terça-feira, 22 de novembro de 2011

O olhar do artista


ILYA REPIN: Máximo Gorki lendo em «Los Penates» seu drama Os Filhos do Sol. Carvão e sanguínea sobre papel, 1905
David Leffel, artista plástico realista norte-americano nascido em 1931, é professor de desenho e pintura há muitos anos. Nascido em Nova Iorque, atualmente ele vive e trabalha no Novo México, região sudoeste dos EUA. Sua maneira de pintar é fortemente influenciada pela pintura do holandês Rembrandt. “Quando vi as pinturas de Rembrandt pela primeira vez – diz ele – no Metropolitan Museum of Art, elas me impressionaram imediatamente. Elas pareciam ter uma lógica qualquer que eu não via em nenhum outro artista”.


David Leffel, autorretrato em óleo
Intrigado com isso, ele mergulha no estudo da luz e seus efeitos sobre a realidade observada. Além de pintar, Leffel passou a ensinar e já publicou alguns livros sobre técnica de desenho e pintura. Terminei de ler, esta semana, um desses livros – o “Oil Painting Secrets from a master” -, que vem orientando nossos estudos no Atelier de Maurício Takiguthi, do qual participo. Alguns conceitos presentes nesse livro me chamaram a atenção, e faço um breve resumo deles aqui.

David Leffel segue os artistas que focaram sua pintura, e suas pesquisas, na luz. A luz, que guia o olhar do espectador através de uma pintura, encaminha o olhar até aquele ponto – ou aqueles pontos, no caso de outros artistas – onde o artista deu maior ênfase.  Fisiologicamente, o espectador sempre irá olhar para as áreas iluminadas, pois o centro de interesse é dado pela luz. Mas, às vezes, observa Takiguthi, é exatamente uma pincelada mais densa que interrompe o fluxo da luz que também pode segurar o olhar do observador. Leffel insiste em diversos momentos na ideia de que o pintor não pinta “coisas”, pinta a luz nas coisas. Ele não vê seu modelo como um conjunto de detalhes separados, mas o vê em termos de planos, de massa, de dimensão. Não pensa em desenho em termos lineares, mas em termos de movimentos de massa, porque pintar é semelhante a esculpir.


Joaquín Sorolla: "O banho do cavalo"
O pintor realista, observando seu modelo, não pensa em características especificas como “boca”, “nariz”, ou “olhos”; mas vê massas movendo-se para dentro e para fora, dando profundidade a uma imagem. É exatamente esse jogo das massas, no movimento entre a luz e a sombra, que vai dando materialidade ao modelo. Observando e avaliando a topografia corporal, o pintor usa os valores e as cores que simulam essa topografia. Mesmo quando pinta a sombra, ele pensa em temos de profundidade e de transparência.

Por isso, o segredo principal para se realizar uma grande pintura, segundo David Leffel, está menos no domínio da técnica e muito mais no modo como o pintor VÊ o mundo, como ele pensa o mundo. A realidade é a referência permanente do artista. Ele não pinta o que não está lá, ou o que ele não vê. Leffel diz que há uma propensão humana para colorir a realidade e muitos pintores utilizam cores idealizadas, muitas vezes inexistentes nas coisas. Tudo bem, é uma forma de pintar, como fizeram os impressionistas, por exemplo. Mas na pintura Realista, a grande diferença é que o artista pinta apenas aquilo que para ele é significativo da sua observação do mundo. Através do seu olhar, ele mostra como “pensa” o mundo, qual é sua atitude, sua capacidade de ver e de recortar no que vê aquilo que é necessário para que ele realize seu trabalho.

Por isso, “a parte mais fácil” no aprendizado da pintura é a parte técnica. A parte mais difícil é exatamente a formação dessa atitude nova frente ao mundo, um olhar sempre renovado para a realidade, tentando apreender cada momento, renunciando a qualquer tipo de projeção subjetiva sobre o que se vê. Não projetar no mundo o que se deseja, mas apreender do real aquilo que ele está mostrando e que a cada momento é novo.

