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quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Johannes Vermeer de Delft

Mulher de azul lendo uma carta, Jan Vermeer, 1662-1663
A obra-prima de Johannes Vermeer, “Mulher de azul lendo uma carta”, pintada entre 1663-1665, que pertence ao acervo do Rijksmuseum de Amsterdã, estará sendo exibida no MASP a partir deste 12 de dezembro. O quadro foi recentemente restaurado, e acaba de inaugurar o novo Museu de Arte da China, em Xangai. No MASP, segundo a organização, a obra ocupará quatro salas especialmente preparadas para ela, no 1º andar. Depois de São Paulo, segue para o Getty Museum, em Los Angeles, EUA, retornando após para Amsterdã para a reabertura do Rijksmuseum, que desde 2003 passa por reforma e ficou parcialmente fechado.

Aqui em São Paulo, esta pintura poderá ser vista até o dia 10 de fevereiro de 2013. O quadro ficará exposto em uma sala, e nas outras três estarão as descrições do processo de restauração, realizada entre 2010 e 2011.
 
O artista Jan Vermeer

Assinatura de Vermeer em seus quadros
Johannes Vermeer nasceu e morreu em Delft, na Holanda, tendo sido batizado em 31 de outubro de 1632.

A Holanda de seu tempo era o país onde mudanças muito importantes se operavam na civilização ocidental. Com a evolução do capitalismo mercantilista e a diminuição do poder do papa após a Reforma Protestante, o pensamento humano passava a substituir a autoridade divina, trocando-a pela experimentação e pela observação do mundo.

O autor do livro “Civilização”, Kenneth Clark, destaca que nesse período a pintura flamenga foi “a expressão visível dessa transformação”. No campo econômico e intelectual aquele país teve grande destaque. Por exemplo, foi o primeiro país a imprimir todos os grandes livros que “revolucionaram o pensamento” humano, como mostra também Clark.

No campo da pintura, Frans Hals (1580-1666) já começara a prática da pintura de retratos de corporações, agrupamentos comerciais ou sociais. Outro pintor holandês, Rembrandt van Rijn (1606-1669), nessa nova onda civilizatória que acontecia na Holanda, pintaria a famosa tela representando os tecelões de Amsterdã. São esses “os primeiros indícios visuais da democracia burguesa”, diz Clark. Era uma forma nova de ver o mundo, mostrando como o homem era capaz de construir seu próprio destino, além de criar seus instrumentos e fazê-los funcionar.

E isso se deu em um dos primeiros centros do capitalismo daquela época, a Holanda. O país possuía um grande porto e era o maior centro bancário da Europa. Além disso, grande centro comercial, um dos maiores do mundo do período. Vivia sua era dourada, inclusive invadindo as praias da minha terra, Pernambuco, por volta de 1630, enviando 60 barcos com mais de 7 mil homens. A riqueza do Brasil atraía as atenções dos capitalistas holandeses, que enviaram depois o conde Maurício de Nassau para assumir o controle holandês sobre o nordeste brasileiro. Mas foram expulsos pelos bravos conterrâneos...


Retrato de René Descartes,
por Frans Hals, 1644
Mas aquele era também o tempo do filósofo francês René Descartes (1596-1650), também físico e matemático. Ele tinha deixado a França e ido morar em Amsterdã. Passou em Haarlem, onde o pintor Frans Hals lhe pintou um retrato (ao lado). Descartes era o pensador cético, que incentivava a dúvida como parte do processo de conhecimento. Dele é a famosa frase “Penso, logo existo” e é o autor do que hoje conhecemos como método cartesiano, esquemática e ordenada forma de estudar e observar as coisas, que foi muito importante inclusive para o avanço da ciência.

Kenneth Clark destaca também como o método de Descartes de experimentação direta da realidade, sem interferências e convenções, recebeu na pintura holandesa a sua ilustração máxima.

E a máxima ilustração de como um artista pode pintar a partir de uma observação cuidadosa do real chama-se Jan Vermeer. Ele não tinha ideias pré-concebidas sobre o que via. Como esse novo pensador-observador, ele pintou uma das paisagens mais iluminadas e realistas de sua cidade, “Vista de Delft”, que até hoje impressiona quem o visita no Museu de Haia. O escritor Marcel Proust, já no século XX, inclui a descrição desse quadro em um de seus textos da coletânea “Em busca do tempo perdido”. 

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Resume assim, Kenneth Clar: Jan Vermeer, além “de nos mostrar a luz da Holanda, ilustra o que Descartes chamava ‘a luz natural da mente’.”

Vista de Delft, Jan Vermeer, 1660-61
A luz natural da mente de Vermeer

Vermeer era daqueles que perceberam “a beleza pura do mundo”, como observa E. H. Gombrich em seu livro “História da Arte”. Ao invés de se voltarem para as belezas do mundo espiritual como orientara por séculos a igreja católica, Jan Vermeer, assim como outros pintores holandeses do século XVII, descobriu a maravilha de pintar a realidade tal qual ela se apresentava.

Ele era um trabalhador lento e meticuloso, diz Gombrich. Diz-se que ele pintou pouco mais de quarenta telas em sua vida. Seus temas nada tinham de magníficos, pois ele pintava as pessoas mais simples, cenas de vida doméstica, interiores de aposentos holandeses, ou mesmo uma mulher solitária despejando seu leite numa vasilha de barro, como no quadro “A leiteira”, pintado por volta de 1658. Gombrich acrescenta: “É difícil explicar as razões que fazem de uma tela tão simples e despretensiosa uma das maiores obras-primas de todos os tempos”.



A Leiteira, Jan Vermeer, 1658-1661
Mas podemos supor que tudo fazia novo sentido dentro da nova conjuntura econômica, social, intelectual e artística da Holanda, pois Vermeer voltava seu cavalete para pintar figuras simples do povo, trabalhadores, donas de casa, empregadas domésticas, ou a vida pequeno-burguesa do seu país. Tudo isso fundindo numa mesma tela uma inigualável precisão com uma extrema suavidade. Seus olhos seguiam o movimento do raio de luz que invadia ambientes e realçava uma cor de tecido, por exemplo.

