seu trabalho, a reação de críticos da imprensa gerou uma tal controvérsia que levou o próprio Rockefeller a encarar aquele mural como um insulto pessoal. Mandou cobrir o mural, para depois mandar destruí-lo.


Mas Rivera, de volta ao México em 1934, pintou o mesmo mural no terceiro piso do Palácio de Belas Artes do México.


Esboço para o mural "Liberação do peão"
Em 1946, pintou uma de suas obras mais importantes, “Sonho de uma tarde dominical na Alameda Central”, no recém construído Hotel del Prado da Cidade do México. Passa a integrar a Comissão de Pintura Mural do Instituto Nacional de Belas Artes, junto com os pintores José Clemente Orozco e David Alfaro Siqueiros.


Em 1950 ilustrou o livro “Canto Geral” do poeta chileno Pablo Neruda e ganhou o Prêmio Nacional de Ciências e Artes do México.


Nos anos seguintes, trabalhou sem cessar, em diversos murais, até sua morte, em 24 de novembro de 1957, em Santo Ângelo, Cidade do México. Morreu em sua casa, que era ao mesmo tempo seu atelier. Lá atualmente funciona o Museu Casa-Estúdio Diego Rivera e Frida Kahlo.
Liberação do peão

sábado, 3 de março de 2012

Uma mulher em três nomes



Estudo, Tereza Costa Rêgo, acrílico sobre madeira, 2,2 x 1,6 m


Tereza Costa Rêgo, artista plástica pernambucana com riquíssima experiência nas artes e na vida política, pertence a uma geração de pintores brasileiros que marcam nossa história da arte com as cores da nossa cultura. 


Neste primeiro de março, passei três horas agradabilíssimas ao lado de Tereza, conversando sobre pintura e sobre a vida. Dona de uma energia contagiante, o tempo parece não ter tocado no rosto lindo dessa senhora de 82 anos de idade. Que me confessou ser três em uma: Terezinha, Joana, Tereza.


Tereza, em seu atelier
O estado de Pernambuco tem gerado artistas, ao longo da história, que vêm marcando a arte brasileira. Cícero Dias e Vicente do Rego Monteiro, por exemplo, foram dois pintores pernambucanos que tiveram uma ativa participação na Semana de Arte Moderna de São Paulo, em 1922 e que ajudaram a levar os ventos modernistas das artes para o Nordeste brasileiro.


Tereza Costa Rêgo, que era filha de uma tradicional família da aristocracia rural pernambucana, cresceu em meio ao mundo do glamour modernista do Recife, que incluía artistas como Teles Júnior, Francisco Brennand, os irmãos de Vicente do Rego Monteiro, Joaquim e Fedra, Lula Cardoso Ayres, Reynaldo Fonseca, Hélio Feijó, Wellington Virgulino e Abelardo da Hora. Todos eles seus amigos. Todos romperam com os padrões acadêmicos e adotaram estéticas pessoais que tinham mais a ver com a identidade cultural nordestina, com o imaginário pernambucano, com a luz e as cores do Brasil. Mesmo Reynaldo Fonseca, que segue os mestres holandeses como Van Eyck, guarda a sua veia brasileira. Mesmo Tereza, que se diz influenciada pela arte do pintor espanhol Francisco Goya, escancara uma alma pernambucana.


No texto escrito para o livro “Tereza Costa Rêgo”, publicado em 2009 em Recife, o pintor Raul Córdula explica que “Recife é uma cidade onde a prática da pintura remonta à chegada dos artistas europeus trazidos por Maurício de Nassau, no século XVII, durante a invasão holandesa, e que ainda influenciam nos dias atuais, a modalidade da arte pictórica em Pernambuco.”