Pensamento artístico

O que vemos daquilo que olhamos é limitado, pois tocamos apenas uma parte ínfima do Real a cada momento. Leffel observa que quando nosso olhar se foca num determinado ponto, todo o resto se ofusca. Um exemplo dado por ele: podemos ver uma sujeira no pára-brisa do carro, assim como uma pessoa na calçada a cem metros. Mas não conseguimos focalizar ambas as coisas ao mesmo tempo, pois nosso olhar é seletivo. Assim acontece com a pintura. Quando o pintor apenas copia o que vê, detalhe por detalhe, mesmo que isso demonstre um bom desempenho técnico, como é o caso dos pintores hiperrealistas, sua pintura sempre vai estar em desacordo com a observação do Real. Para o pintor realista, é preciso o olhar que vai além do simples modelo, um olhar que compreende o que está lá e que se deve transferir visualmente para a tela. Esse artista vê seletivamente o mundo, vê com entendimento. O modelo é apenas uma referência.

John Singer Sargent, autorretrato
Por isso, há um aspecto absolutamente importante que diferencia um artista talentoso de outros que apenas pintam: ele possui um conceito, ou seja, ele sabe o que está pintando, o que quer transmitir e traduzir daquela realidade específica. Ele pode ver a característica predominante que distingue cada objeto do mundo e que é importante pintar, pois ele guarda todo o tempo esse conceito em sua mente, um conceito que serve como guia tanto para sua observação do mundo, quanto para a forma como vai pintar sua tela. O conceito fornece ao artista os instrumentos para resolver os problemas que surgem: luz, ar, espaço, dimensão, forma, cor, valor, borda. Mas também mostra como a pintura irá ser “lida” pelo espectador, como ela será “vista”, “sentida”. Além disso, acrescenta Leffel: “Toda grande pintura é conceitualmente simples”.

O conceito, então, é a essência. Isso facilita o processo criativo, pois trabalhando com um conceito, o pintor irá manter a técnica sob controle: saberá o que enfatizar e o que minimizar; terá um plano de ação, um senso do que está fazendo, qual é seu objetivo. Copiar, portanto, não tem nada a ver com isso.

Dentro disso, Leffel segue orientando aquele que deseja ser um pintor realista, dando inúmeras dicas, do tipo: para ser digno de interesse, o ponto focal precisa ter luz suficiente, cor, textura e substância para capturar a atenção; lembrar sempre que a pintura é um todo e por isso não é bom se envolver muito cedo em resolver detalhes menores; é preciso ser seletivo; não assumir que a observação inicial está correta. É preciso estudar a matéria.

David Leffel acrescenta: por ter um conceito sobre o mundo, a pintura Realista, na verdade, é que é a pintura abstrata. O pintor usa configurações na pintura como: pinceladas diversas, estudos, rabiscos, cores, valores, que têm o significado de “pele”, “nariz”, “orelha”, “olho”, “maçã”, “grama”, “ar”, “espaço”… e por aí vai. Por outro lado, o chamado pintor abstrato é, na verdade, concreto. Manchas são realmente manchas! Atira tinta na tela, ou derrama, e é apenas isso: tudo começa e termina ali na tela, com manchas concretas, cores concretas espalhadas.


Ele acrescenta: quando se está pintando objetos, isto funciona. Mas quando se pinta objetos como resultado de um pensamento, isto é criatividade! Mas isso nada tem a ver com pintar “objetos abstratos” e é preciso um pouco de explicação. Na verdade, o pintor realista vê o modelo ali à sua frente, estuda, observa a incidência de luz nele, as sombras, cor local, a atmosfera em torno do modelo, ou seja, observa toda uma cadeia de relações muito grande que incide sobre seu modelo. Mas ele vê com um olhar diferente do olhar comum: ele vê através de seus conceitos sobre luz, cor, dimensão, movimento, espaço, tempo, causalidade… Mas o modelo ali à sua frente sempre é a referência principal e a pintura vai acontecendo nessa relação dialética entre o real e o olhar do artista que traduz em sua tela aquilo que vê.

