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sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Artistas negros na Pinacoteca

"Bandeira do Divino", Firmino Monteiro (Rio de Janeiro, 1855-1888),
óleo sobre tela, 1884, 89 x 146 cm - acervo da Pinacoteca
 
A Pinacoteca do Estado de São Paulo irá inaugurar amanhã, 12 de dezembro, a exposição “Territórios: Artistas Afrodescendentes no Acervo da Pinacoteca”. Este evento faz parte da comemoração dos 110 anos da instituição e com isso traz ao público importantes obras assinadas por artistas brasileiros afrodescendentes, valorizando o legado deixado por eles.


Ao lado disso, a Pinacoteca pretende mostrar uma parte de sua contribuição artística para a historiografia da arte brasileira introduzida na gestão de Emanoel Araújo (1992 - 2002), primeiro diretor negro da Pinacoteca do Estado. Por isso apresenta parte do núcleo de artistas afrodescendentes da Instituição, acrescida de novas aquisições.

São 106 obras entre pinturas, gravuras, desenhos, esculturas e instalações que traçam perfis diferentes da produção artística de afrodescendentes no Brasil do século XVIII até hoje. As obras estão divididas em três conjuntos e dispostas de acordo com a familiaridade dos temas ou territórios: Matrizes Ocidentais, Matrizes Africanas e Matrizes Contemporâneas.

Entre as obras na exposição, se destaca o "Autorretrato" de Arthur Timótheo da Costa, feito em 1908 e doado em 1956. Demorou 51 anos, após a inauguração da Pinacoteca, para que esta instituição adquirisse a primeira obra de um artista negro! As razões são óbvias, pois o racismo, que ainda persiste no Brasil, era ainda pior...

Além deste, Mestre Valentim, Antonio Bandeira, Rubem Valentim, Jaime Lauriano e Rosana Paulino também estão entre os artistas que compõem a mostra. Além das obras do acervo, a Pinacoteca também traz obras dos novos artistas negros contemporâneos.

A exposição ficará aberta ao público até 17 de abril de 2016 no quarto andar da Estação Pinacoteca.

Pinacoteca do Estado de São Paulo - Estação Pinacoteca
Largo General Osório, 66
De terça a domingo das 10 às 17h30
Ingressos a R$6,00 (inteira) e R$ 3,00 (meia)

"Autorretrato", Arthur Timótheo da Costa (Rio, 1882–1923),
óleo sobre tela, 1908, 41 x 33 cm, Acervo da Pinacoteca 
"Natureza-morta", Estêvão Silva (RJ, 1845-1891),
óleo sobre tela, 1888, 37 x 48,5 cm, Acervo da Pinacoteca
"Vista da cidade de Itú", Miguelzinho Dutra (Itu, SP, 1810-1875),
aquarela e nanquim sobre papel, 
1851, 49,2 x 74,5 cm, Acervo da Pinacoteca
Sem título, Miguelzinho Dutra (Itu, SP, 1810-1875) tinta ferrogálica sobre papel,
20,3 x 16,6 cm, Acervo da Pinacoteca
Sem título, da série "Para tampar o sol de seus olhos", Paulo Nazareth,
(Ba, 1977-),fotografia,  impressão digital sobre papel de algodão, 
2010,
69 x 180 cm, Acervo da Pinacoteca
"Antes que eu me esqueça", Flávio Cerqueira, 2013, escultura pintada
com tinta eletrostática sobre bronze, espelho e madeira

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Paisagistas ingleses na Pinacoteca

"Destruição de Pompeia e Herculano", John Martin
A Pinacoteca do Estado de São Paulo está apresentando, desde 18 de julho, a exposição "A Paisagem na Arte: 1690-1998", com artistas ingleses cujos quadros fazem parte da coleção do Tate Britain de Londres. É uma parceria entre a Pinacoteca e o Tate, considerado o mais antigo museu de arte do mundo.

Com curadoria de Richard Humphreys, a mostra apresenta mais de 100 obras de artistas paisagistas clássicos do século XVIII, assim como românticos, pré-rafaelitas e impressionistas do século XIX até os pioneiros modernistas do século XX e contemporâneos das últimas décadas.

Fui ver esta exposição no fim de semana, mas confesso que me decepcionei um pouco. Esperava ver mais obras de William Turner, este, sim, o grande paisagista inglês. Tem apenas duas ou três telas a óleo dele e mais umas três aquarelas. Assim como uma única paisagem de John Singer Sargent, que foi mais pintor retratista. E de John Constable, também somente dois ou três trabalhos.

Mas foi bom ter visto que a Pinacoteca estava cheia de gente, a entrada era gratuita no sábado. As pessoas têm muito interesse em ver obras de arte, como pode ser verificado a partir da quantidade enorme de pessoas que têm ido à Pinacoteca, ao CCBB-SP, ao MIS, ou a qualquer outro espaço cultural onde esteja ocorrendo uma exposição de arte, nestes últimos anos. Com tendência a crescer.