Os marinheiros pedem e vão, acrílico
sobre madeira, 1,62 x 2,2 m
Nas décadas de 40 e 50, os artistas pernambucanos renovaram as artes plásticas no nordeste, dando-se mais liberdade expressiva. Havia diversos grupos em atividade naquele Estado, como o Atelier Coletivo do Recife, a Sociedade de Arte Moderna, o Movimento de Cultura Popular e um grupo de artistas ligados ao Movimento da Ribeira, que incluía Adão Pinheiro, José Barbosa, Maria Carmen, Anchises Azevedo, entre outros. A cidade eleita para abrigar esses novos movimentos nas artes plásticas pernambucanas, desde aquela época, foi e continua sendo Olinda, a cidade que acolhe hoje uma grande concentração de ateliês de artistas.


Mas na década de 1960, a vida de Terezinha (seu nome de batismo) deu uma guinada. A menina rica deixou para trás a vida nos salões da elite pernambucana, para acompanhar o grande amor da sua vida, o também pernambucano Diógenes de Arruda Câmara, dirigente do Partido Comunista do Brasil. Ela mesma resume a decisão que tomou nesse período:


“Fui educada para ser a boneca que enfeita o piano da sala de visitas. Acontece que um dia eu saltei do piano e fui embora!”


Veio com Diógenes Arruda inicialmente para São Paulo, onde ela se formou em História pela USP. Mas a vida clandestina e as perseguições da Ditadura Militar, fizeram com que o casal fosse embora do Brasil. Diógenes tinha sido preso e torturado em 1968. Após sua soltura, eles foram para o Chile, em 1972, mas acabaram tendo que fugir de Santiago também, após o golpe militar de Augusto Pinochet.


Verão, acrílica sobre madeira, 2,2 x 0,8 m, 2003
Teresa e Diógenes viveram muitos anos exilados entre Paris e Lisboa, passando também por Tirana (Albânia) e Pequim (China). No exílio, ela foi obrigada a uma vida de artista também clandestina: nesses anos assinava suas pinturas com o pseudônimo de Joana (nome de uma de suas netas, a jornalista Joana Rozowykwiat, do Portal Vermelho). Mas não podia participar de exposições de arte. Mesmo na Europa, os comunistas estavam sempre sob observação de espiões internacionais, e lá também precisavam usar nomes frios. Por isso, Terezinha ficou sendo Joana.


Em 1979, a luta do povo brasileiro pela Anistia trouxe de volta os exilados políticos, como João Amazonas e Edíria Carneiro (também artista plástica), e Diógenes Arruda e Tereza Costa Rêgo. Eles voltaram, em outubro de 1979, para seu país, sua família, seus amigos, seu povo. Muitas homenagens foram feitas aos exilados que voltavam, por parte dos que aqui ficaram. Havia tanta alegria em estar de volta para casa, em ver de volta amigos como João Amazonas, que o coração de Diógenes Arruda não resistiu: teve um enfarte, logo depois. Diz Raul Córdula, no livro sobre Tereza: “Ele avistou a terra prometida, mas não pôde ocupá-la”.


Para ela, foi uma perda incomensurável, que ela expressou no quadro “A partida”. Nele, uma mulher em dor profunda, se debruça sobre o corpo do marido morto. Mais uma vez, ela teve que se refazer, retomar seu caminho sob outros parâmetros, desta vez sem seu grande companheiro.


A partida, acrílica e colagem sobre madeira, 2,20 x 0,8 m, 1981
Joana se transformou em Tereza.


Voltou à sua terra com o coração partido, mas cheio das experiências que viveu mundo a fora, onde ajudou a escrever a história de um mundo em mudança e que apontava para a justiça social e a liberdade. Se estabeleceu em Olinda, onde organizou sua casa e seu atelier, onde mora até hoje. De volta ao trabalho, começou a reconstruir sua carreira de artista plástica, se engajando novamente entre os artistas pernambucanos, participando de exposições, eventos, atividades culturais. Hoje ela é a diretora do Museu do Mamulengo, que pertence à Prefeitura de Olinda.


Em 1981 fez sua primeira exposição, no Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco. Hoje esse museu separa uma sala para exposições temporárias e tem como título “Galeria Tereza Costa Rêgo”.


Em 2008 recebeu o título de Cidadã Olindense, da Câmara Municipal de Olinda, quando declarou sobre si mesma: “Pode não parecer, queridos companheiros, mas eu sou uma mulher muito velha... uma mulher que viveu muitas vidas... uma mulher Terezinha... uma mulher Joana e uma mulher Tereza”.