Por isso, Leffel enfatiza a importância de aprender a pensar visualmente. Em outras palavras, o pensamento do pintor realista, enquanto pinta, não é do tipo “eu vou pintar um olho agora”, mas, sim, “eu vou colocar a luz contra a sombra.” Se a pessoa olha para o objeto dessa forma, irá começar a pensar assim, a pensar em termos de relatividade, “esta luz contra esta luz”, esta sombra em contraponto a esta luz… Pintar imagens significa resolver tecnicamente problemas estéticos. Não é um mistério. Não há nenhum aspecto da pintura que não possa ser discutido, ou, em termos pragmáticos, nada há nada que todo mundo não possa compreender. As grandes pinturas dos mestres, observa Leffel, possuem a característica da simplicidade e da universalidade de compreensão. Elas são evidentes, em vez de esotéricas. Elas falam com todos.


Burton Silverman, autorretrato
Na verdade, o que se precisa aprender para pintar, segundo Leffel, é muito pouco: cor, valor, bordas, quantidade de tinta, pinceladas… Isto é o essencial, não há muito mais que isso. O fato de um pintor acumular muita experiência técnica não garante que ele seja um mestre. Sua pintura é a medida do seu ponto de vista. É como na música. Um excelente instrumentista, que domina absolutamente a técnica do seu instrumento será um virtuose técnico, mas isso não garante que ele seja um grande intérprete. Porque há muito mais do que técnica quando se trata de Arte. Na pintura, o artista faz uma seleção entre os inúmeros pedaços de informação que bombardeiam as pupilas de seus olhos e faz uma seleção. É como um escritor que tem à sua disposição milhões de palavras, mas ele escolhe somente aquelas mais apropriadas ao que ele deseja transmitir. Uma pintura traduz a visão de mundo do artista. Ela fala do que ele vê do mundo.

Num mundo, onde a realidade é rica e se renova a cada momento. Por exemplo, diz ele, você pode pintar cinqüenta vezes a figura de uma laranja e a cada vez pode ser criativo, se a cada momento você a pode ver numa nova forma, uma laranja num contexto especifico de um momento dado. Os melhores pintores foram aqueles que tinham uma excelente compreensão do significado das coisas ao seu redor. Eles não foram simples copistas. Um bom pintor entende o significado e a importância do que ele vê.

Mas não existe nenhum “segredo” por trás disso, a não ser que o que faz um grande artista é sua capacidade de se debruçar sobre seu trabalho, de estudar, de pesquisar e correr todos os riscos. A admiração que os grandes artistas despertam até hoje, vem dessa capacidade que eles possuíam em “ver” realmente o mundo, em todos os sentidos. Mas grandes pintores foram apenas seres humanos que foram capazes de expressar em suas telas aquilo que viam do mundo, enquanto tentavam resolver os problemas técnicos que surgiam, para fazer com que sua pintura falasse o mais próximo possível a todos, inclusive aos espectadores de hoje. E todos eles, sem exceção, foram incansáveis estudiosos de sua arte e de seu mundo.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Cecilia Beaux



Pintura de 1887
Nesta semana tomei, como um exercício de pintura com pastel, uma obra da artista norte-americana do século XIX, Cecilia Beaux (esta imagem ao lado). Enquanto fazia o estudo no atelier, um amigo me perguntou se o fato de quase não termos mulheres pintoras de destaque no mundo, não me incomodava. Incomoda, sim, pela injusta discriminação sofrida pela mulher durante séculos, através da história. Pouco se sabe sobre grandes pintoras e artistas. Sabemos de holandesas, alemãs, italianas, francesas, norte-americanas, mexicanas, portuguesas, brasileiras. Mas sempre nas sombras dos mestres do sexo masculino. Felizmente desde o começo do século XX, essa situação começa a trazer alguma mudança.
Fui ver quem exatamente era esta quase desconhecida artista, apesar do alto nível da sua obra, muito parecida com a pintura de John Singer Sargent, contemporâneo dela. Fui saber um pouco de sua história.