Mas esta exposição dos ingleses paisagistas traça o desenvolvimento de uma das maiores contribuições da Grã-Bretanha para a arte europeia que foi a pintura de paisagem. Entre os destaques estão obras de William Turner (1775-1851), John Constable (1776-1837), Ben Nicholson (1894-1982) e Richard Long (1945). A mostra está dividida em nove setores que vão de 1690 a 1998. O texto de divulgação no site da Pinacoteca apresenta esta seguinte ordem:

1 - Descobrindo a Grã-Bretanha - Nesta sessão, é possível observar o crescimento do interesse pela paisagem natural da Grã-Bretanha durante o século XVIII, em um momento em que o fascínio e o orgulho pelo país natal andavam de mãos dadas com o entusiasmo pelas descobertas de exploradores, naturalistas, comerciantes e imperialistas à medida que o Império Britânico se expandia pelo mundo. As Ilhas Britânicas eram “descobertas” da mesma maneira que as distantes terras exóticas.

2 - Sonhos pastorais - O termo “pastoral” define uma gama complexa de formas artísticas e literárias que surgiram a partir do período clássico. Duas obras de Thomas Gainsborough (1727-1788) poderão ser vistas nesta sessão: em uma delas, um cavalheiro toca um instrumento em um mundo ideal, na outra, um paraíso completamente imaginário de pastores de vacas com seus satisfeitos rebanhos.

Pinacoteca de São Paulo
3 - A visão clássica - Nesta sessão, será possível conferir obra de Joseph Mallord William Turner (1775-1851), talvez o maior paisagista britânico de todos os tempos, que também aplicava princípios clássicos tanto em cenas italianas quanto em panoramas nativos. Nesta época, as paisagens clássicas eram tão celebradas pela aristocracia britânica, que muitas propriedades foram reformadas com o objetivo de incorporar nelas as suas características visuais e arquitetônicas.

4 - Romantismo - O romantismo compreende um vasto leque de formas culturais que surgiram em toda a Europa entre os anos 1770 e 1830. As grandes mudanças históricas do período, tais como a Revolução Francesa, a Revolução Industrial e a ascensão do nacionalismo, constituem o contexto turbulento em que o romantismo se desenvolveu. As artes topográfica, clássica e pastoral influenciaram a pintura romântica inglesa, mas no começo do século XIX ela encontrou uma forma própria de expressão. 

5 - Fidelidade à natureza - As pinturas desta seção têm relação com a ideia de fidelidade à natureza e representam uma rejeição de muitos aspectos do romantismo. A prática de fazer desenhos de observação da natureza ao ar livre popularizou-se entre os artistas profissionais e amadores no final do século XVIII e foi um dos pilares daquilo que se tornou conhecido como “pitoresco”.

6 - Impressionismo - O impressionismo foi um movimento radical da arte francesa nas décadas de 1860 e 1870. A arte experimental francesa do século XIX nasceu de um debate sobre o valor do esboço em relação à pintura terminada e acerca do poder das instituições acadêmicas sobre a formação artística e as exposições de arte. Desde o começo daquele século, muitos artistas franceses haviam admirado a pintura de paisagem britânica em razão de seu frescor antiacadêmico. Os vínculos entre a arte britânica e a francesa eram variados e complexos, e artistas de ambos os países cruzavam com frequência o Canal da Mancha.
Paisagem de John Constable
7 - Redescobrindo a Grã-Bretanha - No começo do século XX a pintura britânica englobava um leque diversificado de abordagens. O impressionismo, outrora ridicularizado, tornara-se um estilo estabelecido e dono de um mercado forte, enquanto outros artistas continuavam pintando nos estilos pré-rafaelita, simbolista e social-realista. Nesta sessão, será possível conferir John Dickson Innes (1887-1914) e seu o desejo de fazer experimentações mais radicais de forma e cor em suas paisagens.

8 - Um novo romantismo - Muitos artistas neoromânticos foram empregados como artistas oficiais de guerra no front interno durante a Segunda Guerra Mundial. Em suas pinturas de paisagem, figurando edifícios antigos e cidades arruinadas, eles criaram imagens que refletiam as emoções complexas que caracterizaram o período de guerra, como o terror, a euforia, a nostalgia e o escapismo.

9 - Novas paisagens, velhas paisagens - O neoromantismo foi sucedido por uma retomada da arte realista no começo da década de 1950. Já em 1960, no entanto, os artistas britânicos haviam começado a responder à arte e à cultura norte-americanas. A arte conceitual britânica das décadas de 1960 e 1970 também se interessava pela “noção de lugar”. Richard Long (1945) é um dos artistas desta sessão, criando uma arte paisagística híbrida e poética a partir da associação de mapas, textos e fotografias.

Os artistas presentes nesta exposição são: Século 18: Richard Wilson, George Stubbs, Thomas Gainsborough, Joseph Wright, Philip James de Loutherbourg, Francis Towne, John Mallord William Turner, Thomas Girtin; século 19: Joseph Mallord William Turner,  John Constable, John Sell Cotmann, Richard Parkes Bonington, John Martin, Samuel Palmer, Edwin Landseer, William Dyce, David Roberts, John Everett Millais, William Holman Hunt, John Brett, James Abbott McNeill Whistler, John Singer Sargent; século 20: Walter Sickert, Stanley Spencer, Augustus John, Paul Nash, David Bomberg, CRW Nevinson, Ben Nicholson, Christopher Wood, Graham Sutherland, John Piper, Edward Burra, Eric Ravilious, LS Lowry, Peter Lanyon, Frank Auerbach, David Inshaw.

