terça-feira, 8 de novembro de 2011

As resistências da Arte

Uma rua de Paris, entardecendo no outono de 2011 
Quando se anda pelas ruas com um pouco de atenção, observa-se que passamos, de vez em quando, em calçadas de galerias de arte. Paramos para observar através das vitrines; ou das portas abertas. Na maioria das vezes basta uma olhada de fora, da calçada mesmo, para ter um quadro dos quadros expostos ali. São pinturas de vários estilos; pinturas de paisagem, pinturas urbanas, cenas de gênero, figurativas, até mesmo abstratas. Pinturas para todos os gostos.


Há lugar para todos em Paris. Até para os pintores menores de Montmartre, que ganham sua vida pintando retratos de turistas na Place du Tertre, lugar onde, em 1790 foi instalada a primeira prefeitura da "Commune" de Montmartre. Todos os domingos à tarde eles montam seus cavaletes, suas telas e pincéis em plena praça e ficam ali, expondo seu trabalho aos milhares de turistas que visitam aquele bairro. São pinturas, desenhos, croquis de Paris. Mas os turistas também posam para eles, que cobram uns 30 euros por retrato feito à carvão, pastel ou grafite.


Galeria Roussard, Montmartre, Paris
Mas nas galerias de arte de Montmartre, como a Galérie Roussard (que existe desde 1945), podemos encontrar pinturas não só de artistas atuais, mas de artistas do passado, como Pierre Bonnard (1867-1947) ou do aquarelista Roger Bertin (1915-2003). Pinturas, pinturas, pinturas. É preciso ressaltar que a Pìntura continua em alta em Montmartre e no mundo todo, contra aqueles que apregoam que a pintura já morreu, e que o lance do momento - e da moda - é a já absurdamente cansativa arte conceitual...


Nos salões dos Museus, multidões se espremem, se esticam nas pontas dos pés para ver as obras de arte que marcam a nossa história e a nossa vida cultural. Se admiram diante de telas  pintadas por verdadeiros gênios da humanidade, homens e mulheres que alcançaram um tal domínio de seu ofício que nos fazem parar estáticos, e emocionados! Até hoje, séculos depois de pintada, uma tela de Rembrandt arranca lágrimas de olhos mais sensíveis! As filas em volta desses museus alcançam as ruas; filas para comprar os bilhetes de entrada, filas para entrar... E filas para andar dentro desses museus. Dá para sentir a ansiedade das pessoas à nossa volta; é quase possível ouvir, através do olhar que penetra numa pintura, as emoções que vão nas almas de muitos desses que vão a esses lugares ao encontro das Belas Artes.


Multidões em busca de ver Arte e, na Arte, a História




É assim em Paris, Madrid, Barcelona, Bruxelas, Berlim, Amsterdam, Haia, Londres... É assim até nos EUA. Mas não parece ser assim em São Paulo, onde o "conceito" tornado cânone, de origem uspiana e faapiana, domina a cena artística local e impõe suas regras. E sua homogeneidade artística pobre.


Capa do livro de Domecq. A
ilustração da capa representa aquele
que produz "arte contemporânea" e
diz: "Eu não sei o que eu faço"
Falando nisso, encontrei um livro num sebo às margens do rio Sena: o título "Artistes sans art?" (Artistas sem arte?) me chamou a atenção. O autor é Jean-Philippe Domecq, escritor e ensaísta, que também publicou recentemente um outro livro, o "Misère de l'Art" (Miséria da Arte). Mal comecei a ler o primeiro, já deu para perceber que ele se junta a um outro autor francês - Jean Clair, ex-diretor do Museu Picasso de Paris - para fazer um contraponto teórico ao domínio midiático da chamada "Arte Contemporânea". Domecq diz, numa entrevista a um site francês, que essa "arte contemporânea" é, na verdade, o sintoma de "uma crise narcísica única da nossa história cultural". Ele afirma que não tem nenhuma obrigação de cultuar mitos atuais como Andy Warhol, e menos ainda aqueles que especulam com a arte atual que são capazes de "vender até vento", sustentados por uma espécie de intelectual que ele chama de "escroque", porque comete todo tipo de "fraude intelectual". Domecq - corajoso como Jean Clair, e como Affonso Romano aqui no Brasil - se dispõe à uma briga com os postulantes do credo contemporâneo que, diz ele, fazem de tudo para interditar o debate intelectual a respeito do assunto, e divide maniqueistamente o mundo da arte em dois: os que amam Marcel Duchamp e Andy Warhol (entre outros) e "os outros": que eles chamam de "reacionários", de "conservadores" porque amam as Belas Artes; e que estão com essas multidões que insistem em ir ver pintura e escultura nos museus do mundo! Mas aqueles lá não fazem mesmo arte para essas multidões! Fazem arte para especular, a arte dos iniciados em seus conceitos...