Como o azul do vestido da moça que lê uma carta nesta tela exposta no Masp. Ou como a luminosidade explícita da “Vista de Delft” com sua perfeita perspectiva dos edifícios e a representação exata da luz.

Pouco se sabe sobre a vida de Jan Vermeer, que, aliás, nunca assinou seu nome dessa forma, mas sempre como Joannes, Joannis ou Johannis, como atesta o autor do livro “Vermeer de Delft, un peintre de sa ville”, Michel van Maarseveen.

Após 1662, observa Van Maarseveen, Vermeer passou a pintar de uma forma ainda mais refinada, onde a representação dos objetos era ainda mais sutil. Essa tendência, onde se poderia perceber a influência do pintor Frans van Mieris - diz o autor - surge em três telas pequenas onde Vermeer representou mulheres atrás de mesas perto de janelas: "Mulher com uma balança", "Colar de pérolas" e o quadro que está no Masp, "Mulher de azul lendo uma carta". As figuras estão atrás de pesadas mesas, entre elas e as janelas. A tela em exposição no Masp também é um dos exemplos de que Vermeer passou a executar pinturas com menos detalhes, menos objetos e a fazer uma clara separação entre a luz e a sombra, como conta Van Maarseveen no livro. 
É também dessa época as pinturas em que ele fez de pessoas tocando instrumentos musicais, como “Concerto”, por exemplo. Nos últimos anos de sua vida, Vermeer também se dedicou a pintar mais quadros com o tema da música.


Biografia incompleta


Seguindo o texto de Michel van Maarseveen, vimos que seus pais, Reynier Jansz e Digna Baltens, tinham uma pousada. Seu pai também era tecelão de seda e depois se inscreveu na Guilda de São Lucas como vendedor de objetos de arte. Somente quem era sócio da guilda podia vender esses produtos. Por causa dessa profissão, Reynier tinha contato com diversos pintores.  Quando Vermeer nasceu, em 1632, seu pai já era negociante de arte, além de dono de pousada. E seus conterrâneos holandeses tinham ocupado minha terra...

Moça com brinco de pérola,
Jan Vermeer
Do período de sua infância e juventude nada se sabe, até seu casamento em 1653, quando ele tinha 21 anos. Mas existiam diversos pintores desse período que podem ter sido mestres do jovem Vermeer: Gerard Ter Borch, Evert van Aelst e principalmente Carel Fabricius, que muitos apontam como tendo sido um de seus mestres. Fabricius tinha estudado com o pintor Rembrandt e se mudou para Delft em 1650. Tirava sua inspiração de cenas cotidianas, como depois o faria Vermeer. Mas Fabricius teve uma trágica e precoce morte aos 32 anos: um arsenal de pólvora explodiu em Delft matando a ele e mais centenas de moradores da cidade em 1654.

O pai de Vermeer morreu um ano antes do casamento do filho, mas sua mãe continuou administrando a pousada até 1669, quando ela tenta vendê-lo em leilão. Não conseguindo, aluga-a e vai morar com sua filha Geertruy até sua morte em 1670. Vermeer herda o albergue.

Casado com Catharina Bolnes em 5 de abril de 1653, ele teve que se converter ao catolicismo, religião da família da noiva. A cerimônia, diz Maarseveen, foi feita por padres jesuítas, com quem Maria Thins, sogra de Vermeer, mantinha boas relações. Algum tempo depois de casados, foram moram na casa de Maria Thins, que sempre ajudou financeiramente a família de Vermeer, apesar de ter sido inicialmente contra o casamento.

Tiveram 15 filhos, sendo que 11 sobreviveram. Uma família numerosa como esta era difícil de manter, com gastos muito grandes. Mas a casa de Maria Thins era suficiente para todos e foi descrita em detalhes, graças ao inventário que foi feito dois meses após a morte dela. No primeiro piso, logo no primeiro cômodo, havia uma tela de Fabricius. Após, uma sala grande com mais dois retratos feitos por Fabricius. Isso demonstra o respeito que Vermeer tinha por aquele que pode ter sido um de seus mestres. Uma cozinha grande e diversos outros cômodos também faziam parte da parte térrea da casa. Entre o primeiro e o segundo piso, havia um com dois ambientes, um deles com a face voltada para o norte, onde Vermeer teria montado seu ateliê. Quando foi feito o inventário do ateliê, a lista constava de: 2 cavaletes, 3 palhetas, 6 pincéis, 3 telas em branco, 1 mesa e 3 armários com inúmeras ilustrações e desenhos.

Durante a vida de Jan Vermeer, a cidade de Delft era cosmopolita, com 25 mil habitantes, muitos artesãos e fábricas de louça e tapeçaria. Delft não só produzia objetos de decoração de luxo, como também era um grande mercado de arte.

A Guilda de São Lucas

No dia 29 de dezembro de 1653, aos 21 anos e pouco depois de seu casamento, Vermeer se inscreveu como mestre na Guilda de São Lucas. Naquele tempo, da mesma forma como os artesãos e comerciantes, os pintores se organizavam em guildas, espécies de sindicato. Ela tinha sido fundada na Idade Média, mas a primeira data de instalação é de 1545. No século XVII era a guilda mais importante e a maior de Delft. Mas ela não acolhia só pintores; lá também estavam pintores de parede, oleiros, gravadores, vidreiros, tapeceiros, escultores, livreiros, impressores e vendedores de objetos de arte. Somente os sócios da Guilda podiam negociar seus produtos em Delft.


O Géografo, Jan Vermeer, 1669
O comitê diretor da Guilda de São Lucas era formado por seis profissionais: dois oleiros, dois vidreiros e dois pintores, cujo mandato durava dois anos. Jan Vermeer foi por duas vezes Mestre da Corporação dos pintores na Guilda. Eleito pela primeira vez em 1662, ele tinha 30 anos de idade, sendo então um dos mais jovens mestres daquela guilda.