"Montanhas de Moab", John Singer Sargent
"Dido e Eneas", de William Turner

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Ron Mueck e a condição humana


Viver nesta São Paulo dos dias de hoje - com os problemas hiperbólicos de uma metrópole repleta por milhões de pessoas - talvez faça com que todos busquemos formas as mais diversas para viver nossa humanidade, relegada ao segundo plano naqueles dias em que todos lutamos para sobreviver. Nestes dias, milhares de paulistanos buscaram as dezenas de blocos para dançar seu carnaval; outros milhares fugiram, como sempre, para o litoral ou o interior; outros, buscaram os parques, os passeios na avenida Paulista, os bares e restaurantes, as salas de cinema, as salas de teatro, os concertos musicais, as exposições de arte.


Porta do Inferno, Rodin, 1880-1890,
Bronze, 635 x 400 cm
Ontem (22/02) foi o último dia para ver a exposição de esculturas hiperrealistas do australiano Ron Mueck. A mostra bateu todos os recordes de público na Pinacoteca do Estado de São Paulo: 402.119 pessoas passaram por lá, desde 14 de novembro passado. Somente a mostra da “Porta do Inferno” do escultor francês Auguste Rodin, em 2001, tinha recebido tanta gente: 300 mil pessoas! Nesta mostra de Mueck, filas se formaram durante todos os dias. Segundo pesquisa feita pela diretoria de Relações Institucionais da Pinacoteca, 80% dos que visitaram esta exposição que terminou ontem, nunca tinham ido a um museu antes. A entrada era gratuita.


Também em São Paulo, o Museu da Imagem e do Som (MIS) recebeu 410 mil pessoas entre o mês de julho passado e o começo deste ano que foram ver uma outra exposição: “Castelo Rá-Tim-Bum - a exposição”.


Tudo isto quer dizer alguma coisa… Ou muita coisa!

Fiquei pensando, durante todos estes dias, após analisar algumas imagens das esculturas de Ron Mueck: não estamos diante de um trabalho de um artista que nos provoca reflexões sobre a nossa condição humana? Para mim, suas figuras solitárias e pensativas, descritas nos mais mínimos detalhes dos pêlos e rugas do corpo humano, me fazem refletir sobre a existência no mundo em que todos vivemos atualmente. Me faz pensar sobre a condição humana, e a minha. Me traz comparações do tipo: como sou pequena em meio à multidão que, por sua vez, é tão miúda diante do sistema dominante! Mas multidão sempre se torna grande em grandes momentos da história...


Esses seres gigantes ou pequenos de Ron Mueck (sempre fora da escala humana) são reconhecidos por todos, independente de origem geográfica ou cultural, como representações de seres humanos. Isso parece óbvio. Mas será que essa representação universal da humanidade mostra o Homem Universal, independente de contexto e história? Ou cada um que vê de perto essas esculturas - enormes ou pequenas - é capaz de passar além da admiração para a contemplação, e se olhar no espelho e refletir sobre sua própria condição? Por que 402 mil pessoas enfrentaram horas de fila para ver um casal de velhos enormes, pensativos, solitários em seu mundo interior? Ou para ver uma mãe gigante com olhar cansado sendo observada pelo seu bebê pendurado no seu colo? Ou um menino grande como um titã, agachado, como se se protegesse contra alguém ou alguma coisa?


São Paulo, São Paulo… Talvez seja o fato de morar em São Paulo o que me inspire esta interpretação. Aqui não vivemos nós todos como estátuas imensas ou minúsculas, trancadas cada uma dentro do seu próprio mundo, querendo buscar saídas e andando ao encontro das multidões que nos arranquem de nossos solipsismos? Encarar quatro horas numa fila? Isso não é nenhum problema, quando buscamos uma saída, uma janela aberta para outros mundos possíveis, outra percepção do mundo e da realidade. Isto a arte pode nos dar! 

Que bom que mais brasileiros estão descobrindo essa forma de se distrair do mundo do trabalho que nos suga até a última gota! E o que é “distrair”? De certa forma é esquecer da rotina, do corre-corre, é buscar o foco em outro ponto, mesmo que seja o de se admirar com a performance técnica do autor das esculturas hiperrealistas… E entre um espasmo de espanto e outro, diante da técnica, mesmo que seja por um segundo apenas, se ver refletido nos olhos ou até na barba mal feita do artista que escancara nossa condição humana… Ou se ver, de repente, como aquele homem completamente nu sentado dentro de um barco velho e lembrar da frase do poeta português que diz que “navegar é preciso, viver não é preciso”...


Durante os últimos dias da exposição, na frente da Pinacoteca, um garoto-ator, contratado por uma organização que cuida de crianças de rua, estava de cócoras - como o garoto de Mueck - sobre um cartaz que perguntava algo como: “você se importa com seres humanos reais?” Talvez alguém, entre os que estavam na fila, tenha se incomodado com a pergunta e se perguntado porque estava ali para ver pessoas de fibra de vidro e silicone, sendo que em nossas ruas sujas do centro temos tantos espécimes reais, velhos e novos, ao gosto do freguês e para quem quiser ver. 

