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sexta-feira, 29 de julho de 2016

A percepção da "coisa"

"Vênus ao espelho", Velázquez
“Esta coisa é a mais difícil de uma pessoa entender. Insista. Não desanime. Parecerá óbvio. Mas é extremamente difícil de se saber dela. Pois envolve o tempo. Nós dividimos o tempo, quando na realidade não é divisível. Ele é sempre e imutável. Mas nós precisamos dividi-lo. E para isso criou-se uma coisa monstruosa: o relógio.

(...) O relógio de que falo é eletrônico e tem despertador. A marca é Sveglia, o que quer dizer “acorda”. Acorda para o quê, meu Deus? Para o tempo, para a hora. Para o instante. Esse relógio não é meu. Mas apossei-me de sua infernal alma tranquila.

(...) Estou escrevendo sobre ele mas ainda não o vi. Vai ser o Encontro. Sveglia: acorda, mulher, acorda para ver o que tem que ser visto. É importante estar acordada para ver."

Clarice Lispector, em “O Relatório da Coisa”

Começo este texto sobre a percepção humana citando Clarice Lispector, a grande escritora brasileira que tem a capacidade de nos fazer enxergar - muitas vezes com certa angústia - o que há para ser visto do mundo...

Sim, porque não enxergamos direito.

"Autorretrato", Chardin, 1771
A visão humana ainda não se desenvolveu de forma plena ao longo de nossa evolução, segundo afirmou Harold Speed em 1924, no livro “Oil paintings techniques and materials”. Na arte - diz ele - muito mais é transportado à mente pelo olho do que imagens e sensações de cor. Mas pouca gente consegue ter consciência disso. Em geral, as pessoas veem menos do que há para ser visto. Diz ele que percebemos o mundo mais pelo toque do que pela visão e usamos o olhar apenas para conferir rapidamente a forma das coisas, muito mais do que as cores. Ao invés de enxergarmos as massas de cor, notamos mais a aparência sólida das coisas. A cor local de algum objeto qualquer sempre vai ser a forma como as pessoas descrevem os objetos, dizendo, por exemplo: “este vestido é verde”, ”esta mesa é vermelha”, “o céu é azul”, “as nuvens são brancas”... Só que a cor local varia enormemente ao longo do dia; mas ninguém descreve as diversas tonalidades de azul, amarelo, vermelho, ou seja, os valores de iluminação.

Muito lentamente temos desenvolvido a faculdade da visão, ao longo da evolução humana, enfatiza Harold Speed. “Abrimos os olhos gradualmente”.

Primeiro, desenhamos linhas que preenchemos com cor local. Muito tempo depois na história começamos a fazer os sombreamentos para indicar a forma e o volume das coisas de forma simples. Isso só aconteceu com o aparecimento do pintor italiano Botticelli, que viveu entre 1445 e 1510! Conseguir indicar a Luz e a Sombra dos objetos e figuras foi a grande descoberta técnica do século XV! Em seguida, incluímos as leis da perspectiva com os estudos de Masaccio e Leonardo da Vinci, que criou a técnica do sfumato, ou seja, a transição de valor entre a sombra e a luz em degradée, para dar mais volume às figuras.

Depois, ao longo dos últimos séculos, evoluímos para uma técnica que leva mais em conta o movimento das massas de cor e sua relação com a luz, do que os delineamentos alisados da arte acadêmica, da qual um dos maiores mestres foi o francês Jean Auguste Dominique Ingres. Ticiano introduziu esta forma de pintar, assim como Velázquez na Espanha, com pinceladas que se tornam livres das formas das coisas. Os pintores impressionistas do final do século XIX romperam com a forma delineada “onde erigimos nosso edifício técnico“ (Speed) e passaram a ver o mundo como padrões de cor. Na evolução da visão dos artistas seus olhos não enxergam mais objetos separados no espaço, como entes individuais e sem relação alguma com o seu entorno.

Mas… QUEM enxerga isso?

Muitos poucos!