A Guilda de São Lucas só foi extinta em 1833. Em 1876, a sede foi destruída para dar lugar a uma escola, que ainda funciona atualmente e recebe o nome de Escola Jan Vermeer.

Morte do pintor

Jan Vermeer morreu no dia 15 de dezembro de 1675. Seu corpo foi enterrado na mais antiga igreja de Delft, a Oude Kerk, onde sua sogra, Maria Thins, havia comprado uma tumba em 1661. Lá também foram enterrados seus quatro filhos que morreram bem pequenos. No registro da igreja consta que Jan Vermeer foi enterrado no dia 16 de dezembro de 1675.

Sua morte foi consequência das dificuldades financeiras que se abateram sobre sua família. Em 1677, Catharina se dirige à Corte da Holanda solicitando a liberação do dinheiro que ela tinha direito por herança. Foi aí que ficou registrado seu depoimento: por causa da guerra contra a Inglaterra e a França que ocorreu em 1672 - conhecido como o ‘ano dos desastres’ - Vermeer, que se mantinha e à sua família como vendedor de quadros, não conseguia mais vender nada. E ele tinha 11 filhos para sustentar. “Seu coração não suportou e ele morreu em menos de dois dias”, ela teria dito. Vermeer morreu de infarto.



Moça com chapéu vermelho,
Jan Vermeer, 1665-66
Sua esposa e filhos ficaram em uma situação muito precária, tendo que recorrer aos serviços públicos de caridade. Além de tudo, a família estava devendo muito. Ela começou a oferecer os quadros do marido para saldar dívidas e manter seus filhos. Com isso, no dia 15 de março de 1677, foi organizado um leilão com 26 obras de Vermeer no salão da Guilda de São Lucas.

Atualmente, observa Van Maarseveen, a maior parte dos quadros do pintor de Delft se encontram em coleções públicas de países estrangeiros. Na Holanda, só o Rijksmuseum de Amsterdã e o Mauritshuis de Haia possuem obras dele. Sua pequena cidade não possui uma única obra de seu mais célebre habitante.

A obra de Vermeer passou quase 200 anos no esquecimento, até que o crítico francês Théophile Thoré a redescobriu em 1860. Desde então seus quadros continuam encantando a todos os que têm o privilégio de observá-los de perto.

Por isso, a única tela exposta no Masp não vem sozinha. Carrega consigo toda a vida, conhecida e desconhecida, do pintor de Delft e de seu tempo.



O Concerto, Jan Vermeer, 1664-1667 

segunda-feira, 9 de julho de 2012

O bóson de Higgs e a Arte pictórica: faça-se a Luz!

No princípio, uma singularidade criou os céus e a terra. A terra estava informe e vazia; as trevas cobriam o abismo. Uma explosão inicial detonou a luz! E a luz foi feita. E tudo foi criado a partir de então.


No último dia 4 de julho, noite memorável, uma notícia se espalhou pelos quatro cantos do mundo. E nem foi por causa da Libertadores. Nem foi por causa do lançamento do meu livro, evento muito importante. Mas foi porque a Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (CERN) anunciou, em Genebra, a comprovação da existência de uma partícula, o chamado Bóson de Higgs, fundamental para que se possa entender a estrutura básica da matéria.


Essa partícula subatômica foi detectada dentro do Large Hadron Collider (LHC), o super-acelerador de partículas do CERN com 27 km de extensão, que fica na fronteira entre a Suíça e a França. E o bóson de Higgs foi fotografado pela maior câmera fotográfica do mundo. Sabemos que um dos objetivos desse grande acelerador de partículas subatômicas é o de recriar as condições que formaram o universo, a partir do modelo do Big Bang. O “Big Bang” é uma teoria científica que fala que o universo nasceu a partir da explosão de um ponto infinitesimal que se expandiu e criou o Espaço, o Tempo e a Massa existente no universo. E a nós, aos animais e às estrelas! Isso há 14/15 bilhões de anos atrás.


O bóson de Higgs foi confirmado com uma certeza de 99,99%, segundo relatório dos cientistas do CERN. Ela está associada a um 'campo' com o qual as outras partículas interagem (prótons, nêutrons, elétrons, quarks...), ganhando matéria. A interação entre as partículas subatômicas geram massa, e a massa, matéria. Mas há as que não interagem com o campo de Higgs, e essas não possuem massa. Estão destinadas a movimentar-se para sempre na velocidade da luz e são chamadas de Fótons, a unidade básica da luz.

O físico nuclear Peter Higgs
Peter Higgs, um tímido e calmo senhor de 83 anos, esperou quase 50 anos para ver sua tese comprovada, e apenas disse: “É agradável ter razão de vez em quando”. Ele é um físico escocês, atualmente professor emérito da Universidade de Edimburgo. Em 1964, Higgs previu teoricamente a existência do bóson que levaria seu nome, a também chamada “partícula de Deus”. Sua intuição dizia que deveria haver um campo de forças parecido com uma espécie de cola onde as partículas estariam imersas e em interação.


Essa tese deu início a uma verdadeira escola científica, unindo inúmeros físicos que apostavam na ideia de Peter Higgs. Todo um edifício teórico sobre a forma como as partículas criam massa e gera nosso universo visível surgiu a partir daí. Já está se dizendo que essa é uma das descobertas científicas mais importantes dos últimos 40 anos.


A descoberta do bóson de Higgs foi comemorada como a coroação de décadas de estudo de milhares de físicos e matemáticos que focaram seus esforços e suas vidas para entender de onde vem tudo o que existe, uma das grandes questões teóricas que o homem tenta resolver e que movem a ciência há séculos.


A longa espera terminou nesta quarta-feira, dia 4 de julho.