Cecilia Beaux
Cecília Beaux  nasceu em 1º de maio de 1855, na Filadélfia, EUA. Era a filha mais nova de um comerciante de seda de origem francesa, Jean Adolphe Beaux.  Sua mãe, Cecilia Kent Leavitt, morreu 12 dias após dar à luz a Cecilia, aos 33 anos de idade. Ela e sua irmã foram criadas pela avó materna e tios, porque seu pai, incapaz de suportar a tristeza da perda da mulher, voltou para a França. Durante 16 anos, ele fez apenas uma visita às filhas em Filadélfia.
As irmãs foram educadas pela avó e pela tia Emily e seu marido, William Foster Biddle. Cecilia dizia que depois de sua avó, seu tio foi a influência mais forte e mais benéfica que ela poderia ter tido. Dele recebeu inclusive apoio financeiro, especialmente nos dias difíceis das Guerras de Secessão.
Em sua adolescência, na companhia do tio Willie, ela pode ir, pela primeira vez, a uma exposição de arte importante, na Academia de Belas Artes da Pensilvânia. Ela já desenhava, como ela descreveu, de uma forma realista e um “pouco perfeccionista”. Na escola, ela estudava Francês e História Natural. Mas não tinha recursos para pagar a taxa extra para as aulas de arte. Só aos 16 anos, começou a ter aulas no atelier de um artista. Em seguida, estudou durante dois anos com o pintor Francis Adolf Van der Wielen, que ensinava perspectiva e desenho de anatomia. Mas a ela, por ser mulher, não era permitido o estudo da anatomia humana, nem podia assistir às aulas de desenho com modelos vivos (modelos que muitas vezes eram prostitutas).

Cabeça de mulher
Aos 18 anos, Cecilia Beaux foi nomeada professora substituta de desenho na Escola Miss Sanford, substituindo outro professor. Ela também deu aulas particulares de arte, enquanto produzia arte decorativa e retratos de pequeno porte. Seus próprios estudos foram, em sua maioria, feitos por ela mesma, sozinha. Foi assim que ela fez sua primeira litogravura e se tornou ilustradora científica, criando desenhos de fósseis. Nesta fase, ela ainda não se considerava uma artista.
Beaux frequentou a Academia de Belas Artes da Pensilvânia, em 1876. Depois teve aulas com William Sartain, um artista de Nova York. Na sequência, montou seu próprio atelier, que compartilhava com um grupo de artistas mulheres. Com o tempo, ela passou a receber encomendas de retratos e já recebia dinheiro por eles.
Aos 32 anos, apesar do seu sucesso na Filadélfia, ela decidiu que ainda precisava avançar em suas habilidades técnicas. E partiu para Paris. Lá, ela estudou na Académie Julian, a maior escola de arte de Paris, assim como na Académie Colarossi. Recebeu críticas de dois mestres já consagrados, como Tony Robert-Fleury e William-Adolphe Bouguereau. Ela escreveu que Fleury era mais duro do que Bouguereau, mas disse que “faremos tudo que pudermos para ajudá-la”. Ao que Cecilia disse que aceitava, pois “esses homens me conhecem e reconhecem que eu posso fazer alguma coisa.” Vale ressaltar que após 1860, diversos pintores e pintoras norte-americanos se dirigiram para Paris, com a intenção de estudar. Lá, eles viveram de perto os intensos debates entre os pintores impressionistas e os mais ligados ao neoclassicismo. Assim como as novidades estéticas e filosóficas da Arte Realista de Gustave Courbet. Isso influenciou muito a pintura norte-americana. Mary Cassat, por exemplo, foi bastante influenciada pelos impressionistas.