Detalhe de pintura de Botticelli
A imensa maioria das pessoas ainda se liga na forma dos objetos e não importa se uma pintura segue a receita do delineamento acadêmico ou se ela tem seu foco nas massas de cor e valor. As observações vão ser sempre na mesma linha: céu azul, nuvem branca, mesa quadrada, mar verde, sol amarelo...

É preciso aprender a VER o mundo, pois a maioria não o vê:

“O espírito rítmico que pulsa através do universo e sustenta toda a vida mexe no fundo  do nosso ser e nos impele a buscar relação com a realidade invisível que espreita por trás do véu das aparências”, diz ainda Harold Speed. É este o estímulo básico do pintor. É, como diz James Abbot McNeill Whistler, artista norte-americano do século XIX:

“A Natureza é o teclado no qual o pintor interpreta”.

O que Clarice Lispector nos propõe, assim como Leon Tolstoi, o escritor russo, é o exercício da experiência do despertar. Despertar das banalidades do nosso cotidiano que está absolutamente impregnado de sentidos que não mais percebemos. Resgatar o olhar que se espanta com as coisas, recusando - mesmo que seja apenas como um exercício episódico - recusando as certezas. As banalidades, as trivialidades do dia a dia não podem obscurecer nossa percepção. É preciso pressentir o mistério aonde o óbvio parece dominar. É preciso desfazer os sentidos pré-determinados, tornados automáticos, e dirigir-se a horizontes inesperados; recusar os nomes impingidos às coisas pois as coisas não se resumem a seus nomes! 

“Acorda, mulher, acorda para ver o que tem que ser visto”, clama Sveglia a Clarice.

Pintura de Nicolai Fechin
Ir além do sentido já dado. Prestar atenção. Atenção. Parar e ver. Ver. Enquanto vemos somos vistos, pois a percepção é uma via de mão dupla, como nos mostram as observações científicas do mundo subatômico, onde as cadeias de relações entre tudo torna impossível um experimento que não sofra interferência do observador: “a realidade invisível que espreita por trás do véu das aparências” (Harold Speed).

Exatamente no ano de 1917 o escritor russo Victor Borissovitch Chklovski (1893-1984) publicou um texto intitulado “A Arte como procedimento” onde ele começa citando a frase “a arte é pensamento por imagens”. Neste texto, desenvolve a ideia que o tradutor brasileiro chamou de “Singularidade” e numa tradução francesa se dá o nome de “Estranhamento”. Esse conceito de Chklovski inspirou a estética teatral de Bertolt Brecht, por exemplo. Chklovski era amigo do poeta Maiakovsky e do escritor Maximo Gorki.

Segundo sua teoria, “o procedimento da arte consiste em obscurecer a forma, em aumentar a dificuldade e a duração da percepção” o que tem o efeito de causar um sentimento de estranhamento, como a visão de um estrangeiro. As imagens, segundo ele, agrupam objetos e suas funções heterogêneas e explicam o desconhecido pelo conhecido. Para ele, há que se fazer um resgate da Singularidade das coisas.

Mostra Chklovski que ao longo dos séculos as imagens pouco se alteram. Uma montanha ainda está lá (pelo menos as grandes), cadeiras e mesas servem do mesmo jeito, assim como camas, mares, pores de sol, planetas, céu, fogo… o ser humano… Todo o trabalho do artista é acumulação e revelação de novos modos de mostrar as mesmas coisas. Mas a cada vez que olhar, ver como se fosse novo!

“Se examinarmos as leis gerais da percepção - diz Chklovski - vemos que uma vez tornadas habituais, as ações tornam-se também automáticas. Assim todos os nossos hábitos fogem para um meio inconsciente e automático; os que podem recordar a sensação que tiveram quando seguraram pela primeira vez uma caneta na mão ou quando falaram pela primeira vez uma língua estrangeira e que podem comparar esta sensação com a que sentem fazendo a mesma coisa pela milésima vez, concordarão conosco”.

"Cristo e a tempestade", Rembrandt
Pois a Arte libera os objetos do nosso automatismo perceptivo:

- “Para devolver a sensação de vida, para sentir os objetos, para provar que pedra é pedra, existe o que se chama Arte”.