Interiores, acrílica sobre eucatex,
1,0 x 1,5 m, 1999
Em 9 de novembro de 2011, no Teatro Santa Isabel, em Recife, Tereza Costa Rêgo recebeu o prêmio Honra do Mérito Cultural na categoria artista plástica, das mãos da ministra da Cultura Ana de Hollanda, do governador de Pernambuco, Eduardo Campos e do prefeito de Recife, João da Costa. Esse prêmio é a maior honraria do governo federal concedida aos artistas brasileiros e que, em 2011, homenageou a escritora e jornalista Patrícia Galvão – a Pagu.


A presidenta Dilma Rousseff, que de última hora se viu impedida de entregar o prêmio pessoalmente, enviou mensagem, lida pela atriz Denise Fraga, na qual destacou a importância da homenagem a Pagu, como um reconhecimento da inteligência e bravura da mulher brasileira e ressaltou que os agraciados com o prêmio de 2011 são “exemplos da vibrante e apaixonante mistura de sotaques e saberes que compõe o mosaico da cultura brasileira”.


Tereza Costa Rêgo estava entre outros homenageados, ao lado de Glênio Bianchetti, Adriana Varejão e Vik Muniz (artistas plásticos), além de Luiz Melodia, Jair Rodrigues, Hector Babenco, Beth Carvalho, Xico Dias, Antônio Nóbrega, Antônio Pitanga, o dramaturgo João das Neves, os escritores Afonso Borges e Lygia Bojunga, a atriz Ítala Nandi, o artesão Espedito Seleiro, o pedreiro Evandro dos Santos, e a antropóloga Claudett Ribeiro.


Tereza comentou, em nossa conversa: “Foi uma pena a Dilma não ter ido. Eu ia perguntar a ela se se lembrava de Diógenes Arruda, pois eles foram contemporâneos na luta contra a ditadura...”


Mas logo ela muda de assunto e diz que está pintando um grande painel de dez metros de largura por dois e meio de altura, onde conta a história das Mulheres de Tejucupapo. E me explica, enquanto me mostrava as fotos de seu trabalho: em 1646, as mulheres de um povoado chamado Tejucupapo tiveram que enfrentar sozinhas o ataque de 600 holandeses que tinham ido até aquele lugar para se apossar de produtos como milho e mandioca, pois precisavam desesperadamente diminuir a escassez de comida daqueles tempos, quando a fome assolava a cidade de Recife. Sem os maridos, que estavam nas guerras contra os invasores, elas tiveram que reagir. Puseram água pra ferver em seus tachos e panelas de barro, jogaram pimenta dentro e com esse molho partiram para cima dos soldados holandeses, acertando seus olhos com a mistura. Os desesperados homens eram depois atacados com qualquer coisa que servisse de arma e o resultado foi que mais de 300 cadáveres ficaram espalhados pelo vilarejo. Depois da batalha, no dia 24 de abril de 1646 as valentes mulheres pernambucanas impediram que invasores holandeses atacassem seus paióis de milho e mandioca e passaram para a história como heroínas e guerreiras.


É essa alma pernambucanamente feminina que encontramos em tantos quadros de Tereza! Eles refletem o imaginário popular, os símbolos, as cores, a alma do nosso povo. Com algum tratamento que considero um tanto quanto Barroco... O escritor Ariano Suassuna identificou também essa característica da pintura de Tereza quando disse em 1996: “O painel de Tereza Costa Rêgo, inclusive por uma forma central meio circular e de palco, fazia com que seu quadro entrasse naquela linguagem barroca e brasileira(...)”.
Na pintura dela podemos encontrar alguns desses elementos tão ricos da arte barroca, mas que ela dá uma leitura brasileira: contrastes fortes, dramaticidade, exuberância, sensualidade de curvas, um gosto pela espiritualidade popular, pelo realismo e algum toque de opulência, como podemos encontrar até mesmo nas pinturas da série “Bordel”, onde as prostitutas de Olinda e Recife aparecem rica e lindamente pintadas.