Retrato de James Murdock Clark Jr
Quando Cecilia chegou a Paris, os impressionistas já eram conhecidos e recebiam severas críticas dos pintores clássicos. Eram eles: Degas, Monet, Sisley, Caillebotte, Pissarro, Renoir  e, uma mulher, Berthe Morisot. No verão de 1888, ela tentou aplicar as técnicas plein-air da pintura impressionista, mas não se saiu bem. Ao contrário de Mary Cassatt, outra artista norte-americana que havia chegado 15 anos antes dela e que tinha absorvido o temperamento artístico dos impressionistas, Cecilia Beaux era demais precisa e verdadeira. Continuou a ser uma pintora realista até o fim da vida.
Ela admirava artistas clássicos como Ticiano e Rembrandt e sua formação europeia influenciou sua paleta. Ela adotou uma coloração mais branca e pálida em sua pintura a óleo, retratando particularmente mulheres, numa abordagem que também era a mesma de John Singer Sargent.
De volta aos EUA em 1889, Cecilia começou a pintar retratos de pessoas de sua família, assim como fazia retratos por encomenda. Já havia tomado a decisão de se dedicar exclusivamente à arte, e, com isso, também achava que era melhor não se casar. Quando tinha namorados, tinha o cuidado de se envolver somente com homens que não ameaçassem sua carreira. Ela mantinha uma rotina de trabalho disciplinado. Os cinco anos que se seguiram foram altamente produtivos, resultando em mais de quarenta retratos.

Mulher com o gato, 1895
Começou a expor em Salões de Arte nos EUA e na França, recebendo vários prêmios por seu trabalho. Em 1895, Cecilia Beaux se tornou a primeira mulher a ensinar regularmente na Academia de Belas Artes da Pensilvânia, onde ela deu aulas de retrato, de desenho e pintura, durante os próximos 20 anos de sua vida.
Cecilia Beaux, que não podia fazer desenhos de modelo vivo quando era aluna, recebeu um elogio digno de trazer orgulho às mulheres. Em 1896, quando regressou à França para uma exposição de seus quadros no Salon de Paris, ouviu de um influente crítico francês, Henri Rochefort, que ele era obrigado a admitir “não sem algum desgosto” que poucos homens eram bons o suficiente para competir com “a senhora que nos deu este ano o retrato do Dr. Grier”…
Em 1910, com 55 anos de idade, Beaux era altamente produtiva. Em cinco anos, ela pintou quase 25 por cento de toda sua obra, e recebia, em vida, cada vez mais reconhecimento. Apesar de sua produção contínua e dos elogios, no entanto, ela estava trabalhando contra a corrente e os gostos e tendências que surgiam na arte. O famoso “Armory Show” de 1913 em Nova York foi uma apresentação histórica de 1.200 obras do modernismo que começava a dar seus primeiros passos.

Em 1924, numa caminhada em Paris, ela caiu e quebrou o quadril, acidente do qual ela jamais se recuperou completamente. Sua produção diminuiu. Em 1930, publicou uma autobiografia. No mesmo ano, foi eleita membro do Instituto Nacional de Artes e Letras. Em 1933 chegou a membro da Academia Americana de Artes e Letras, que dois anos depois organizou uma exposição que foi a primeira grande retrospectiva do trabalho de Cecilia Beaux.
Embora hoje ofuscada por Mary Cassatt, pintora norte-americana mais conhecida, ela foi altamente considerada em seu tempo. Ao entregar a ela uma Medalha de Ouro ofertada pelo Instituto Carnegie, em 1899, William Merritt Chase declarou: “Miss Beaux não é só a maior pintora mulher que vive, mas a melhor que já existiu. Cecilia Beaux fez acabar inteiramente com a diferença  de gênero na arte".
Ela morreu com a idade de 87 anos, no dia 7 de setembro de 1942.


Homem com o gato

Neste video abaixo, podem ser vistas diversas outras pinturas de Cecilia Beaux:


sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Pão e Rosas para Todos




A galeria de exposições da Caixa Cultural, localizada na avenida Paulista em São Paulo, apresenta uma exposição com parte da obra gráfica do artista plástico brasileiro Carlos Scliar. A mostra iniciou no dia 9 de novembro e vai até o dia 8 de janeiro de 2012.


Auto-retrato com roupão listrado
Guache encerado / 54 x 40 cm
Paris, 1949 / coleção Michel Loeb
Essa exposição, bastante sintética, evidencia algo da atuação política e social desse artista gaúcho nascido em 1920. São algumas serigrafias, alguns desenhos que ele fez no período da II Guerra Mundial, na Itália; gravuras com temas gaúchos; telhados de casas de Ouro Preto; litografias, ilustrações, etc. São quase 100 obras que dão uma idéia do peso desse artista na arte moderna brasileira.