- “O objetivo da arte é dar a sensação do objeto como VISÃO e não como reconhecimento” (grifo meu)

- “O ato de percepção em arte é um fim em si mesmo e deve ser prolongado; a arte é um meio de experimentar o devir do objeto; o que já é “passado” não importa para a arte”.

Chklovski diz que o escritor Leon Tolstoi é um exemplo de artista que vê e mostra os objetos fora de seu contexto e de seu automatismo. Ele viola o ritmo automático, leva à não previsibilidade. Ele jamais se contenta em usar uma palavra que mantenha o leitor em sua posição mais cômoda. Não, ele arranca o leitor do movimento automático dos olhos sobre o livro. Se o leitor está distraído, não acompanha o texto de Tolstoi.

Um leitor distraído e acomodado não lerá com tranquilidade Clarice Lispector. Ela leva às entranhas... Um leitor ansioso jamais lerá "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa. Há que se penetrar no mundo profundo do linguajar do sertão.

Um dos papeis do artista é, então, arrancar os cômodos de seu comodismo, obrigar as pessoas a tropeçar nas quebras de ritmo. Vivemos em um mundo que nos leva aos condicionamentos, ao automatismo cotidiano onde criamos nossa rotina robótica: acordamos, tomamos banho, café, pegamos o transporte, vamos ao trabalho (muitas vezes automático por si), almoçamos, conversamos trivialidades, vagamos pelas ruas com smartphones nas mãos e na atenção principal, retornamos a casa, vemos (ou não) tv, nos relacionamos com a família, dormimos… Fazemos enriquecer uma minoria, porque este automatismo todo interessa, e muito, ao sistema capitalista vigente...

O artista, então, é o que cria obstáculos, é o que surpreende, o que arranca do automatismo, mesmo que seja mostrando que “uma pedra é uma pedra”. E mostra que as as coisas estão diante de nós. Basta ver!

Paisagem com pedras de Gustavo Courbet
"Pescador no mar", William Turner
Natureza-morta de David Leffel
Pintura de Anders Zorn
"O Saltimbanco", de Antonio Mancini
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"Outra Margarida", Joaquin Sorolla
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"Lavabo", Antonio Lopez
"Sinfonia em branco", James McNill Whistler

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Medalha de prata

Acima e à direita de mim, os quadros premiados
O XXX Salão de Artes Plásticas de Arceburgo foi aberto neste último sábado, dia 18 de junho, às 20 horas no Instituto Cultural e Histórico daquela pequena cidade do interior de Minas Gerais. Eu estava presente, pois fui uma das ganhadores dos prêmios principais, a Grande Medalha de Prata, com duas pinturas a óleo: “O clown” e “O violinista”. Viajei para lá com minhas amigas, Taïs Isensee e Virgínia Moraes. Nos hospedamos em Mococa, na casa acolhedora de Rose Souza e dona Teresa, sua mãe.

Instituto Cultural e Histórico de Arceburgo
A abertura do XXX Salão de Artes Plásticas atraiu gente de vários lugares do Brasil. Na noite de sábado, dezenas de pessoas foram participar da inauguração da exposição e ver as obras de perto. Entre elas, eu, Taïs, Virgínia e Rose. Eu estava muito feliz! Foi um pequeno-grande sinal de que meu trabalho segue seu caminho certo, recebendo esta medalha…

O prédio do Instituto Histórico e Cultural de Arceburgo é muito antigo, uma construção do começo do século XX, mas muito bem cuidada, preservada. Desde 1985 abriga o Instituto, mas inicialmente foi uma fábrica de cerveja, depois uma alfaitaria e residência. O prédio foi tombado como patrimônio cultural da pequena e linda cidade de Arceburgo.

A medalha e o certificado
Enquanto caminhava, depois da festa, nas ruas iluminadas pelo arraial de São João, festejo que atrai muita gente dos arredores, de São Paulo a Minas, meus pensamentos recuperavam lembranças do meu trabalho de pintora. E dos caminhos que me trouxeram até aqui, passando pelo Ateliê Contraponto...