Retrato feito por Franz Hals
Mas o que tudo isso tem a ver com Arte? O que a descoberta de um físico nuclear escocês pode gerar de reflexões sobre a arte pictórica? E que lições podemos tirar daí?


Começando pela última pergunta. Durante 58 anos um homem levou sua vida de professor universitário e pesquisador, insistindo numa teoria. Sua intuição dizia que ele poderia estar certo, o que acabou sendo confirmado. Peter Higgs, como físico de altas energias, sabe que a nossa noção de tempo, o tempo linear, do cotidiano, é pobre. Num universo de 14 bilhões de anos, onde distâncias intergalácticas são medidas em anos-luz, 48 anos são nada. Quase nada também no movimento da história, mesmo que muito para uma vida humana.


Para a vida humana do sujeito que está agindo na superficialidade pragmática do dia a dia, 48 anos de estudo, de espera por algo, é quase insuportável. Mas há os Peter Higgs da vida, aqueles que pacientemente constroem tijolo por tijolo a sua obra. Debruçado sobre seus estudos, esses sujeitos não pensam em si enquanto egos a serem colocados acima de tudo, mas enquanto se esquecem de si e mergulham sobre seus suportes técnicos (ou suas teorias) vão simultaneamente se moldando na modelagem de seu objeto de estudo. Construir um edifício teórico não acontece do dia para a noite. Assim como desenhar e pintar não são dons milagrosos, mas frutos de anos e anos de dedicação, de esforço teórico e prático.

Alegoria da pintura, de Jan Vermeer
Mas o modo de vida deste tempo atual não suporta grandes esperas, e repudia aquilo que não seja instantâneo. Por isso, de vez em quando é necessário que nos calemos diante de um evento como este: a descoberta de uma partícula que gera a massa do universo e que nos remete às grandiosidades que muitas vezes esquecemos...


Diante da descoberta do bóson de Higgs, dá vontade de fazer eco ao que ele disse no dia 4 de julho: “É agradável ter razão de vez em quando”.


Vermeer demorava muito para pintar uma tela. Ele trabalhava lentamente e com muita meticulosidade, enquanto combinava cores de forma inimitável, perseguindo o movimento da luz que vai gerando as sombras, os espaços, a materialidade. Suas bordas não tinham borda. Elas se derramavam pictoricamente fazendo com que todos os objetos e figuras de seus quadros interagissem como o fazem as partículas subatômicas no Campo de Higgs. Com Vermeer, nada estaria mais separado. Quando fiz uma cópia do “Moça com brinco de pérola” em 2011, para mim foi uma descoberta maravilhosa: não há bordas duras em Vermeer, elas são suaves, quase nem existem, há interação pura entre elementos e cores do quadro.

Autorretrato, de Rembrandt
Rembrandt foi outro pintor holandês obcecado pelo entendimento de como a luz se derrama nas coisas, criando as sombras. Também ele pintava, não as coisas que seriam vistas por qualquer ser humano comum, mas pintava as relações entre as coisas, com a perfeita consciência de que a luz cria massas densas, matéria, que ele executava a partir de pinceladas pastosas, em camadas de massas com valores medidos pelos movimentos da luz. E nada de linhas. Massas. “Quando Rembrandt pinta um nu sobre um fundo escuro, a luminosidade do corpo parece emanar naturalmente do escuro do espaço”, diz Heinrich Wöllflin em Conceitos fundamentais de história da arte.


Caravaggio queria criar uma nova relação entre o espaço, as coisas e as figuras. Sua obsessão era a realidade. Como afirma Roberto Longhi, para ele “uma pedra não é menos importante do que um santo, porque não é menos real.” Na configuração dos santos e das pedras, prótons, nêutrons e elétrons interagem entre si e com o Bóson de Higgs, que lhes dão massa. Os mesmos componentes químicos que fazem um santo, fazem uma pedra. E a mesma luz que atravessa a mão estendida de Jesus se espraia nos rostos dos pecadores publicanos em seu quadro “O chamamento de Mateus”. Caravaggio queria representar os volumes que via em termos de planos de luz, com o furor de quem queria “alcançar o real”, como diz Longhi.

Detalhe: autorretrato em
As Meninas, de Velázquez
Franz Hals, com seu pincel inquieto, fazia com que suas obras exigissem a distância espacial para serem assimiladas, pois quando olhadas muito de perto, viam-se manchas, massas em correspondência, movimentos de cores e de valores que inebriavam a vista, como partículas de cores em interação eletromagnética se fundindo para configurar formas e figuras. Nada pode ser visto isoladamente, tudo está em relação, manchas, massas, cores, valores. Assim como ele, Van Dyck; assim como Van Dyck, Rembrandt; assim como Rembrandt, Velázquez.


Em Velázquez, cabelos, vestimentas, figuras, não são cabelos, vestimentas, figuras; são substâncias, são fenômenos luminosos, pictóricos. As massas claras e escuras se interpenetram. A ênfase, diz Wöllflin, está na luz. “Todos os contornos são imprecisos, as superfícies se furtam à tangibilidade e a luz flui livremente, como a correnteza que rompeu o dique”. Como a explosão cósmica inicial, que gerou o espaço, o tempo, a estrela, o planeta, o homem, o gato, a formiga, o pintor, a tela, o cavalete. Massas de matéria navegam imersas na escuridão do cosmos, alcançadas pela luz que desvenda a matéria, e o mundo, e tudo o que existe. Que existe por causa do bóson de Higgs.


Na arte pictórica, o universo está em interação permanente. Tudo interage com tudo todo o tempo. Nada está separado de nada. A harmonia do conjunto é gestada a partir desse aparente caos que confunde as mentes apressadas que olharem as telas de Franz Hals de perto.