Carlos Scliar nasceu no dia 21 de junho de 1920 em Santa Maria da Boca do Monte, no Rio Grande do Sul. Foi desenhista, pintor, gravador, ilustrador, cenógrafo, roteirista e designer gráfico. Ao longo da vida, participou de muitas exposições no Brasil e no exterior. Como sempre preocupado com as questões sociais do povo brasileiro, filiou-se ao Partido Comunista do Brasil e foi ativo militante de esquerda. Produziu cartazes, ilustrou livros e revistas com temática política e social.


Scliar sempre buscava inovar no uso dos materiais: fez gravuras, serigrafias, óleo, têmpera, guache, acrílica. Fez pinturas, ilustrações, murais. Foi um artista das artes gráficas também, fazendo capas de livros e revistas, ilustrações.


Carlos Scliar em sua primeira exposição,
antes de ir para a Guerra em 1944
Sua primeira participação em exposições foi em Porto Alegre, em 1935, na Exposição do centenário Farroupilha. Em 1938 participou da Fundação da Associação Riograndense de Artes Plásticas Francisco Lisboa, que questionava os cânones da arte acadêmica e neoclássica que ainda influenciava a pintura brasileira, com origens na Europa. Em 1940 mudou-se para São Paulo e juntou-se aos artistas paulistas do Grupo Santa Helena e da Família Artística Paulista. Mas em 1944, convocado pela Força Expedicionária Brasileira, foi para a Itália, como soldado. Sua observação dos campos de batalha produziu desenhos onde ele retratou a si mesmo e aos outros soldados. Fez também croquis de casas e paisagens do norte da Itália. Uma parte desses desenhos está exposta na galeria da avenida Paulista.


Mas Carlos Scliar também participou ativamente de movimentos pela paz, inclusive em Paris, onde morou a partir de 1947. Inicialmente pensava em se instalar na capital francesa, mas logo percebeu que sua arte tinha uma profunda raiz na sua terra, o Brasil. Voltou para cá em 1950, indo primeiro para o Rio Grande do Sul, onde participou da criação do Clube de Gravura de Porto Alegre. Mas tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo, sua atividade como artista foi intensa, inclusive nas artes gráficas. Fez ilustrações para romances de Jorge Amado, seu amigo, e para a peça “Orfeu da Conceição” de Vinícius de Moraes.


Desenho feito durante a guerra
na Itália
Depois de 1960 dedicou-se especialmente à pintura, realizando diversas exposições. Diz o texto do site do Instituto Carlos Scliar: “Os anos 60 fizeram aflorar um artista sensível, sintonizado com o seu povo e com o mundo em que vive. Sua formação humanista, o espaço cubista, a atmosfera metafísica de Morandi, o rigor do desenho perseguido nos clubes de gravura e uma espécie de sensibilidade "elliotiana"  a trabalhar com a noção do tempo de uma maneira dinâmica e questionadora, tudo isso foi formando, até o fim da vida, a personalidade do artista.”


Abaixo, alguns textos recolhidos no site do Instituto Cultural Carlos Scliar, que funciona em Cabo Frio, Rio de Janeiro, na mesma casa onde ele viveu até sua morte em 2001. Lá funciona uma espécie de casa-ateliê, onde crianças e adolescentes carentes têm aula de arte, artesanato e noções de marcenaria. Bem no espírito desse artista profundamente humano e envolvido com os problemas de seu tempo.


Os textos abaixo são de amigos, companheiros, camaradas, que falam desse artista de uma forma que pode nos dar uma ideia muito boa de quem era o artista e o homem Carlos Scliar.