O tema do palhaço me toca pessoalmente, ainda mais quando conheci a verdadeira história dos saltimbancos e dos artistas de rua da Idade Média, em especial os da Commedia dell’Arte. O clown - palavra em inglês que tem um alcance maior do verdadeiro significado para o que chamamos de palhaço - é um personagem inspirado no Pedrolino das ruas da Roma do século XVI, que se transformou em Pierrot nas ruas do interior da França. Era um personagem melancólico, triste mesmo, porque amava Colombina, que preferia Arlequim… Eu tenho uma identificação qualquer com a melancolia do palhaço, aquele que faz rir...

Há anos este quadro reinava dentro de mim… Já tinha feito uns desenhos, pensado a respeito, pintado um ensaio num retrato de um menininho, filho de um casal de amigos, a quem presenteei com uma pintura em pastel. No ano passado vi uma foto do diretor do teatro Oficina, Zé Celso Martinez Correia, em atuação. Fiquei olhando para a foto… Zé Celso… Grande diretor e ator brasileiro, cuja personalidade intriga, incomoda, provoca, desnuda, escracha… Zé Celso é um grande palhaço. Passei meses procurando um pano com losangos coloridos que me servisse na composição do quadro. Ele veio… no carnaval! Estava na casa do meu amigo Jeosafá Gonçalves, poeta e também um pouco clown, e avistei o pano! Jeosafá me deu o pano e assim que voltei pra casa montei a composição, tracei os primeiros desenhos, coloquei a cara do Zé na cara do meu palhaço, pintei, pintei, pintei… Durante várias semanas. E o resultado veio agora: medalha de prata no XXX Salão de Artes Plásticas de Arceburgo!

Rose e "O violinista"
Paralelamente ao meu amor pela pintura há o meu amor pela música. É quase impossível desenhar ou pintar sem ter alguma música como pano de fundo para meu trabalho. Dos clássicos, ouço muito Bach, Mozart e Beethoven. E, claro, Heitor Villa Lobos, em especial as Bachianas, e os arranjos para violão. Gosto muito do som do violão e nestes últimos meses tenho ouvido dois grandes violonistas em especial, Guinga e Ana Vidovic, ele brasileiro, ela croata. Outras vezes coloco um Piazolla pra tocar seu tango argentino que me transporta para dentro da dramaticidade chorosa do tango com o qual me identifico também. Mas também minhas pinturas são feitas com as composições de Tom Zé, Jorge Mautner, Caetano, Chico, Criolo, Ná Ozetti, Monica Salmaso, Maria Gadu… Tem dias em que só ouço Tom Zé. Tem dias que ouço Jorge Mautner e Criolo. Tem dias que são de Chico. Ou de Caetano e Maria Gadu. Nos dias de maior melancolia, ouço Monica Salmaso... E assim vou acariciando minhas telas com os pinceis…

Precisava pintar um músico e o primeiro foi este violinista. A luz era boa, a expressão do homem era de profundo mergulho em seu mundo. “Ele está de olhos fechados - me disse uma senhora lá em Arceburgo, admirando-o - mas eu vejo seus olhos abertos, são olhos de músico!” Fiquei feliz com a interpretação dela, agradeci. Este será o primeiro de uma série de instrumentistas que pintarei daqui pra frente. Mas só pintarei aqueles que, como o violinista, deem a impressão de que podemos ler sua alma, ou ouvir sua música… O violinista também ganhou medalha de prata!


Agora é só pintar mais e mais. Um quadro já está bem encaminhado, no cavalete. “Il fascismo” é o título provisório. Minha inspiração veio destes tempos nebulosos em que vivemos sob ameaças reais e tempos difíceis se gestando no horizonte. É uma mulher, solitária, descalça, aparentemente frágil, caminhando sob terreno pedregoso que dilaceram seus pés, sob um céu tenebroso, ameaçada pelas aves de rapina que espreitam sua fragilidade mas temem sua grande força. A ver!