Quando o artista norte-americano David Leffel (1931) viu as obras de Rembrandt pela primeira vez, ficou tão impressionado que resolveu dirigir seus estudos para os efeitos da luz sobre a realidade observada. E passou a ensinar que um pintor não pinta coisas, pinta a luz nas coisas. O artista pictórico não vê o mundo em detalhes separados, mas vê massas, planos, dimensões. Ele não pensa, quando vê um rosto humano, em termos de “olhos”, “nariz”, “boca”. Vê jogos de luz e sombra e massas em movimento. Em interação. É exatamente esse jogo das massas, no movimento entre a luz e a sombra, que vai dando materialidade ao quadro. Como as partículas vão se enchendo de Massa através da interação com o bóson de Higgs. E vão criando o mundo e tudo o que existe.


“É agradável ter razão de vez em quando”. Viva Higgs!

realismo
Detalhe de autorretrato, de David Leffel 

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Vivências em ateliês de Paris

A tela original é de Jan Vermeer "Moça com brinco de pérola"
- esta é uma cópia que está sendo pintada por mim - terceiro dia de ttrabalho
Depois de 5 dias, ela está ficando assim...
Duas atividades em especial, marcam esta minha estada de quinze dias aqui em Paris. Em primeiro lugar, pintando uma cópia do "Moça com brinco de pérola" de Jan Vermeer sob a orientação de uma pintora copista do Louvre. Em segundo lugar, fazer aulas de desenho com modelo vivo na Academia de la Grande Chaumière, aqui em Montparnasse, bairro de Paris.

Há alguns meses atrás soube, em São Paulo, do Atelier de Alejandra Astorquiza em Paris, copista do Museu do Louvre. A especialidade dela é copiar grandes obras dos grandes mestres, muitas vezes em frente às próprias obras no Louvre. Como faço parte de um Atelier em São Paulo que também usa como referência as obras dos mestres da pintura, considerei que podia ser muito boa a experiência de fazer um estágio intensivo de uma semana, junto com Alejandra, e aprender diretamente dela um pouco da sua técnica de copista.

Depois de três dias inteiros, e 24 horas de trabalho intenso, minha "Moça com brinco de pérola" começa a me olhar, com seu olhar enigmático. Ainda há muito o que trabalhar no rosto dela, no olhar dela e especialmente na boca dela. Alejandra me disse que esse quadro, junto com a Monalisa de Da Vinci, trazem rostos com os sorrisos mais enigmáticos e difíceis de copiar. Ou seja, minha tarefa não é nenhum pouco fácil. Ainda tenho dois dias inteiros de trabalho, que vou concentrar no rosto dela. Todo o restante que ficar faltando, farei sozinha em meu atelier em São Paulo.


Sala centenária do atelier de la Grande Chaumière
para onde se dirigem artistas e estudantes de arte desde o começo do século XX
Mas também fui à "Grande Chaumiére".

Este atelier fica dentro de um prédio secular aqui do bairro legendário de Montparnasse, e abriga a Academia de la Grande Chaumière, uma das mais antigas de Paris, fundada em 1909.  Lá acontecem cursos livres de desenho, pintura e escultura e está aberta a qualquer um que queira vir treinar aqui. Por estes bancos e estes apoios de madeira em volta da cena principal onde posam modelos, artistas célebres ou não, sentaram e continuam sentando para praticar uma das maneiras mais antigas de estudo de pintura: modelo vivo, nus ou em representação de personagem. Os artistas fazem seus croquis com grafite, carvão, pastel, óleo, acrílica, aquarela...

Fernand Léger (1881-1955) passou por aqui, assim como André Lhote (1885-1962), Emile Antoine Bourdelle (1861-1929), todos professores, ensinando novos artistas. Alberto Giacometti (1901-1966), o grande escultor, aprendeu aqui diretamente com Bourdelle.

Esta Académie de la Grande Chaumière já atraiu artistas de muitos países, de diversas gerações, nestes cem anos, e praticantes das técnicas mais diversas. Porque a Grande Chaumière é uma academia livre, qualquer um pode desenvolver a técnica que quiser. É assim, desde que foi criada em 1901. Alexander Calder (1898-1976), norte-americano; Amedeo Modigliani (1884-1920), italiano; Joán Miró (1893-1983), pintor espanhol, todos sentaram nestes mesmos bancos que vi ao meu redor.

Também alguns artistas brasileiros vieram desenhar aqui, como Lasar Segall, Quirino Campofiorito, Antonio Bandeira, Vieira da Silva e outros.

Ontem, desenhando e pintando junto comigo, tinha umas 40 pessoas, dispostas em semi-círculo em volta de uma modelo francesa, muito simpática, que posou nua. A primeira sessão foi de 45 minutos. Pausa de uns quinze minutos para um lanche servido pela administração da escola: chás diversos, espetinhos com legumes e embutidos, pães, vinho, suco... Depois mais quatro sessões de 25 minutos cada, com pequeno intervalo de 5 minutos, quando a modelo aproveitava para descansar.

Fiquei observando as pessoas, enquanto tomava meu chá, tentando adivinhar o que faziam, se eram pintores, ilustradores ou escultores, se tinham atelier, se eram conhecidos... As madeiras onde apoiamos nossas pranchas de trabalho são as mesmas há mais de cem anos. De tão usadas já estão meio roliças. Os bancos, alguns cobertos com couro, são os mesmos bancos rústicos usados há mais de cem anos, dezenas deles de várias alturas, dependendo da posição que se toma em relação ao lugar onde está a modelo.

Ela fica na frente, numa espécie de altar onde ela é a deusa. Ou o deus, no caso dos modelos homens. Em torno desses modelos, centenas de artistas se juntaram aqui, estudando cada detalhe da anatomia de seus corpos, a direção do jato de luz lançado sobre os modelos, as projeções das sombras, os valores dessas diversas gradações entre luz e sombra... Desenhando, repetimos em nossas pranchas as formas do que vemos.