A imagem feminina é quase constante na pintura de Tereza. São mulheres em geral nuas, sem nenhuma preocupação pudica em ocultar suas carnes, seu sexo, até seu desejo. Muitas delas estão deitadas de costas, muitas delas transmitindo uma sensação de extrema tranqüilidade, como se elas ali estivessem descansando após momentos de prazer com o ser amado...


Mas há também os seres sagrados, as procissões, as igrejas, os santos e as casas e ruas de Olinda e Recife. E os animais. Ela mesmo reconhece: “sempre tem bichos nos meus quadros”.


Há gatos, cisnes, pombas brancas, tatus, rinoceronte, bois, bodes, carneiros, serpentes. São incrivelmente expressivos os painéis “O ovo da serpente ou Problemas da Terra” da série “Sete Luas de Sangue” e o “Apocalipse”. Este último é um gigantesco painel de 12 metros de largura por um e meio de altura, onde uma cobra gigante parece ter engolido um homem e uma mulher, e toda uma saga histórica acontece nas entranhas dessa serpente. Faz lembrar as histórias de cordel que povoa nosso imaginário pernambucano... Faz lembrar minhas noites de infância em Caruaru, com meu pai recitando cordéis que contavam estórias de princesas encantadas, de pavões misteriosos, de serpentes malvadas que engoliam pessoas...
Boi voador, acrílica sobre madeira, 4,4 x 1,6m, 1992
E por isso Tereza me lembra El Greco (1541-1614), o pintor espanhol de estilo também dramático e expressivo, que causou estranhamento entre seus contemporâneos, lá pelos idos de 1580.  Ele já pintava, naquela época, figuras tortuosas, alongadas, com uma coloração forte, dramática, usando figuras fantasmagóricas, que povoavam o imaginário desde o período medieval.


Mas isso é meu gosto, porque Tereza gosta mesmo é do pintor espanhol Francisco Goya, que também pintava figuras e seres que habitam do mundo real aos mundos imaginários da alma humana.


Criança, acrílica sobre madeira, 1,10 x 1m, 2009
As cenas dos bordéis de Recife e Olinda retratadas por ela, nos remetem ao pintor francês Toulouse-Lautrec, que também pintou os bordeis de Montmartre em Paris. Nessas conhecidas “Casas de Tolerância” onde os homens vão buscar o prazer perdido nos braços de mulheres sensuais, habitam seres de profunda sensibilidade, beleza e até certa ingenuidade. É o que podemos ver através das pinturas de Tereza, dessa série “Bordel”. Lá estão mulheres nuas, carnudas. Em cenas de sexo, ou simplesmente apreciadas por homens vestidos. Elas são belas e estão, em várias telas, em estado de reflexão, ou mesmo de espera... Ou descansam, simplesmente, após o prazer proporcionado a seus clientes... São lindas, as angélicas prostitutas de Tereza...


Ela trabalha em seu próprio atelier, em Olinda, num espaço dentro de sua própria casa. Ela me disse que gosta de trabalhar sem ninguém por perto, pois o momento da pintura para ela é um tempo de estar à vontade com ela mesma, completamente absorta pela sua arte. Alternando sua rotina diária de diretora do Museu do Mamulengo de Olinda com sua pintura, Tereza gosta de pintar em grandes superfícies. Usa tinta acrílica, em geral sobre madeira. “Eu nunca uso a cor azul”, me confessou, mostrando-me alguns tubos de tinta onde a predominância dos tons quentes confirmavam isso. Eu lhe perguntei o motivo. Ela respondeu simplesmente com um sorriso: “não sei...”


E me contou da emoção imensa que foi ver um de seus quadros reproduzido num painel gigantesco no carnaval de 2011, quando foi a homenageada de Pernambuco. O governador Eduardo Campos e sua esposa recepcionaram a homenageada do ano dos foliões pernambucanos, caracterizados como personagens de um quadro de Tereza. Ela completou: “Quando eu vi tudo aquilo, todo o meu trabalho de artista ali vivo à minha frente, e sendo homenageada pelo meu povo, a emoção foi enorme!