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Momentos da inauguração do Salão e do recebimento da Grande Medalha de Prata:



A mesa com os componentes da organização do XXX Salão de Artes Plásticas de Arceburgo


Taïs, eu, Rose









Taïs, eu e Virgínia

terça-feira, 15 de março de 2016

Thiago de Mello

"O galo da madrugada", Mazé Leite, óleo sobre tela, 70 x 50 cm, 2016

"Faz escuro mas eu canto", diz o poeta Thiago de Mello, que será homenageado hoje em São Paulo, em seus 90 anos de vida. Pediram-me um quadro para dar de presente a ele. Quase instantaneamente a composição do quadro inteiro me ocorreu: tinha que colocá-lo declamando um poema, numa noite de lua cheia, ao lado de seu amigo, o outro poeta, Pablo Neruda. Foi o que fiz e consegui fazer em três dias apenas. Trabalharia nele ainda mais uns dias, mas gostei do resultado. A energia do momento me moveu o tempo todo: vivemos tempos nebulosos e é bom saber que alguém canta, que alguém declama poemas, que alguém pinta, que alguém ensaia em algum canto do mundo...

Esta é minha homenagem a você, poeta do Amazonas do meu Brasil!

Abaixo, fotos do momento em que entregamos o meu quadro a Thiago de Mello, que ficou emocionado e reconheceu seu amigo Pablo Neruda: "o Paulinho está tão bonito aí".









E ganhei de Thiago de Mello seu livro "Os Estatutos do homem", que ele autografou carinhosamente

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Lydio Bandeira de Mello, o pintor



“Quem não tem o hábito de desenhar, não pensa a forma”.
Bandeira de Mello

Há poucos meses atrás um amigo me falou de Lydio Bandeira de Mello, um pintor carioca que insiste em não abandonar o caminho da arte figurativa. Fui procurar saber mais sobre ele, encontrei algumas coisas, poucas, além do seu próprio site. Meses se passaram, voltei a me lembrar de que devia um artigo sobre este mestre. Sim, mestre! Bandeira de Mello já tem mais de sete décadas na estrada da pintura figurativa, pintando em várias técnicas, ensinando muita gente em seu ateliê no bairro das Laranjeiras, Rio de Janeiro.

No próximo dia 20 de junho ele completará 87 anos. Nasceu em Leopoldina, interior de Minas Gerais. Mas quem conhece Lydio Bandeira de Mello? Quem já ouviu falar deste grande pintor na TV, no rádio, nos jornais, na mídia, enfim? Quase não se fala dele, se lembra dele, se comemora a carreira deste artista na mídia brasileira, que só tem olhos e ouvidos para “artistas” do mainstream monopolista da chamada “arte contemporânea” conceitual. Como se ele não fosse contemporâneo a nós… Mas, sabemos, não há democracia no mundo das artes plásticas hoje…

Desabafo feito, vamos ao que interessa, sua vida e sua obra.

"Enterro no sertão"
Lydio Introcaso Bandeira de Mello começou seu caminho nas artes plásticas com apenas 6 anos de idade, quando uma vizinha lhe emprestou algumas tintas. Logo, logo seu pai lhe deu de presente seu primeiro material de pintura. E passou a ter orientações do professor Funchal Garcia, amigo de seu pai, que Bandeira de Mello define como “alguém que possuía a inventiva e técnica do pintor, mas também a fantasia heroica de Dom Quixote, sempre disposto a levantar sua lança na defesa dos fracos e oprimidos”.

Aos 17 anos de idade, o jovem Lydio resolveu ir para o Rio de Janeiro estudar na Escola Nacional de Belas Artes. Para isso, recebeu imediatamente o apoio dos pais, pessoas cultas e que sabiam o verdadeiro valor de incentivar seu filho no mundo das artes. “Quando eu disse a meu pai que queria ser pintor e estudar na Escola de Belas Artes, minha mãe fez uma festa!”, conta ele. Seu pai, Lydio Machado Bandeira de Mello, era um intelectual: advogado, escritor, filósofo e matemático. Ambos, pai e mãe, deram uma boa formação humanística ao filho. Quando seu pai morreu deixou 69 livros publicados.

Bandeira de Mello chegou na Escola Nacional de Belas Artes em 1947.