É muito bom poder viver isso pessoalmente! É muito boa essa experiência de conviver com tantos desconhecidos, de várias idades, que falam uma língua diferente da minha (e talvez outras), mas que nos unimos na mesma e universal linguagem da Arte, na qual todos nós nos compreendemos uns aos outros. Neste espaço de la Grande Chaumière, junto com essas pessoas, lembrei de uma frase de origem africana da qual gosto muito e que explica o que penso também sobre fazer Arte:

"Se você quer ir rápido, vá sozinho. Se você quiser ir longe, vá com outros!"

Ontem desenhei em meu caderno, além do corpo da modelo, toda a minha própria ventura de estar aqui...


A modelo, enquanto se preparava. Em primeiro plano, meu material de desenho. Logo atrás, a madeira que apoia o material do artista, já tão gasta de tanto uso

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Franz Hals, Rembrandt, Vermeer: mestres holandeses em busca da Luz

Vista de Delft, Jan Vermeer, óleo sobre tela, 98,5×115,7cm, 1660-61



Sintéticos; estudo minucioso e sistemático; pinceladas enérgicas; marcas evidentes do pensamento pictórico; soberano virtuosismo da técnica; domínio pleno do pincel; violentos contrastes de claro-escuro; apaixonada busca do movimento da Luz – assim poderíamos sintetizar o que foram esses três grandes mestres barrocos da pintura holandesa: Hals, Rembrandt, Vermeer.

O estilo Barroco, iniciado ainda na Itália renascentista, se espalhou por diversos países, e era o “espelho dos acontecimentos sociais, políticos, científicos, culturais e religiosos que agitaram profundamente o mundo europeu”, como fala a introdução do livro Barroco, da Visual Encyclopedia of Art. Acrescenta que a corrente inaugurada por Caravaggio impôs-se como uma revolucionária forma naturalista de pintar, e ele – Caravaggio – teve uma profunda influência sobre a arte holandesa, especialmente sobre os três pintores nos quais nos debruçamos neste texto. Havia diversos pintores "caravaggescos" em Utrecht, Holanda, que teriam trazido o estilo do mestre Caravaggio para os Países Baixos.

Após a Reforma protestante, iniciada pelos idos do século XVI com a publicação das 95 teses de Martinho Lutero, que se rebelava contra a doutrina da igreja católica, a Europa foi dividida, e pequenos países mais ao norte, como a Holanda, sofreram os efeitos dessa divisão. A Bélgica permaneceu católica, mas a região dos Países Baixos, que estavam sob o domínio de governantes católicos espanhóis, resolveu se rebelar contra seus governantes e sua religião oficial, aderindo ao Protestantismo.


Franz Hals: Dois meninos cantando
1625, óleo sobre tela, 76x52cm
Essa tendência “protestante” e rebelde foi evidente entre os pintores dos Países Baixos, como atesta Gombrich em seu livro A História da Arte. Lá, antes da Reforma, os pintores eram forçados a pintar sob a censura de cunho religioso. Com a Reforma, a pintura de retratos se desenvolveu. Mercadores e burgueses queriam ser pintados e levar seus retratos à posteridade, assim como agrupamentos sociais diversos, que solicitavam retratos em grupo. Isso garantia trabalho e condições de vida melhores aos pintores.

Nessa Holanda livre, surgem estes mestres. Eles seguiram o caminho dado pela arte barroca, que teve uma rápida difusão por causa “da própria natureza dos estilos de arte, que sempre refletem ou traduzem as constantes transformações históricas e sociais por que estão passando as coletividades humanas”, na observação de Carlos Cavalcanti em seu livro Conheça os Estilos de Pintura.

As forças econômicas e sociais se desenvolviam na Holanda protestante. Esse país teve um crescimento grande do comércio, num momento em que a burguesia industrial e mercantil ascendia na Europa, tornava-se mais rica e poderosa, preparando-se para tomar o poder, o que aconteceu com as revoluções após o século XVIII. O Barroco, uma forma de arte onde o movimento predomina, era a representação do próprio dinamismo da sociedade que começava a surgir a partir da ascensão da burguesia.

Em meios às grandes mudanças que ocorriam desde o início do século XVII, vivem Frans Hals, Rembrandt  van Rijn e Johannes Vermeer.

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FRANZ HALS


Franz Hals: Palhaço com o alaúde, 1623-1624,
óleo sobre tela, 70x62cm Museu do Louvre, Paris


Ele nasceu por volta de 1580 e era da mesma geração de Rubens, o pintor belga. Seus pais tinham abandonado o sul da região, por terem aderido ao protestantismo, e foram parar na cidade holandesa de Haarlem. Gombrich diz que se sabe muito pouco sobre a vida de Halz, a não ser que teve uma existência precária, sempre endividado.

Mas sua pintura é leve e é livre. A burguesia rica de Haarlem, onde ele vivia, queria ser pintada, queria celebrar suas conquistas cívicas e militares. Frans Hals era o pintor perfeito para representar esse espírito da época, onde a vida parecia boa. Ele pintava homens e mulheres cheios de vida, sorridentes. Nada em sua pintura tem rigidez; muito pelo contrário, séculos antes do Impressionismo ele deu vigorosas pinceladas sintéticas que definiam o que precisava ser definido em uma pintura, como podemos observar claramente em suas telas.


Franz Hals: Grupo dos membros do Hospital Santa Elisabeth de Haarlem,
1641, óleo sobre tela, 153×252 cm



Mas Hals pintou muitos retratos de pessoas das mais diferentes classes sociais: burgueses ricos, mercadores, militares, comerciantes, advogados, funcionários públicos, músicos, cantores de rua, pescadores que “renderam muito pouco dinheiro a Hals e sua família”, como observa Gombrich… Mas Hals dava a esses rostos o tratamento do velho mestre Caravaggio, ou seja, eles eram realistas. Ele sabia como usar a Luz como um dos valores fundamentais para dar expressão às suas pinturas. Seus retratos apresentam pessoas vivas, humanas, em seus olhares cheios de vida e simpatia. Franz Hals teria se deixado influenciar pelos pintores caravaggescos de Utrecht, quando ainda era um estudante no atelier de Carel Van Mander.