Niemeyer, Scliar e Vinícius de Moraes
Oscar Niemeyer:


"Scliar é um querido amigo. Um companheiro dos velhos tempos do Café Amarelinho, do PCB, da luta política que sempre nos comoveu. E ele, como eu, a seguir os acontecimentos sem recuos, sem temores, consciente de que a miséria nos cerca e que ao lado dela, dos nossos irmãos mais pobres, devemos caminhar. Esse é o lado humano do nosso camarada. O outro, que o ocupou também inteiramente, é o de sua carreira, artista plástico, de pintor de talento, que hoje, passados tantos anos, é por todos admirado."


"É sempre bom falar dos amigos, e, quando se trata de um velho e querido companheiro como Carlos Scliar, é melhor ainda. Dizer como é importante este grande brasileiro, voltado para sua pintura a vida inteira, mantendo-a – tão vasta – dentro da unidade e no nível superior por todos procurados. E, principalmente, lembrar como se faz atuante e solidário diante desta miséria, deste mundo injusto em que vivemos."


Scliar e Jorge Amado
Jorge Amado:


“Já se passaram mais de quarenta anos do primeiro impacto sofrido por mim ao contemplar em São Paulo trabalhos de quem era então quase um menino, apenas um adolescente, recém-chegado do Rio Grande do Sul com telas e pincéis, uns olhos claros e ternos, o coração pleno de sonhos, um caráter já inflexível, o dom da amizade, o talento incomum. Eram uns quadros enormes, ambiciosos, ninguém poderia ficar indiferente ante tanta força, tamanha decisão, a vocação definitiva de um pintor que ali estava ainda em gestação, aquela presença que não podia deixar a mínima dúvida sobre o dia de amanhã. (...)
Humanismo, eis a palavra que resume o trabalho de Carlos Scliar, no qual a beleza se supera a cada pincelada."



Vinícius de Moraes:


"Para Scliar a vida conta em seus mínimos detalhes. Pode ele não ser talvez - por se tratar de artista notavelmente equilibrado - um participante desabrido, no sentido picasseano, pois em Scliar a coragem de viver é sempre amenizada por uma grande ternura por tudo o que existe. É difícil encontrar criatura menos egoísta. (...) Sua arte traduz um refinamento orgânico, fruto de sua evolução como homem; constitui uma síntese sem perda de substância. (...) Buscando extrair dos objetos (que são, ademais de criação do homem, seus melhores amigos) o máximo de sua essencialidade, Scliar revela de saída, para quem souber ver, toda a pureza de seu humanismo dialético, do seu intenso mas disciplinado amor pelo homem através do que o homem cria com suas próprias mãos. (...) Como se o pintor oferecesse ao homem, seu semelhante, certos segredos e nuanças de sua própria obra que este, sempre voltado para o prosaismo do seu cotidiano, não pudesse ou não soubesse mais ver.


Num meio artístico aloprado como o nosso, a coerência de Scliar como pintor é admirável. E a coisa linda também nesse poeta do objetivo é que o sucesso e a prosperidade em nada afetaram o seu angelismo, em nada comprometeram a sua inata disciplina e frugalidade. Eu, simplesmente, gosto de Scliar, isso é tão simples. E independente da grande admiração que tenho por ele."


Jaguar:


"Só respeito pintor que saiba desenhar. Picasso e Matisse eram desenhistas geniais. Dos vivos, o inglês David Hockney, pintor da minha predileção, é um desenhista excepcional. Portinari desenhava paca, Sagall também. Misturar cores para dar um efeito bonito é fácil, mas desenhar, eu diria, à maneira de Noel, é que é o X do problema. Essa volta toda foi para falar do Scliar, que sabia tudo de pintura e foi  embora no fim de abril."


Clarice Lispector:


"Nenhum pintor é obrigado a ser inteligente. Mas Carlos Scliar é, e muito. Ele diz, por exemplo, que se considera um homem rico de tudo o que os outros construíram para ele. E só espera poder retribuir (com arte). Uma frase que define Carlos Scliar é uma que ele me disse há anos: 'Gostaria que meus quadros incutissem esperança e força a todos.


A obra de Scliar oferece-nos, assim, uma tranqüila reedificação do mundo, um espetáculo de ordem, onde o visual tangencia um rigor quase matemático, um pré-modo de ser, uma espécie de assembléia-geral."