A Escola Nacional de Belas Artes foi fundada em 12 de agosto de 1816, através de um decreto assinado por Dom João VI. Neste ano, ela completa 200 anos de existência, e se chama atualmente Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a UFRJ. Inicialmente se intitulou de Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios, tendo sido criada para receber a Missão Artística Francesa, que veio para trazer ao Brasil o ensino oficial de arte, baseada na escola acadêmica da França. Após a independência do Brasil, em 1822, passou a ser chamada de Academia Imperial de Belas Artes. Com o advento da República, mudou para Escola Nacional de Belas Artes.

Quando Lydio chegou lá, a academia era um caldeirão de discussões e disputas entre a tradição e as novas estéticas trazidas pela modernidade. Mas Lydio não se interessou muito pelas discussões trazidas pelos defensores das novas estéticas; estes aboliam a técnica, o domínio sobre o desenho, o respeito aos mestres do passado. Bandeira de Mello só pensava em uma coisa: desenhar e pintar! “Pela arte o homem rompe o estado de clausura da consciência e se religa ao universo”, diz ele. Seguiu o caminho árduo mas apaixonante de buscar o domínio sobre a forma, caminho que ele persegue até hoje aos 87 anos de idade.

Lydio Bandeira de Mello também diz que não pode haver qualquer concessão para aquele que deseja seguir este caminho. Para ele, é fundamental aprender as técnicas da pintura e do desenho, dominar seus instrumentos, “submeter a mão ao domínio da mente, até que ela se torne a própria extensão de seu pensamento criador.” Somente sobre o aprendizado técnico é que o artista poderá construir sua própria linguagem com segurança, ensina ele.

Em seu período na Escola Nacional de Belas Artes, Bandeira de Mello conheceu diversos artistas brasileiros importantes na época, como Quirino Campofiorito, a quem admirava de modo especial. Além dele, teve como mestre o professor de desenho Calmon Barreto que, com suas aulas com modelo-vivo ensinava aos alunos como criar uma sintonia entre a visão e as linhas que moldam o corpo humano. Lydio diz que era obrigatória, naquela época, uma carga horária de 900 horas de estudo de modelo-vivo… “Hoje em dia, lamenta ele, as pessoas que querem aprender a desenhar, são obrigadas a buscar este conhecimento fora das escolas de arte”.

Outro professor que lhe influenciou muito foi Edson Motta, que além de enfatizar a importância do aprendizado das técnicas de pintura, incentivava os alunos a se interessar pelos aspectos técnicos do material de pintura, como sua química, seus diversos comportamentos físico-químicos envolvidos em uma pintura, seja à óleo, seja em têmpera, afresco, etc. “A verdadeira cozinha da pintura”, observa Bandeira.

Sua trajetória inteira tem sido construída dentro do seu fascínio pela pintura figurativa. Ainda hoje, em seu ateliê das Laranjeiras, Bandeira de Mello produz, indiferente àqueles que defendem o modelo preferido pela mídia atual. Sua pintura é sólida, intensa, beirando o Expressionismo, e demonstra que por trás há, sim, muito conhecimento técnico.

Sendo senhor do seu ofício, mesmo assim ele não se deixa ficar em zonas de conforto, pois cair nesta armadilha é mortal para quem quer manter-se na busca do domínio sobre a forma. Este caminho é por vezes árduo, exige disciplina, dedicação, paixão.

O poeta gaúcho Walmir Ayala narra em seu texto que faz parte do livro “Bandeira de Mello - a arte do desenho”, um episódio que ocorreu com o estudante Lydio Bandeira de Mello: “Marca indelével a do contato com Carlos Chambelland, um mestre do claro-escuro, exigente e rigoroso. Conta Bandeira de Mello que certa feita tinha acabado de fazer um nu, em tamanho natural, no qual trabalhou durante duas semanas, especialmente nos valores do claro-escuro. ‘Terminado o trabalho, pelo menos para mim, o velho Chambelland aproximou-se, analisou e perguntou: - Tens um pano aí? Entreguei a ele um pedaço de pano e ele acrescentou: - Não sou eu que vou usar, é você. Bata o pano em cima desse desenho e apague tudo! Não discuti, apesar de um instante de íntima revolta. Feito isto, ele disse que o trabalho não estava ruim, mas que havia me provocado era para que eu compreendesse que era sempre possível fazer melhor, e ter coragem de recomeçar’”. Bandeira sempre diz que seu mestre Chambelland parecia ter um fotômetro no olho, reconhecia os valores cromáticos como ninguém.