Mas quem quer ver hordas de zumbis noiados de crack, famílias inteiras famintas e imundas, quadrilhas de moleques pardos ameaçadores, bandos de gente sem casa e sem destino? Isso já vemos todos os dias! Isso é o nosso Real, que carregamos todos os dias em meio ao trânsito, aos ônibus insuficientes, às procissões imensas e diárias dentro dos buracos do metrô, representações reais e bem humanas da vida de gado que levamos neste sistema que nos domina… Esta é nossa condição humana atual. Aquela, a do Mueck, é a que nos distrai do dia a dia e nos faz esquecer, um pouco, da vida que corre lá fora; ao mesmo tempo, nos mostra a vida que corre dentro de nós… Arte é para isso.

Arte é para nos fazer pensar. E pensar incomoda. A arte incomoda. Nos tira do mundo pequeno da existência e nos atira no mundo grande da vida. Vida é movimento. Arte é movimento. Movimentos...


terça-feira, 12 de agosto de 2014

Arte no Brasil: uma história na Pinacoteca de São Paulo

pinacoteca-sp

A Pinacoteca de São Paulo apresenta uma nova exposição de longa duração intitulada “Arte no Brasil: uma história na Pinacoteca São Paulo”, com obras do seu acervo, que é bastante rico.
Segundo o texto informativo da exposição, o objetivo desta mostra “é oferecer ao público uma leitura da formação da visualidade artística e da constituição de um sistema de arte no Brasil do período colonial até meados dos anos 1930, centrada nas obras que compõem o acervo do museu”.
Em ordem cronológica, a exposição se organiza sobre dois eixos temáticos: a formação de um imaginário visual sobre o Brasil – o conjunto de imagens sobre ele, suas relações e sentidos que produzem; e a formação de um sistema de arte no país – ensino, produção, mercado, crítica e museus – iniciado com a vinda da Missão Artística Francesa, a criação da Academia Imperial de Belas Artes e do programa de pensionato artístico.
Nesta exposição poderão ser vistas cerca de 500 obras entre pinturas, esculturas, desenhos, gravuras e fotografias, “de autoria de artistas fundamentais para a história da arte brasileira daquele período, como Debret, Taunay, Facchinetti, Almeida Junior, Eliseu Visconti, Pedro Alexandrino, Candido Portinari, Lasar Segall, entre outros”, anuncia a Pinacoteca. Destas, cerca de 300 obras passaram por processo de restauração feito inteiramente pela equipe técnica do museu. O espaço expositivo também foi totalmente readequado, incluindo troca de piso e dos sistemas de abertura das portas, e aprimoramento dos sistemas de climatização, iluminação e segurança.
No total, são 11 salas para esta exposição.
Informações:
ARTE NO BRASIL: UMA HISTÓRIA NA PINACOTECA DE SÃO PAULO
Até dezembro de 2015
Horário de visitas:
Terça a domingo das 10h às 17h30 com permanência até as 18h
Às quintas até as 22h.
Grátis às quintas, após às 17h e sábados o dia todo.
Pinacoteca do Estado de São Paulo 
Praça da Luz, 02 – Luz – Tel. 11 3324-1000

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Antonio Parreiras, pinturas e desenhos

Antonio Parreiras
Uma única sala da Pinacoteca está trazendo uma pequena exposição do pintor fluminense Antônio Parreiras. São somente 20 trabalhos realizados entre 1887 e 1929, com obras que pertencem aos acervos da Pinacoteca de São Paulo e Museu Antonio Parreiras. Neste ano, esse museu completou 71 anos de existência e é o primeiro dedicado à obra de um só artista.

Antônio Diogo da Silva Parreiras é considerado um dos principais paisagistas brasileiros do período entre o final do século 19 e o começo do século 20. A exposição, pequena, apresenta cinco desenhos dele, “raramente expostos” como diz o texto de divulgação da Pinacoteca, e 16 pinturas de paisagens, marinhas, casarios e figuras.

Ventania
Antônio Parreiras nasceu em Niterói, Rio de Janeiro, em 1860. Iniciou seus estudos em 1883, na Academia Imperial de Belas Artes, tornando-se aluno do pintor de paisagem Georg Grimm. Após dois anos, junto a outros colegas, abandonou a Academia quando esta proibiu que seu mestre desse aulas de pintura ao ar livre. Sob a orientação de Grimm, o grupo pintava paisagens da praia da Boa Viagem, em Niterói.

Em janeiro de 1885, em seu ateliê em Niterói, Parreiras fez sua primeira exposição. Inaugurava, dessa forma, uma série de exposições individuais que foram acontecendo, no Rio, em São Paulo, no Pará, no Amazonas e no Rio Grande do Sul. Antonio Parreiras fez diversas viagens de estudo por diversas partes do país.

Ao mesmo tempo, os críticos o acusavam de falta de técnica no desenho da figura humana. Em resposta, ele resolve viajar para a Europa, indo em busca do aperfeiçoamento técnico. Primeiro na Itália, passa por Gênova e Roma mas passa uma temporada maior em Veneza, onde se matriculou na Academia de Belas Artes, estudando com Filippo Carcano. Volta ao Brasil em 1890 e inscreve alguns trabalhos na Exposição Geral de Belas Artes daquele mesmo ano e pela primeira vez fez uma pintura histórica, sob encomenda.

Casas em Piana, 1915
Mas sua atração maior era a paisagem. Pintou florestas tropicais, a flora e a fauna locais, marinhas e cenas do campo. Isso o transformou em um dos principais paisagistas do Brasil.

Em 1906 viajou novamente para a Europa e se estabeleceu em Paris. Lá, em 1909, inscreveu a pintura de um nu “Fantasia” no Salon de la Societé Nationale de Beaux Arts, que foi muito bem recebida.  Indo e voltando algumas vezes do Brasil à França, ele foi se tornando conhecido também na Europa.

Durante a década de 1920 pintou poucas paisagens, mas fez algumas pinturas históricas. Em 1926 lança o livro Biografia de um Pintor contada por ele mesmo. Conforme ele ressalta em sua autobiografia, Parreiras realizou em aproximadamente 55 anos de trabalho, mais de 850 pinturas, das quais 720 em solo brasileiro. Fez 39 exposições no Rio de Janeiro e em vários outros estados do Brasil.

Antônio Parreiras faleceu em Niterói em 1937. Seu ateliê foi transformado no Museu Antonio Parreiras a partir de 1941.

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Serviço:

ANTÔNIO PARREIRAS, PINTURAS E DESENHOS
Pinacoteca de São Paulo
De 6 de outubro a 3 de março de 2013
Praça da Luz - Estação da Luz
SP
Amanhecer no Adriático, 1889

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Grandes exposições em 2012

Desde outubro de 2011, inúmeros eventos marcam o Ano da Itália no Brasil, com espetáculos artísticos e culturais que vão desde apresentações de teatro, arte, música, feiras, festas, esportes e cinema, que marcam as profundas relações culturais entre os dois países.


O Brasil possui mais de 30 milhões de descendentes de italianos, que moram sobretudo em São Paulo, que será um dos grandes palcos desses acontecimentos artísticos e culturais. Mas a programação do Momento Itália-Brasil não se restringe a São Paulo: estará presente em todo o Brasil, como mostra esta Programação (clique aqui para abrir o arquivo em PDF).


Destacamos dois grandes eventos, entre outros (mostras dos artistas Eliseu Visconti, Amadeo Modigliani, De Chirico, Maria Bonomi, etc):


1 - Roma – A Vida e os Imperadores
Cícero, arquivo da Galeria
Uffizi


No MASP, em São Paulo, a partir de 25 de janeiro.


Essa exposição (que já passou por Belo Horizonte) pretende recontar a trajetória do povo e dos imperadores romanos no período tardio da República e primeiros séculos do Império Romano por meio da arte, da arquitetura triunfal, das cerimônias de poder, da vida cotidiana, das célebres conquistas e da opulência do Império. É a primeira vez que esse acervo sai de instituições da Itália como o Museu Arqueológico Nacional de Florença, o Museu Nacional Romano, o Museu Nacional de Nápoles, o Antiquário de Pompéia, o Museu Arqueológico de Fiesole e a Galeria Uffizi.


O curador, Guido Clemente, professor de História Romana da Universidade de Florença, escolheu privilegiar o ponto de vista do exercício do poder por parte dos imperadores de Roma. A variedade das peças trazidas ao Brasil permite ao visitante visualizar um pouco como foi o mundo do império romano em seus diversos aspectos, desde o poder do Imperador até aspectos da vida social e familiar, da escravidão, da economia, da religião, do trabalho, das moradias.


Baixo-relevo com Vendedor de Travesseiros,
da Galeria Uffizi
Lá estarão expostas três paredes com afrescos da Vila de Pompéia, estátuas de Júpiter, de Lívia (esposa de Augusto) e da deusa Isis, a Cabeça Colossal de Júlio César em mármore, máscaras teatrais, escultura de Calígula, Armadura de Gladiador, desenhos do Coliseu, a Lamparina de Ouro e cerca de 60 joias.


Roma - A Vida e os Imperadores foi estruturada em ordem cronológica. O ponto de partida é o processo de estabelecimento do Império, período revivido por meio da vida e obra de César e Augusto, seus fundadores, e o destino final é o terceiro século, considerado o apogeu do domínio de Roma.


São quatro as divisões da exposição:
1. Entre César e Augusto: o nascimento do Império
2. Nero
3. O apogeu do Império
4. Um Império multicultural


No total são 370 peças e obras originais do período tardio da República e primeiros séculos do Império Romano. 


Local:  1º  e 2º subsolos do MASP (Avenida Paulista, 1578).


2 - Caravaggio e os Caravaggescos


Narciso, Caravaggio
Como já havíamos anunciado antes aqui neste Blog, a exposição Caravaggio e os Caravaggescos trará ao Brasil um conjunto de 24 pinturas nunca antes vista por aqui, que percorrerá os estados de Minas Gerais e São Paulo.


A mostra contará com oito obras do mestre do Barroco italiano, Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571-1610), e mais 16 pinturas realizadas por seus seguidores, os chamados “caravaggescos”. 


São eles: Giovanni Baglione (1573-1644), Orazio Gentileschi (1563-1639), Artemísia Gentileschi (1597-1652), Carlo Saraceni (1579-1620), Mattia Preti (1613-1699), Bartolomeo Cavarozzi (c. 1590-1625), Giovanni Antonio Galli conhecido como Spadarino (1580-1650), Tomaso Salini (1575-1625), Giovanni Serodine (1600-1631), Giuseppe Vermiglio (c. 1585-c. 1635), Niccolò Musso (1580/90-c. 1622) e Lionello Spada (1576-1622).


São Francisco em meditação,
Caravaggio
De 03 de abril a 03 de julho de 2012:


Casa Fiat de Cultura
Rua Jornalista Djalma Andrade, 1250 - Nova Lima MG
+55 31 3289.8900 | Fax +55 31 3289.8920
www.casafiatdecultura.com.br
Terça a sexta das 10 às 21hs | sábados domingos feriados das 14 às 21hs


De 12 de junho a 19 de agosto de 2012:
Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand – MASP
Av. Paulista, 1578 - São Paulo SP
+55 11 3251.5644 | Fax +55 11 3284.0574
masp.art.br
Terça a domingo das 11 às 18hs | quinta das 11 as 20hs




São João Batista, Caravaggio
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Além destas, outras exposições estão sendo programadas para 2012:

1. Portinari - Memorial da América Latina - exposição dos murais “Guerra” e “Paz”
6 de fevereiro a 21 de abril


2. Índia - CCBB
Mais de 300 peças que tratam da religiosidade indiana, da vida de sua população, da formação da Índia moderna. (Esta exposição está atualmente no CCBB do Rio de Janeiro)


3. Alberto Giacometti - Pinacoteca
Primeira exposição retrospectiva no Brasil com cerca de 70 esculturas, de vinte a trinta pinturas, 60 a 80 obras sobre papel e trinta fotografias provenientes da Fondation Giacometti e outras coleções.
De 26 de março a 17 de junho (vai também para Curitiba, Rio de Janeiro e Porto Alegre)


4. Giorgio de Chirico - Masp
De 19 de junho e 20 de setembro.
45 pinturas e onze esculturas produzidas entre os anos 60 e 70, além de 66 litografias de 1930, apresentadas juntas pela primeira vez. A exposição passará por Belo Horizonte e Porto Alegre.


5. Homenagem a Lina Bo Bardi - Casa de Vidro
A arquiteta recebe homenagem no segundo semestre de 2012. 15 nomes estão confirmados, entre eles o holandês Rem Koolhaas, o brasileiro Cildo Meireles, o argentino Adrian Villar Rojas, o estadunidense Arto Lindsay, o francês Dominique Gonzalez-Foerster e o inglês Norman Foster.


6. II Bienal de Graffiti - Mube
Entre setembro e outubro de 2012, com artistas nacionais e internacionais, contando a história do graffiti no Brasil e no mundo, influências recebida de movimentos artísticos do século XX e tendências atuais

domingo, 4 de dezembro de 2011

Eliseu Visconti, a Modernidade antecipada




Essa pintura acima e muitas outras farão parte da próxima grande exposição organizada pela Pinacoteca do Estado de São Paulo: "Eliseu Visconti - a modernidade antecipada". Esta exposição é parte da programação do Ano da Itália no Brasil, iniciada em outubro.

Serão cerca de 250 obras, entre pinturas, desenhos, cerâmica e documentos. Esta exposição celebra o ano da Itália no Brasil, que teve início em outubro deste ano e que conta com uma programação rica de eventos que expressam a Cultura dos dois países. Entre os grandes nomes da pintura que estarão aqui no Brasil em 2012, está o de Caravaggio, pintor barroco italiano, como já anunciamos aqui.



A última exposição retrospectiva de Visconti (que nasceu em Salerno, Itália, em 1866 e morreu no Rio de Janeiro, em 1944) foi realizada em 1949 no Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro. Esta mostra trará, então, toda a produção de Visconti, que é difícil de ver hoje em dia, pois muitas de suas obras são guardadas em coleções particulares. "Esta mostra tem por propósito recuperar a obra de Visconti, situando-o como grande expoente da arte brasileira no período crítico da primeira República”, é o que diz um dos curadores, Rafael Cardoso.
A exposição será organizada em períodos e temas desenvolvidos por Visconti, entre 1888 e 1944. São pinturas de Paisagem, Retratos, Nus, com destaque para a importante produção do artista nas vertentes Simbolista e Impressionista, estilos em que é reconhecido como um dos maiores mestres da arte brasileira. Também estarão expostos 
cerca de 25 auto-retratos, incluindo cenas de Visconti com a família. 



Eliseu Visconti foi, entre as décadas de 1890 e 1920, um dos artistas mais importantes do Brasil e um dos que mais participou de exposições estrangeiras, conquistando prêmios na França, nos Estados Unidos e no Chile. “A carreira artística de Visconti desenrolou-se no momento fundamental da história brasileira que se estende desde os últimos anos do Segundo Reinado até a Segunda Guerra Mundial. Ele pertence a uma geração que fez, em vida, a ponte entre o Brasil imperial e o Brasil moderno. Hoje sua obra integra as principais coleções particulares e públicas do país." É o que diz a também curadora da mostra Mirian Seraphin, que acrescenta que "há exatos 100 anos – no mês de dezembro de 1911 –, quatro obras, 'A Providência Guia Cabral' (1899), 'Maternidade' (1906), 'A Carta' (1906) e 'Retrato da Minha Filha' (1909), de Eliseu Visconti foram expostas pela primeira vez no prédio que hoje abriga a Pinacoteca do Estado de São Paulo, antes Liceu de Artes e Ofícios, na Primeira Exposição Brasileira de Belas Artes”.


Vale muito a pena ir visitar essa exposição com a obra de Eliseu Visconti.


ELISEU VISCONTI - A MODERNIDADE ANTECIPADA
Local: Pinacoteca de São Paulo
Praça da Luz, 2
de 10 de dezembro de 2011 a 26 de fevereiro de 2012
De terça a domingo, 10h às 17h30
Ingresso: R$ 6 reais (meia-entrada R$ 3,00)

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Os números da exposição de Escher e de museus brasileiros


Centro Cultural Banco do Brasil, São Paulo

Há dois meses, a revista britânica The Art Newspaper divulgou o resultado de uma pesquisa anual sobre o número de visitas a museus e exposições de arte mais visitados do mundo. Pela primeira vez, o Brasil ganha destaque entre as exposições e museus mais visitados do mundo, como a exposição “O Mundo Mágico de Escher” que atingiu um milhão de visitantes, somando Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo.


CCBB, Brasília
Esta notícia é realmente surpreendente, mas – pode-se dizer – previsível, dentro do novo quadro político e social que atravessa o Brasil, desde que surgiu como uma das potências que crescem no mundo de hoje. O Brasil pós-presidente Lula, é o país onde o desemprego diminuiu, onde mais de vinte milhões de brasileiros tiveram alguma ascensão social, onde vemos aeroportos lotados de gente que “nunca antes na história deste país” tinha viajado de avião.


E é também, agora, o país onde seus museus passam a ser os mais frequentados do mundo!


Museu de Arte de São Paulo
As informações sobre o Brasil foram fornecidas pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram/Ministério da Cultura) à revista inglesa The Art Newspaper, especializada em artes. Claro está que o Museu do Louvre de Paris, o British Museum de Londres e o Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque ocupam os três primeiros lugares, mas o Centro Cultural Banco do Brasil ocupa o 14º, à frente de museus como o Reina Sofia de Madri e o Tate Britain de Londres, só para ficar em dois exemplos.


Nosso país agora também é reconhecido como detentor de cinco dos museus de arte mais visitados do mundo: os CCBB do Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo, o MASP e a Pinacoteca do Estado de São Paulo.


Pinacoteca de São Paulo
Essa pesquisa tem uma importância que não pode ser desprezada e só demonstra – mais uma vez – a altíssima importância que a Arte tem para as pessoas. Mesmo que apenas São Paulo, Rio e Brasília se destaquem nesse cenário mundial, é preciso reconhecer que os números da economia brasileira, favoráveis à prosperidade econômica de mais pessoas, sejam responsáveis pelo fato de que verdadeiras multidões queiram ir a museus e exposições, buscar preencher sua alma com o imenso prazer estético que as artes podem dar... Sim, o povo brasileiro é um povo que aspira crescimento econômico, mas aspira também a ver seu direito básico do acesso à cultura e às artes, garantido, incentivado, realizado!


Mais uma vez é preciso dizer que o governo brasileiro precisa – com urgência cada vez maior, dada a extrema importância das artes – investir mais do seu orçamento no setor! Fruição de Arte – da boa arte – não é um bem supérfluo ou destinado apenas aos endinheirados, ou a essa elite que se julga a única capaz de se emocionar com a 9ª Sinfonia de Beethoven ou com a música de Bach; ou com os quadros de Caravaggio, Rembrandt, Rubens, Cézanne; ou com as esculturas de Michelangelo, Bernini, Aleijadinho; ou com o teatro de Shakespeare, Molière e Artaud; ou com a literatura de Dostoievski, Goethe, Dante Alighieri, Balzac, Victor Hugo, Kafka; ou com a poesia de Camões, Walt Whitman, Fernando Pessoa, Carlos Drumond de Andrade...


Para não esquecer dos "pequenos": Museu Histórico e
Artístico de São Luís do Maranhão
Mais uma vez: é Direito do cidadão e Dever do Estado o acesso à Cultura. Mais uma vez: a crescente privatização – que se vê – desses espaços de produção, fruição e consumo de arte, é prejudicial à democratização do acesso a elas, e precisamos ampliar cada vez mais as filas dos brasileiros nas portas de teatros, cinemas, casas de show, centros culturais, museus, bibliotecas!


Não podemos esquecer que o Brasil possui quase três mil municípios que não têm um único centro cultural, um único museu! E que, por esse e por inúmeros outros motivos, o Estado brasileiro precisa investir em Arte, e apoiar os artistas. 


Há milhões de músicos, atores, palhaços, cantores, cantadores, poetas, escritores, pintores, escultores, produtores de cultura espalhados por este imenso país sonhando com o dia em que a sua obra seja exposta de algum jeito à fruição pública e que ele – artista – veja que todo o esforço diário sobre o cavalete, o livro, a lona, o palco, a caneta... não foi em vão, pois chegou o grande momento em que ele pode abraçar e ser abraçado por seu povo, reconhecido pela beleza do que produz, pelo prazer que gera com o que cria, pela vida que dá, com a sua Arte.


Até chegar o dia em que a Arte brasileira também estará no topo do mundo!


O ranking da revista The Art Newspaper

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Paula Rego, a pintora que escancara a condição humana

A Pinacoteca do Estado, um dos mais importantes espaços culturais de São Paulo, está apresentando uma exposição com parte da obra da artista plástica portuguesa Paula Rego. A mostra traz todas as fases importantes do desenvolvimento da artista, em ordem cronológica, em sete diferentes galerias. São 110 obras, entre pinturas, gravuras, desenhos e colagens, percorrendo os últimos 56 anos de sua carreira.

Paula Rego em seu atelier
Nascida em Lisboa em 1935, e hoje uma das mais importantes artistas contemporâneas portuguesas, Paula Rego iniciou seus estudos de pintura muito cedo, em Carcavelos, Portugal. Filha única de uma próspera família de classe média alta, Paula Rego cresceu durante o regime fascista de Salazar e, aos 16 anos, foi estudar na Inglaterra, pois seu pai não queria que ela vivesse dentro de um país que passava por aquelas condições.  Em Londres, estudou na Slade School of Fine Art, até 1956. Longe da ditadura de Salazar, a pintora expunha sua obra como arma de denúncia política. Nesse período conheceu o artista inglês Victor Willing, com quem se casou e teve três filhos.

Em 1959 voltou a Portugal e, ao longo da década de 1960, participa de exposições coletivas na Inglaterra. Em 1996 faz sua primeira exposição individual na Galeria de Arte Moderna da então Escola de Belas-Artes de Lisboa.

Em 1966, seu marido sofreu um ataque cardíaco, o primeiro de uma série de problemas de saúde que o atormentou até 1988. No mesmo período, com a morte de seu pai e a doença do marido, Paula Rego passou por uma longa fase de crise criativa que duraria até o final dos anos 1970. Na década de 80, foi convidada a ser professora visitante de pintura da Slade School of Art, em Londres.

A mostra, que ficará aberta ao público até 5 de junho, exibe suas pinturas da década de 1950, quando Paula Rego era uma jovem estudante de arte, na Slade School of Fine Art, em Londres, entre 1952 e 1956. Mostra as grandes pinturas em acrílico, feitas entre 1987 e 1988.

Nos anos 1990, Paula Rego começou a trabalhar com pastel, criando imagens em grande formato, a partir de modelos vivos, na maioria mulheres, uma de suas temáticas principais. Também pode ser vista a série O Aborto (1997), produzida com a intenção de chamar a atenção das autoridades portuguesas para a questão do aborto. São pinturas feitas à pastel que retratam adolescentes e jovens mulheres praticando arriscados abortos clandestinos.

A exposição termina com trabalhos realizados nos anos 2000, fase em que Paula Rego retratou a sua história pessoal, como em Misericórdia I, que mostra a morte da mãe da artista e de vários quadros intitulados O Pescador, onde ela pinta nas figuras as roupas que pertenceram ao pai morto. Já em A Carga Humana (2007-2008) e na série Circuncisão feminina (2009), a artista mostra o tráfico de seres humanos e a mutilação genital feminina. 

«Paula produziu de maneira consistente uma obra que se comunica de forma poderosa e direta com todos os que possuem um sentido de compaixão e justiça social», afirmou o curador da exposição Marco Livingstone, que acrescenta: «A plena intensidade da visão da artista, os temas que repetidamente a atraem e os processos pelos quais ela dá forma às narrativas visuais que alimentam a sua imaginação são trazidos à tona».

Sua obra é muito inquietante. As pinturas, que não respeitam muito o desenho e são feitas de cores quase chapadas e fortes, parecem mostrar uma alma feminina atormentada e que não se preocupa muito em agradar. As pinturas em pastel, por outro lado, apresentam desenhos cuidadosos, demonstrando um bom domínio estrutural da obra. Mas as figuras saem estranhas, deformadas, monstruosas. Ela não se preocupa muito com a perspectiva dos espaços e muito menos ainda com as regras de proporção. Todo o conjunto causa um estranhamento, até mesmo uma espécie de repulsa. Sobre essa característica inquietante da obra de Paula Rego, afirmou a romancista portuguesa Agustina Bessa Luís: "Toda a grande obra é cruel, porque arrasta as almas."

Salazar vomitando a pátria, de Paula Rego, 1960
Paula Rego já expôs em diversas mostras individuais e coletivas como retrospectivas na Tate Gallery Liverpool, Inglaterra, 1997; no Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia, Espanha; no National Museum of Women in the Arts, Estados Unidos, 2007; e na Casa das Histórias Paula Rego, Portugal, 2009. No Brasil, participou da 10ª (1969) e 13ª (1975) edições da Bienal Internacional de São Paulo, representando Portugal, e na 18ª Bienal (1985) representando a Inglaterra. Sua obra integra importantes coleções como as da Fundação Gulbenkian, Lisboa, Portugal, do Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque, Estados Unidos e da Tate e do Victoria & Albert Museum, Londres, Reino Unido.

Exposição Paula Rego
De 19 de março a 5 de junho
Pinacoteca de São Paulo
Praça da Luz, 2 São Paulo, SP 
Tel. (11) 3324-1000