Para completar, nessa rápida passagem por São Paulo, Tereza recebeu um convite da artista plástica paulistana Lucia Py para expor seu painel “Mulheres de Tejucupapo”, como convidada do Núcleo de Arte Contemporânea Latino-Americana. Cabe a nós ficar aguardando, então, que a arte de Tereza possa ser vista de perto por nós moradores desta desvairada Pauliceia...


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Um resumo da carreira artística da Tereza Costa Rêgo
Ela fez as seguintes exposições Individuais: 
- Pintura, Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco, Olinda, 1981; Pintura, Galeria Carmita Brito, Recife, 1985; Pintura e Lançamento de Álbum de Gravuras, Palácio dos Governadores, Olinda, 1984; Pintura, Atelier do Artista, Olinda, 1985; "Olinda Gravuras", Vila do Conde, Portugal, 1985; Pintura e Álbum de Gravura, Oficina Guaianases de Gravura, Olinda, 1988; Pintura, Galeria Officina, Recife, 1988; Pintura, Atelier do Artista, 1990; Pintura, Recife-Olinda/Olinda-Recife, Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco, Olinda, 1992; Gravura, Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco, Olinda, 1992; Atelier do Artista, 40 Anos de Arte, Olinda, 1997; Museu de Arte Moderna, 7 Luas de Sangue, Recife, 2000; Espaço Cultural Correios, 7 Luas de Sangue, Rio de Janeiro, 2001; Museu de Arte P P, 7 luas de Sangue, São Paulo, 2002.


Leda e o cisne, acrílica sobre madeira, 1 x ,7 m, 1978
Mas também participou das seguintes exposições coletivas:
Coletiva de Artistas Brasileiros, Galeria Vila Rica, Recife, 1980; Salão de Artes Plásticas de Pernambuco, Museu do Estado de Pernambuco, Recife, 1981; Coletiva de Artistas Brasileiros, Galeria Vila Rica, Recife, 1981; Pintura e Poesia - Geração 65, Oficina 154 - Edições Piratas, Olinda, 1981; 1º Salão de Arte Erótica de Pernambuco, Vivencial Diversiones, Olinda, 1982; Coletiva de Artistas Brasileiros, Avivarte, Olinda, 1983; Exposição Mulher Dez Artistas Pernambucanas, Shopping Recife, 1984; As Novas Imagens do Nordeste Rio Design Center, Rio de Janeiro, 1984; Exposição Comemorativa dos 450 anos de Olinda, Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco, Olinda, 1985; Artistas Olindenses, Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco, Olinda, 1985; Mostra de Arte do Recife, Teatro Santa Isabel, Recife, 1985; Coletiva Guaianases, Oficina Guaianases de Gravura, Olinda, 1985, 1986, 1987 e 1988; Galeria Oficina, Recife, 1986, 1987 e 1988; Pintores Brasileiros, Portugal, 1987; Cor de Pernambuco, Ranulpho Galeria de Arte, São Paulo, 1989; O Gato Pintado, Ranulpho Galeria de Arte, São Paulo, 1989; O Gato na Pintura, Ranulpho Galeria de Arte, São Paulo, 1989; O Circo, Galeria Ranulpho, Recife, 1990; Fernando de Noronha, Eco 92, 3 Visões MAC; Viagem ao ano 2000, Passaporte Para O Futuro, São Paulo, 1994; A Batalha dos Guararapes, Museu do Estado, 1994; Arte Brasileira, Estúdio A, São Paulo, 1997


Das exposições coletiva internacionais, Tereza participou:
Exposição “Seis Pintores de Olinda”, Vila do Conde, Portugal, 1990; Cumplicidades, Lisboa, 1995; Olhar Sobre Os Trópicos, Lisboa, 1995; Arte Brasileira, UNESCO, Paris, 1995; Artistas Pernambucanos, Cuba, Santiago de Cuba, 1997; Artistas Pernambucanos, Portugal, 2003.
Mulher nua de costas, da série Bordel, acrílica sobre tela, 2,20 x 0,8 m, 2009