Dá a impressão, ao ver algum de seus quadros, que a pessoa que vemos lá parece ser de alguma forma bem familiar a nós. Porque Frans Hals tinha essa capacidade de captar o momento expressivo, e eternizar aquilo, resolvendo em poucas pinceladas, que podem ser perfeitamente observadas.


Franz Hals: A cigana, 1628-30, 58x52cm, 
óleo sobre tela, Museu do Louvre, Paris
Heinrich Wölfflin, estudioso alemão, diz em seu livro Conceitos Fundamentas de História da Arte que esse tipo de pintura feita por Hals não pretende que o caminho do pincel pareça invisível, quando, com isso, perderíamos “o melhor” da tela. Não, essas pinceladas enérgicas e evidentes podem dar ao observador a possibilidade de acompanhar o “pensamento” pictórico do artista e com isso podemos medir o arrojo e a perfeição com que o artista dominava sua arte.

Era comum, entre os pintores da época, inclusive Rubens, compor a pose de seus retratados para dar-lhes dignidade. Mas Franz Hals não; ele colhia aquele momento em pinceladas audaciosas, pintando um cabelo despenteado, uma manga enrugada, um rosto marcado por uma expressão momentânea.

Na velhice, pobre, Frans Hals passou a receber uma pensão do Asilo Municipal de Velhos, cuja Junta foi pintada por ele. Morreu já bem velhinho, com mais de 80 anos de idade.

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REMBRANDT VAN RIJN


Rembrandt: Autorretrato, 1658


Nasceu em 1606, sete anos após dois outros grandes pintores: Van Dyck, holandês, e Velázquez, espanhol. Era natural de Leiden, cidade que abrigava uma universidade. Conta-se que ainda criança ele abandonou os estudos para começar seu aprendizado como pintor.

Com 25 anos mudou-se para Amsterdam, onde estudou com Pieter Lastman, considerado o maior pintor de cenas históricas da Holanda. Lastman tinha vivido uns anos na Itália e havia conhecido as obras de Caravaggio. Com esses conhecimentos, Rembrandt voltou para Leiden onde abriu um atelier. Começou a sequencia de autorretratos que ele fez. Conta-se que ele usava dois espelhos para isso, e contorcia o rosto, criando expressões que ele pintava, em seu estudo pessoal. 

Também se sabe que ele dava grande importância ao teatro, e estimulava seus alunos a frequentarem eventos teatrais, para que estudassem os movimentos e as expressões dos atores em cena. Também diz-se que ele era um homem de profundas reflexões e sempre questionava o papel do pintor no mundo.

Rembrandt: Filósofo em meditação,
óleo sobre tela, 1632
Quando voltou a morar em Amsterdam, construiu rapidamente uma nova vida: tornou-se pintor de retratos, casou com uma moça rica, comprou uma casa, virou colecionador de obras de arte. Mas sua esposa morreu e ele, endividado, viu sua casa ser tomada pelos credores, assim como sua coleção de quadros.

Rembrandt pintou muitos autorretratos durante a sua vida, mostrando um rosto de “um ser humano real”, como observa Gombrich em A História da Arte. Não há sinal de que fizesse pose, ou que demonstrasse alguma vaidade com o próprio retrato, mas – continua Gombrich – “apenas o olhar penetrante de um pintor que examina atentamente suas próprias feições, sempre disposto a aprender mais e mais sobre os segredos do rosto humano”. Ele considerava uma pintura acabada “quando seu objetivo tinha sido alcançado”.


Rembrandt: Homem do capacete de ouro,
Gemäldegalerie, Berlim
Gombrich ressalta que, no interesse profundo que Rembrandt possuía em apreender a alma humana, “como Shakespeare, ele era capaz, por assim dizer, de penetrar fundo na pele de todos os tipos de homens, e saber como se comportariam em qualquer situação”.

Ele era sobretudo humano. As figuras representadas por ele são pessoas reais, com sentimentos que podem ser adivinhados. Ele era capaz de ver o mundo cotidiano da forma extraordinária que só o olhar aguçado do pintor possui. Um mundo que ele traduzia em massas de valores, de cores. Era o que ele fazia, assim como a escola que vinha desde Caravaggio: buscava a Luz, da qual foi mestre na observação, obtendo resultados que o colocam entre os maiores do mundo. 

Com isso, do fundo de telas onde o marron escuro predomina, surge uma figura humana, iluminada, grandiosa, muitas vezes salpicada com o dourado da luz que inunda tudo o que precisa ser inundado. A dramaticidade de muitos de seus retratos, inclusive seus próprio autorretratos, é fornecida diretamente pela maestria com que ele dominava a gradação necessária da luz para trazer um rosto à vida, à observação.

Rembrandt, à “semelhança de Caravaggio, também atribuía à verdade e à franqueza um valor mais alto do que à harmonia e à beleza”. Ele, como outros pintores holandeses do século XVII, diz Gombrich, descobriram “a beleza pura do mundo visível”. Eles já não estavam mais subordinados a pintar temas grandiosos, ou figuras proeminentes. A liberdade que a religião protestante lhes dava abria para eles possibilidades infinitas, a partir da simples percepção do mundo real.

Rembrandt, mesmo velho e empobrecido, continuava buscando novas formas de expressão em sua pintura. Morreu em 1669. Gérard de Lairesse, outro pintor holandês do período disse de Rembrandt: “Ele era capaz de fazer tudo o que a arte e o pincel podem realizar”.


A noiva judia, Rembrandt, 1665-69, óleo sobre tela
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JAN VERMEER VAN DELFT


Moça com brinco de pérola, 1665,
Mauritshuis, Haia, Holanda
Ele nasceu em 1632 e quase nada se sabe de sua vida. Foi o segundo filho de Reynier Jansz, um comerciante de seda de Amsterdam. Depois que se casou, mudou-se para Delft, onde nasceu Vermeer. Lá, seu pai acabou trabalhando como negociante de arte e, com isso, mantinha relações com alguns pintores como Balthasar van der Ast, Pieter Steenwyck e Pieter Groenewegen. Eles podem ter sido a primeira influência recebida por Vermeer, que foi admitido como mestre na Guilda de São Lucas em 1653, uma espécie de organização de pintores, vidreiros e comerciantes de arte, além de outros profissionais artesãos. Sabe-se que para ser aceito nessa Guilda, a pessoa tinha que ter passado seis anos como aprendiz de algum artista reconhecido. Também fala-se que ele teria sido aluno de Carel Fabricius, um dos aprendizes de Rembrandt.

O Geógrafo, 1668-69
Vermeer casou-se em 1653 com Catharina Bolnes, cujos pais tinham uma boa situação financeira. Vermeer era calvinista e sua esposa católica. Por causa da rejeição da mãe dela ao casamento, fala-se que ele teria se convertido ao catolicismo e, em certo sentido, se rendido aos costumes da família de Catharina, com quem logo tiveram que ir morar. O casal teve 15 filhos, sendo que quatro morreram ainda bem novos.

Mas sabe-se muito pouco de sua vida e, olhando para suas pinturas o problema de saber quem era esse homem é ainda mais acentuado. Ele produziu muito pouco, em torno de 35 quadros, que ele pintava de forma lenta, metódica. Possuía uma incrível capacidade para sugerir formas e texturas, comunicando o máximo com o mínimo de pinceladas.

Sua metódica postura de estudioso mostrava a sua verdadeira paixão pelos efeitos provocados pela luz. “A característica mais notável de Vermeer é a qualidade da luz”, disse o crítico de arte francês do século XIX, Théophile Thoré.
Mas seu trabalho como pintor, nem de longe era suficiente para o sustento de sua grande família. Por isso, ele tinha uma segunda ocupação que parece ter sido a de negociante de arte, como seu pai, ganhando seu sustento vendendo os quadros dos outros mais do que os seus próprios. Mesmo assim ele sempre que precisava preencher algum formulário que lhe indagava sobre sua profissão, não titubeava e escrevia: “pintor”.


A carta de amor, 1669-70
A cada ano que passava, a situação de vida de Vermeer e sua família piorava. Tinha que recorrer frequentemente a empréstimos, o que aumentava mais suas dívidas. Em 1672 estourou a guerra entre a Holanda e a França, sendo que os soldados franceses avançavam em direção ao norte da Holanda. Os holandeses, para resistir à invasão francesa, romperam os diques, e extensas áreas de terra foram alagadas, incluindo uma parte de terra que pertencia à família de Catharina e que era uma fonte regular de renda para os Vermeer. Para piorar, ele não conseguia vender mais nenhum quadro. Anos depois sua esposa disse que por causa dessa guerra e das despesas grandes da família, eles se endividaram imensamente e com isso Jan Vermeer “caiu numa tal depressão e letargia que perdeu a saúde no espaço de um dia e meio e morreu”. Foi enterrado no dia 15 de dezembro de 1675, numa sepultura familiar, em Delft, cidade que ele nunca deixou.

Parece que, ainda em vida, Vermeer era muito conhecido pelos seus contemporâneos e apreciado como artista. Em 1696 houve um grande leilão que incluía quadros dele, cujos preços eram os mais altos de todos os outros artistas, o que demonstra sua popularidade como pintor.


Senhora escrevendo uma carta e sua criada, 1670
A pintura de Vermeer parece possuir uma certa intemporalidade. Sua forma de pintar é, por vezes, quase cristalina. Mas nessa quietude e luminosidade que invade espaços sombrios, podemos observar que ele se aproxima do “tenebrismo” de Caravaggio. Em sua época, a chamada pintura histórica, em voga, incluía os acontecimentos da Antiguidade Clássica, mas também os mitos e lendas de santos, e os temas bíblicos. Mas na segunda metade de 1650 ele voltou sua pintura para as cenas domésticas.

Nenhum dos quadros da fase de "pintura de gênero" representa uma cena muito importante, do ponto de vista temático. A maioria representa pessoas simples, dentro de suas casas, em geral solitárias, costurando, tocando algum instrumento, lendo cartas, estudando. Sua verdadeira obsessão era a Luz, que invadia os ambientes através de janelas abertas, muitas vezes janelas de vidro, como a dizer que ao abrir-se para o mundo, nada pode impedir que a luz tome conta e banhe tudo de cor. E com isso todos os objetos e figuras humanas compõem um conjunto inseparável.

Vermeer usava também cores brilhantes, assim como o azul intenso que aparece em diversas de suas obras. Nada se sabe sobre desenhos, estudos preparatórios. Mas sabe-se que ninguém no século XVII utilizou, como ele, de forma tão exuberante, o pigmento que era dos mais caros na época: o lápis-lázuli, o ultramarino natural. Mas também usava os terras e ocres de forma luminosa. Podemos dizer que Vermeer pintava com a luz, seu objeto de perseguição e de desejo era a luz. Ele tinha estudado textos de Leonardo da Vinci que diziam que um objeto sempre reflete a cor do objeto adjacente e por isso nenhum objeto é visto puramente em sua cor local. Ele foi também o grande mestre da composição, empregando divisões equilibradas das superfícies e tinha domínio perfeito da perspectiva. Para ele a geometria tinha um papel importante na composição.

Talvez por nunca ter saído de sua cidade natal, Delft, Vermeer se manteve desconhecido até o século XIX. O pintor realista francês Gustave Courbet foi exatamente buscar a fonte de sua inspiração na obra dos pintores holandeses, dos mestres que mostravam o mundo, mesmo em suas cenas cotidianas, com a riqueza do tratamento da síntese que absorviam do real. Um desses mestres descobertos por ele era Johannes Vermeer.
A arte da Pintura, 1665-1666, Jan Vermeer, óleo sobre tela, 120x100 cm,
Kunsthistoriches Museum, Viena, Áustria
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