Ter coragem de recomeçar. Quem lida com qualquer tipo de treinamento em arte, sabe que essa é a chave para a evolução técnica. Não há atalho algum. Todo dia é um novo recomeço. E o caminho só termina quando a morte dá um fim a tudo… Por isso tem que haver paixão!

“Tecnicamente, Bandeira de Mello conhece seu ofício como raros”, disse o crítico de arte José Roberto Teixeira Leite. “Mas sabe também que a técnica não é um fim em si mesma e que o artista deve assimilá-la a tal ponto que é como se a tivesse esquecido, já.”

Em 1961, Lydio ganhou o Prêmio de Viagem ao Estrangeiro, recebido no Salão Nacional de Belas Artes. Ao invés de ir para Paris, como fizeram quase todos os outros que receberam o mesmo prêmio, ele optou por ir à Itália, em busca dos mestres renascentistas. Acabou sendo convidado a restaurar o Santuário de Poggio Bustone, num lugarejo a cerca de 100 km de Roma. Este trabalho durou 8 meses, quando então “pintava pela manhã, caminhava à tarde e bebia vinho de noite”. São dois murais pintados na técnica do afresco que representam a confissão de São Francisco de Assis e outro com a aparição de um anjo ao santo.

Quando voltou ao Rio de Janeiro, Bandeira de Mello tornou-se professor de Desenho com Modelo-vivo na Escola de Belas Artes.

Angela Ancora da Luz, professora da atual Escola de Belas Artes da UFRJ, diz em seu artigo publicado no site do pintor: “Impossível não reconhecer um trabalho de Bandeira de Mello. O primeiro destaque é a força da forma. Entre as mais variadas temáticas que encontramos, a figura humana surge vitoriosa. Ela não possui apenas ossos e músculos, pele e fisionomia. Bandeira pinta a alma.”

Em seu ateliê, ainda hoje ele dá aulas aos muitos alunos que o procuram para estudar. A fila de espera sempre está cheia. Aos seus alunos, ele vai ensinando que o desenhista só consegue pensar se desenhar. Ele domina a técnica da Têmpera (pintura feita com pigmentos misturados ao ovo), da Pintura a Óleo, do Afresco. Além disso, suas mãos conhecem bem o toque dos lápis, dos carvões, dos pasteis. Ele mesmo fabrica suas tintas, ou quando as compra prontas é muito cuidadoso na escolha das marcas. Explica sempre aos discípulos o uso e propriedade dos materiais, dando exemplos de sua própria prática, contando causos de sua vida de pintor. Ele usa muito a técnica da têmpera com caseína. A caseína é feita com a proteína do leite, técnica milenar, que ele usa para pintar muitos de seus quadros.

Em 1970 ele ganhou o concurso público para pintar dois murais com 33 metros de comprimento por 4 metros de altura cada um. O trabalho é feito em têmpera sobre madeira e ele usou uma palheta de cores bastante restrita. O tema escolhido por Bandeira de Mello foi o trabalho humano, a relação do homem com a terra, “na pesca, na construção do homem heroico que conquista a vida pelo amor, no lazer do futebol, na simplicidade de tipos que revelam a marca nacionalista e regionalista do homem brasileiro”, diz Angela da Luz. Isso me lembra seu outro grande colega, Candido Portinari, que seguiu esta temática também em seus painéis, em especial o conjunto “Guerra e Paz”, que pertence às Nações Unidas e está no prédio de New York.

Atualmente, os dois painéis de Bandeira de Mello se encontram no prédio da Caixa Cultural, centro do Rio, inaugurado em junho de 2006. Em sua vasta obra, espalhada por vários lugares do Brasil, Bandeira de Mello já participou de dezenas de exposições coletivas e individuais. Seu trabalho também está presente no acervo do Museu Nacional de Belas Artes do Rio.

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Uma miúda amostra da extensa produção deste artista brasileiro: