terça-feira, 10 de maio de 2011

Mendigo contemporâneo do centro de São Paulo

Foto no viaduto Santa Ifigênia, centro de São Paulo, 8 de maio de 2011


Um homem pede esmolas no centro de São Paulo, pleno domingo de sol de outono. Um estranhamento ronda sua figura plástica, pictórica, coberta de uma mesma tonalidade marrom como sua pele. Sigo pelo viaduto Santa Ifigênia, mas meus pensamentos ficam lá com aquela figura.

O mundo que ronda esse homem transformou-se num grande mercado e ele tenta, lá do seu jeito torto e trágico, captar as sobras, os restos da Grande Feira deste mundo pós-moderno. O capitalismo passa como uma máquina monstruosa sobre esse homem, relegado à ignorância, à fome, ao abandono, à solidão mais absoluta de um homem só, sozinho contra um mundo!


O jovem mendigo (1645-1650), de
Bartolomé Esteban MURILLO (Sevilha, 1618 -1682)
Museu do Louvre-Paris-França
Um pintor espanhol do século XVII, Bartolomeu Esteban Murillo (1618-1682) também pintou um mendigo. No caso, um menino mendigo, um menino de rua, como tantos que havia na Sevilha desse tempo, quando a Espanha vivia sua Idade do Ouro.


O mendigo de Murillo é um garoto vestido com trapos, com os pés sujos, sentado no chão, sozinho no canto de um interior em ruínas. Ele parece ocupado em se livrar das pulgas que incomodam. 

Murillo escolheu, como artista, pintar os pobres de seu tempo. Ele se inspirou na pintura de Caravaggio, o mestre italiano. Como este, também inclui os contrastes violentos de luz e sombra que caem sobre suas figuras pintadas, que recuperam algo de sua dignidade de ser humano.

Mas o mendigo de São Paulo é sombrio naturalmente. Nada tem de gracioso, de harmônico, de digno. É mais um dos muitos que encontramos vagando pelo centro da cidade, expostos à fome, ao tempo, às drogas. Porque são mendigos de agora, mendigos versão contemporânea, sobrevivendo em permanente asfixia, numa rotina que se repete como os piores sonhos! Eles e seus pés andarilhos.
Desenho com lápis grafite, 2010

quarta-feira, 4 de maio de 2011

A estranha perspectiva de Maurits Cornelis Escher

 
Auto-retrato
Fui visitar a exposição “O mundo mágico de Escher” no Centro Cultural Banco do Brasil, no centro de São Paulo. A mostra reúne 94 obras, entre gravuras originais e desenhos, incluindo todos os trabalhos mais conhecidos do artista. 

Durante mais de 50 anos de trabalho, MAURITS CORNELIS ESCHER – este é seu nome completo – fez desde simples desenhos com lápis, assim como xilogravuras, litogravuras e linoleogravuras representando perspectivas estranhas de construções impossíveis, fazendo explorações gráficas com a ideia de infinito e diversos estudos em que metamorfoseou padrões geométricos em peixes, pássaros e outros bichos.

Um pouco de sua biografiaEscher nasceu em 17 de junho de 1898 em Leeuwarden, na Holanda. Em 1903 a família mudou-se para Arnhem. Em 1922, Escher, já tinha muito domínio sobre o desenho e, em especial, sobre a xilogravura. No início de 1919, frequentou a Escola de Arquitetura e Artes Decorativas em Haarlem, onde começou a estudar arquitetura, mas acabou se dirigindo para as artes decorativas, estudando sob a direção de Samuel Jesserun de Mesquita, um artista com quem  manteve contato até a morte deste, pelos nazistas, em 1944.

Escher parte para Florença em 1922, onde desenhou incansavelmente a paisagem italiana vista a partir de perspectivas incomuns. Ele também gostava de desenhar pequenos animais ou pequeninas formas de plantas que ele via pelo microscópio. Em 1924, já com sua esposa Jetta Umiker mudou-se para Roma, e lá ficou até 1935, quando o clima político de Mussolini tornou-se insuportável. Foi para Chateau d'Oex, na Suíça, onde permaneceu por dois anos, mas como não gostava de lá resolveu ir morar em Uccle, uma pequena cidade da Bélgica, próxima a Bruxelas.

Mas a violência da II Guerra Mundial o obrigou a mudar-se novamente em 1941, só que, desta vez, para a cidade de Baarn, em seu país natal, onde viveu até 1970. Morreu em Hilversum, também na Holanda, em 27 de março de 1972. Suas obras mais conhecidas datam deste período, onde o clima nublado, frio e úmido da Holanda lhe permitiu se concentrar totalmente na sua obra.

Desenhando-se, litografia, 1948, 28,5 x 34cm
Escher foi considerado um grande matemático geométrico, além do grande artista. Ele brinca com a representação tridimensional do espaço no plano bidimensional da folha de papel. No desenho, ele criava figuras impossíveis, representações distorcidas, paradoxos. Algumas de suas gravuras apresentam verdadeiras ilusões de ótica em relação à perspectiva. Em alguns desenhos ele mostra uma espécie de loop infinito, onde não se pode saber se as pessoas descem ou sobem escadas, se olham ou são olhadas. Em um de seus desenhos que eu mais gosto, estão duas mãos se desenhando uma à outra. Outros desenhos mostram construções impossíveis, num desenho cheio de truques de perspectiva.

Relatividade, litografia, 1953, 28 x 29cm
O desenho de Escher possui forte componente matemático. Ele brincou com os sólidos de Platão, com equações de Mobius, com o cubo de Necker e o triângulo de Penrose, o famoso matemático britânico, Roger Penrose, que era seu amigo pessoal.

Os experts em seu trabalho, dividem sua obra em dois períodos: os desenhos feitos antes de 1937 e os pós-1937, pois foi nesse ano que ele começou a dar rédea livre à sua imaginação de matemático e geômetra. O primeiro período corresponde ao que ele morou na Itália e Suíça. Na Itália, por exemplo, ele reproduziu muitas paisagens e cidades italianas com riqueza de detalhe. Mas já nesse período (dá pra perceber vendo seus desenhos nessa exposição de São Paulo) ele mostra sua forma muito pessoal de representar a realidade que vê. Muito observador do mundo por onde passa, ele quer mostrar as coisas de uma forma diferente do lugar-comum.

Queda d'água, litografia, 1961, 38 x 30 cm
Mas foi na segunda fase, pós-1937, que Escher começou a mexer com o espaço, justapor figuras, realizar metamorfoses, fazer translação, rotação, reflexão e até dilatação de figuras e construções. Além disso, a exposição evidencia os efeitos de alguns fenômenos de espelhamento, perspectiva e matemática em diversas instalações interativas, onde é possível brincar um pouco com as formas criadas por Escher.

Vale muito a pena ir dar uma olhada na exposição de um artista que desenhou por mais de 50 anos em sua vida! Escher é um grande exemplo de dedicação ao desenho.

Anote aí:
Exposição “O mundo mágico de Escher”
De 19 de abril a 17 de julho de 2011
De terça a domingo, das 9h às 20h
Local: CCBB – Rua Álvares Penteado, 112 centro 
São Paulo-SP