Entrei no Museu Pompidou, o Museu de Arte Moderna de Paris. Fila gigante para ver a exposição do pintor Edward Munch. Era difícil ver os quadros nas salas repletas de gente. Mas vi, observei, anotei, fotografei. Saindo de lá fui ver as salas dedicadas ao século XX. Mais dezenas de pessoas se aglomerando em frente às pinturas de Picasso, Fernand Léger, Matisse, Cézanne, André Fougeron... Cheguei, após horas dentro do Museu Pompidou, às salas da "arte contemporânea": havia mais moscas sobrevoando os objetos em seus vôos rasantes, do que gente! A famosa "A Fonte" (uma delas, porque Marcel Duchamp espertamente fez várias cópias) estava entregue aos fantasmas conceituais... Ninguém parado frente a ela, admirando aquele penico milionário! E solitário.


Manchas pretas para quem quiser apreciar,
no Museu Pompidou. Mas não tinha ninguém
- naquele momento - apreciando...
As outras "obras" dessa ala mais pareciam as de um parque de diversão. Aliás, faz algum sentido: é divertido atravessar, mexer, brincar com alguma coisa daqueles objetos expostos como arte. Penduricalhos - como uma pá de Duchamp -, amebas coloridas, manchas pretas, repetições exaustivas de tentativas do passado (de Malevitch, por exemplo), roupas velhas manchadas incluindo uma calça pendurada num varal, metais retorcidos e colorizados fazendo o papel de esculturas, poemas sem sentido esticados ou colados na parede... E NINGUÉM... ninguém andava por aquelas salas, a não ser um, ou dois, ou três, que passavam rápidos por cada coisa daquela. E eu, que estava lá com a masoquista intenção de comprovar que há um vazio sem fim nessa "arte" mercadológica atual!


Mas vi - posso dizer - dezenas de pessoas em frente às pinturas dos museus que visitei, com seus cadernos de desenho à mão, estudando, desenhando, copiando, tentando entender como os grandes pintores trabalhavam. Também vi nas ruas de Paris aqueles tais artistas "conservadores" com seu material de trabalho, desenhando e pintando. E vi, dentro do Louvre, dois pintores com seus cavaletes, copiando telas. Uma delas, o "Pequeno Mendigo" de José de Ribera.


Também vi cerca de 40 pessoas desenhando e pintando, nas duas sessões de que participei no Atelier de la Grande Chaumière, fazendo estudos, com uma modelo posando em frente a nós. Nós, esses "atrasados" que gostamos de desenhar e pintar. Nós, esses "conservadores", que consideramos fundamental nos debruçar sobre quem estudou muito no passado e que nos traz o acúmulo de suas pesquisas individuais sobre Luz, sobre Cor, sobre a química dos materiais. Porque nós, esses "artistas atrasados" não buscamos reinventar a roda! E estamos bem distantes mesmo de inventar "conceitos" de rodas...


Porque tem - entre milhares de outros pelo mundo - o Atelier Vermeer, onde duas pintoras estudam e ensinam baseadas nas telas de quem realmente sabia o que fazia: Rembrandt, Vermeer, Caravaggio, Ticiano, Rubens, Velazquez, Delacroix, Ingres, Goya, Michelângelo, Da Vinci, Botticelli, Courbet... a lista é imensa! Diante destes, multidões se espremem em todos os museus do mundo!


E também porque tem em São Paulo, aqui no Brasil, um Atelier de Arte Realista dirigido pelo pintor Maurício Takiguthi que ensina, a dezenas de seus alunos, os métodos tradicionais de desenho e pintura. Muito desenho, muito estudo individual e coletivo, muito treino técnico e teórico da relação entre os espaços, dos valores, das massas, da Luz. Tudo isto em referência com a realidade, com a inesgotabilidade do Real. Lá estou eu também, há quase três anos, num estudo intenso e muito prazeroso, à moda dos mestres. E, poderíamos dizer, à moda do método científico de estudo.


Mas ano que vem, aqui no Brasil,  vão se espremer as multidões brasileiras: Caravaggio vem ao Brasil (Belo Horizonte e São Paulo), assim como alguns de seus seguidores, entre os quais um dos maiores: José de Ribera, pintor espanhol. Porque nem isso vai conseguir deixar de ver, essa elitezinha local que desde o passado insiste, em sua cabecinha colonizada, em que seria a "engendradora" da "modernidade" (pós-moderna hoje). Sim, porque a "arte" dessa meia dúzia, vai continuar para a meia dúzia que assim deseja.


A grande Arte, esta diante da qual todos silenciam, continuará atraindo a imensa maioria também do povo brasileiro que possa ir vê-la aonde for, porque, nela, ele se espelha, porque ela lhe diz o indizível, lhe traduz o indecifrável, lhe exprime o inexprimível...


Como este olhar, de Rembrandt, espelho do nosso próprio olhar!

Autoretrato, Rembrandt

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Mandamentos e mistérios gozosos

Por que ninguém teve (ainda) a ideia de expor gavetas com restos mortais em pó de um Crematório?
(Foto do Crematório do cemitério Père Lachaise de Paris, outubro de 2011)
A revista Bravo do mês de outubro, publicou uma reportagem de capa cujo tema é a exposição que acontece na Fundação Bienal de São Paulo, "Em Nome dos Artistas – Arte Contemporânea Norte-Americana na Coleção Astrup Fearnley". Essa mostra reune 219 peças da coleção do Museu de Arte Moderna de Oslo, capital da Noruega. E traz "obras" de Damien Hirst, Jeff Koons e Cindy Sherman, entre outros.


A revista organizou sua apresentação, elencando 7 mandamentos "daquilo que se convencionou chamar de “arte contemporânea”". Continua o texto: "É interessante notar que uma exposição reunindo Van Gogh, Renoir e Degas em todo o seu esplendor e glória não seria possível. Simplesmente porque tais artistas não experimentaram, em vida, esplendor e glória comparáveis aos de Damien Hirst e Jeff Koons, para ficar nos dois mais ricos da constelação (...). Ricos no sentido monetário mesmo. Hirst é, sem sombra de dúvida, o ser humano que mais ganhou dinheiro com criação artística na história ocidental." (!)


"A arte contemporânea não é uma linguagem acessível às massas. Ela se escora em uma série de teorias e procedimentos tão complexos quanto o teatro experimental, o cinema alternativo e a música contemporânea. Só que, diferentemente do teatro experimental, do cinema alternativo ou da música contemporânea – que sobrevivem em ambientes restritos ou financiados por universidades –, ela gerou um circuito milionário. Entender essa relação estreita e amigável entre arte e mercado é essencial para compreender a produção atual. Daí a razão do primeiro mandamento." 


"Escultura" de Jeff Koons,
mas você pode achar algo
assim numa lojinha de
souvenirs...
1 - AMARÁS O MERCADO SOBRE TODAS AS COISAS - o norte-americano Jeff Koons, entre 1991 e 1992, foi casado com a atriz de filme pornô italiana Cicciolina, e fez uma série de pinturas, com cenas do casal tendo relações sexuais. Depois, resolveu ir para o mundo da escultura, quando sua peça ("isso" aí ao lado) foi vendida por 23,5 milhões de dólares na casa de leilões Sotheby’s de Nova York, tornando-o o artista mais valorizado do mundo. Em julho de 2008, outra obra dele foi vendida na casa de leilão Christie’s de Londres por 25,7 milhões de dólares.


Na arte contemporânea, o mercado é uma poderosa fonte de validação artística de um trabalho. Calcula-se que no Brasil o montante de dinheiro que circula no mundo da arte seja da ordem de 300 milhões de reais por ano." Mas no mundo, segundo "levantamento da Tefaf (The European Fine Art Foundation), só em 2008, o total de vendas no mercado internacional atingiu 68,5 bilhões de dólares, sendo que os Estados Unidos e a Grã-Bretanha são responsáveis por dois terços desse montante."


O inglês Damien Hirst, em 2008, por exemplo, colocou à venda na Sotheby’s, em Londres, 223 trabalhos recém-saídos do ateliê. Vendeu 97% (!) para, em sua maioria, investidores particulares, um total de 198 milhões de dólares. Dois anos mais tarde, o valor das peças vendidas despencou para 10% do total. "É óbvio que Damien Hirst criou uma bolha com a própria produção, usando um procedimento clássico do mercado de ações: vender o máximo possível na alta – e provocar uma baixa logo depois por causa da inundação do mercado com um mesmo tipo de produto. É como se Hirst dissesse que, num ambiente cada vez mais dominado pelo mercado, entender seu funcionamento é essencial para um artista. É como se sua bolha fosse, por si só, uma performance."


Serre um boi no meio e isso é arte,
como fez Damien Hirst, um dos
alunos da escola de Duchamp
2 - NÃO PRECISARÁS DOMINAR A TÉCNICA - Depois que o francês Marcel Duchamp (1887-1968) expôs um urinol como obra de arte, em 1917 (A Fonte), a concepção de que um artista precisa saber pintar, esculpir ou fotografar ficou definitivamente para trás." Muitos das "obras" desses artistas-para-o-mercado aí nem foram produzidas por eles. Mas o que importa é a "ideia". "Desde Duchamp, o que faz de alguém um artista são suas ideias, e não suas habilidades manuais", diz a revista Bravo.


E dá um exemplo local, como do artista paulistano Nelson Leirner, que foi tema de um documentário deste ano (Assim É Se Lhe Parece). Ele nunca pintou um quadro na vida. O que faz é se apropriar de objetos existentes e dar-lhes novo significado".


3 - APRENDERÁS A FALAR SOBRE SEU TRABALHO - "num mundo em que a ideia é tão ou mais importante do que a execução, dominar a palavra é tudo. Tanto que os artistas aprendem isso desde a faculdade. No departamento de artes plásticas da Universidade de São Paulo, os alunos passam pelas aulas ministradas por Ana Maria Tavares e Mario Ramiro, em que são incentivados justamente a falar sobre o próprio trabalho." (grifo meu)


4 - PERTENCERÁS A UMA GALERIA - Absolutamente necessário. Como quase todos os artistas de renome hoje passaram por uma faculdade de Belas Artes (o que evidencia que vivemos o tempo da Nova Academia - ou seja, isso daí é arte acadêmica), "imediatamente passam a integrar o elenco de alguma galeria. Muitos deles assinam contratos com endereços comerciais antes mesmo da formatura". Continua o texto: "A carreira de artista tem atualmente etapas tão bem definidas, e encontra-se tão escorada por marchands, colecionadores, leilões e exposições, que até perdeu um pouco do caráter aventureiro e um tanto arriscado que sempre a acompanhou".


"O diretor do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, Tadeu Chiarelli, vê no entanto essa presença forte das galerias no circuito como algo incômodo: “Pertencer a uma galeria virou sinônimo de ser bem-sucedido”. Porém o número de endereços que abrem a cada ano e o volume de dinheiro que negociam é tanto que foi criada em 2007 no Brasil a Abact (Associação Brasileira de Arte Contemporânea), uma iniciativa das próprias galerias para mapear esse setor. A presidente da instituição é Alessandra d’Aloia, também sócia-diretora da prestigiada galeria Fortes Vilaça, em São Paulo."


5 - PARTICIPARÁS DE FEIRAS DE ARTE - São umas 30 feiras internacionais de arte contemporânea no mundo, mais de duas por mês. Negócios muito rentáveis rolam por lá.


6 - CONHECERÁS CURADORES - ah.... os curadores! Não é possível viver sem eles! Enquanto o tradicional papel da crítica teve seu papel diminuído, "os curadores são os novos críticos". Continua Bravo: "São eles que selecionam artistas e suas obras para exposições que pretendem oferecer um panorama da produção atual e, dessa forma, atribuem leituras para esses conjuntos. Os curadores apresentam temas, sugerem relações entre criadores e apontam também revelações da área. Inclusive para galeristas e colecionadores. “Hoje até as feiras de arte têm curadores. O que antes era Igreja e Estado agora se mistura. Bienais e feiras têm muitas vezes conceitos tão próximos que ficam muito parecidas”, diz um deles, Cauê Alves.


7 - VIVERÁS COMO UMA CELEBRIDADE - Como já dizia o pop Andy Wahrol,cada um deve buscar seus 15 minutos de fama. Os "artistas deixaram de ser figuras por trás de suas obras e estão cada vez mais à frente delas. O público quer saber como se vestem, com quem circulam, o que bebem, como bebem".

Então junte-se uma boa faculdade que ensine a nova forma de fazer arte, renda-se às regras do mercado, tenha-se uma boa ideia ("boa" no sentido disso daí), circule-se por esses circuitos sociais onde impera a futilidade (e muita grana!), dê-se um jeito de ser celebridade (mesmo que por 5 minutos), e pronto! Seu reino individual está garantido!


Cemitério Père Lahaise, Paris, outubro de 2011

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Vivências em ateliês de Paris

A tela original é de Jan Vermeer "Moça com brinco de pérola"
- esta é uma cópia que está sendo pintada por mim - terceiro dia de ttrabalho
Depois de 5 dias, ela está ficando assim...
Duas atividades em especial, marcam esta minha estada de quinze dias aqui em Paris. Em primeiro lugar, pintando uma cópia do "Moça com brinco de pérola" de Jan Vermeer sob a orientação de uma pintora copista do Louvre. Em segundo lugar, fazer aulas de desenho com modelo vivo na Academia de la Grande Chaumière, aqui em Montparnasse, bairro de Paris.

Há alguns meses atrás soube, em São Paulo, do Atelier de Alejandra Astorquiza em Paris, copista do Museu do Louvre. A especialidade dela é copiar grandes obras dos grandes mestres, muitas vezes em frente às próprias obras no Louvre. Como faço parte de um Atelier em São Paulo que também usa como referência as obras dos mestres da pintura, considerei que podia ser muito boa a experiência de fazer um estágio intensivo de uma semana, junto com Alejandra, e aprender diretamente dela um pouco da sua técnica de copista.

Depois de três dias inteiros, e 24 horas de trabalho intenso, minha "Moça com brinco de pérola" começa a me olhar, com seu olhar enigmático. Ainda há muito o que trabalhar no rosto dela, no olhar dela e especialmente na boca dela. Alejandra me disse que esse quadro, junto com a Monalisa de Da Vinci, trazem rostos com os sorrisos mais enigmáticos e difíceis de copiar. Ou seja, minha tarefa não é nenhum pouco fácil. Ainda tenho dois dias inteiros de trabalho, que vou concentrar no rosto dela. Todo o restante que ficar faltando, farei sozinha em meu atelier em São Paulo.


Sala centenária do atelier de la Grande Chaumière
para onde se dirigem artistas e estudantes de arte desde o começo do século XX
Mas também fui à "Grande Chaumiére".

Este atelier fica dentro de um prédio secular aqui do bairro legendário de Montparnasse, e abriga a Academia de la Grande Chaumière, uma das mais antigas de Paris, fundada em 1909.  Lá acontecem cursos livres de desenho, pintura e escultura e está aberta a qualquer um que queira vir treinar aqui. Por estes bancos e estes apoios de madeira em volta da cena principal onde posam modelos, artistas célebres ou não, sentaram e continuam sentando para praticar uma das maneiras mais antigas de estudo de pintura: modelo vivo, nus ou em representação de personagem. Os artistas fazem seus croquis com grafite, carvão, pastel, óleo, acrílica, aquarela...

Fernand Léger (1881-1955) passou por aqui, assim como André Lhote (1885-1962), Emile Antoine Bourdelle (1861-1929), todos professores, ensinando novos artistas. Alberto Giacometti (1901-1966), o grande escultor, aprendeu aqui diretamente com Bourdelle.

Esta Académie de la Grande Chaumière já atraiu artistas de muitos países, de diversas gerações, nestes cem anos, e praticantes das técnicas mais diversas. Porque a Grande Chaumière é uma academia livre, qualquer um pode desenvolver a técnica que quiser. É assim, desde que foi criada em 1901. Alexander Calder (1898-1976), norte-americano; Amedeo Modigliani (1884-1920), italiano; Joán Miró (1893-1983), pintor espanhol, todos sentaram nestes mesmos bancos que vi ao meu redor.

Também alguns artistas brasileiros vieram desenhar aqui, como Lasar Segall, Quirino Campofiorito, Antonio Bandeira, Vieira da Silva e outros.

Ontem, desenhando e pintando junto comigo, tinha umas 40 pessoas, dispostas em semi-círculo em volta de uma modelo francesa, muito simpática, que posou nua. A primeira sessão foi de 45 minutos. Pausa de uns quinze minutos para um lanche servido pela administração da escola: chás diversos, espetinhos com legumes e embutidos, pães, vinho, suco... Depois mais quatro sessões de 25 minutos cada, com pequeno intervalo de 5 minutos, quando a modelo aproveitava para descansar.

Fiquei observando as pessoas, enquanto tomava meu chá, tentando adivinhar o que faziam, se eram pintores, ilustradores ou escultores, se tinham atelier, se eram conhecidos... As madeiras onde apoiamos nossas pranchas de trabalho são as mesmas há mais de cem anos. De tão usadas já estão meio roliças. Os bancos, alguns cobertos com couro, são os mesmos bancos rústicos usados há mais de cem anos, dezenas deles de várias alturas, dependendo da posição que se toma em relação ao lugar onde está a modelo.

Ela fica na frente, numa espécie de altar onde ela é a deusa. Ou o deus, no caso dos modelos homens. Em torno desses modelos, centenas de artistas se juntaram aqui, estudando cada detalhe da anatomia de seus corpos, a direção do jato de luz lançado sobre os modelos, as projeções das sombras, os valores dessas diversas gradações entre luz e sombra... Desenhando, repetimos em nossas pranchas as formas do que vemos.

É muito bom poder viver isso pessoalmente! É muito boa essa experiência de conviver com tantos desconhecidos, de várias idades, que falam uma língua diferente da minha (e talvez outras), mas que nos unimos na mesma e universal linguagem da Arte, na qual todos nós nos compreendemos uns aos outros. Neste espaço de la Grande Chaumière, junto com essas pessoas, lembrei de uma frase de origem africana da qual gosto muito e que explica o que penso também sobre fazer Arte:

"Se você quer ir rápido, vá sozinho. Se você quiser ir longe, vá com outros!"

Ontem desenhei em meu caderno, além do corpo da modelo, toda a minha própria ventura de estar aqui...


A modelo, enquanto se preparava. Em primeiro plano, meu material de desenho. Logo atrás, a madeira que apoia o material do artista, já tão gasta de tanto uso

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Meia noite em Paris


Neste domingo tive um encontro inusitado, mas bastante satisfatório. Estava passeando entre os corredores de um lugar arborizado, quando resolvi aproveitar a oportunidade das presenças importantes ao meu redor e convocar certas pessoas para uma importante reunião.

Camille Corot, auto-retrato
O primeiro que chamei foi Camille Corot e ele me ajudou a chamar todos os outros: Jacques Louis David, Georges Seurat, Jean-Auguste Dominique Ingres e Eugène Delacroix. Marx Ernst estava ali por perto, mas como não tenho interesse nas ideias dele, deixei de fora. Estávamos todos no cemitério Père Lachaise, com mais dezenas de outras figuras importantes da história francesa.

O encontro foi no Jardim do Crematório, um lugar tranquilo, cheio de flores coloridas bem arrumadas nos canteiros. Achei que era um bom lugar para esse encontro, um lugar fértil, adubado com as cinzas de milhares que já foram incinerados neste forno, cuja chaminé escura paira poderosa ao lado da abóboda do prédio.

Ingres, auto-retrato
Tive muito trabalho, no começo, para acalmar a verdadeira balbúrdia que se instalou entre meus convidados. Ingres queria partir para cima de Delacroix, macambúzio, no seu canto, enquanto Corot queria entender porque David nunca teve coragem de abandonar o atelier e ir pintar ao ar livre, ao que David respondeu que preferia as sombras projetadas dentro de um quarto fechado do que a luz chapada do sol nos campos. "Para isso você bem podia ter sido Barroco, mas faltava arrojo e você preferiu ser o queridinho dos salões!" Deixamos os dois e encontramos Pissarro que, por sua vez, tentava convencer Modigliani de que as figuras não precisavam ser tão esguias assim, nem tão chapadas. Modigliani berrava e gesticulava em italiano, sem ouvir uma palavra do pintor francês.

Georges Seurat tentava estudar os pequenos pontos luminosos que atravessavam as folhas das árvores, dizendo a Corot que ele não precisava ter sido tão literal assim, que bastava olhar para a luz, como ela se comportava em pequenos pontos, mas Seurat, indignado, gritou com ele que esse negócio de pontilhismo é para quem não sabe nem a sombra de como se usa um pincel!

Delacroix, auto-retrato
Enquanto Ingres se inflamava cada vez mais com Delacroix, David também se achou no direito de cobrar deste uma posição política mais definida. "Como assim?", perguntou Delacroix. "Você não viu que eu pintei a maior obra prima da Revolução, A Liberdade guiando o povo?" - Sim, respondeu David, mas eu falo de ação, camarada, de ação! Ao que Delacroix respondeu: você foi tão bonapartista quanto eu! Voilà!

Bom, como vi que a coisa estava cada vez mais fora de controle, dei um berro muito alto, usando da minha autoridade de idealizadora da reunião:

- ARRÊTEZ-VOUS, S'IL VOUS PLAÎT!!! Parem já!

Assustados com meu grito feminino quase histérico, eles me olharam. Continuei:

- Chamei vocês aqui porque tenho coisas importantes a discutir, então esqueçam suas desavenças e gostos pessoais. Esta aqui é uma reunião de trabalho!

Pissarro, auto-retrato
Ingres resmungou, David que já estava mais animado por uma briga, parou estático. Os outros ficaram ali, me olhando; Pissarro com um sorriso debochado. Não liguei.

De longe, à esquerda, ouvia-se a voz de Edith Piaf cantando "Je ne regrette rien", enquanto no lado oposto, mais ao fundo, Mozart solfejava uma sinfonia... O corvo preto que tinha pousado no jardim à nossa frente, levantou vôo, pousou num galho e deu um grito. Os communards (combatentes da Comuna de Paris), aglomerados no canto direito, próximo ao muro, faziam alguma algazarra, enquanto se ouvia a Marselhesa. Também dava para se ouvir berros violentos que vinham do lado onde estava Balzac. Ele gritava à queima roupa no ouvido de Marcel Proust: - Vai conhecer a vida lá fora, irmão! Você não sabe de nada! Rien de rien!

David, auto-retrato
Paul Éluard, abraçado a Apollinaire, cambaleava, bêbado, recitando um poema.

Voltei aos meus amigos e falei:

- É o seguinte, amigos! Estamos vivendo tempos sórdidos, tempos estranhos. Eu sei que o tempo em que cada um de vocês viveram não era lá grande coisa, mas mesmo com as desavenças que havia entre os seus pares não chegava nem aos pés do isolamento em que uma grande parte dos artistas vive hoje.

David, para você ter uma ideia, desde que o conterrâneo de vocês, Marcel Duchamp, decretou que tudo é arte ("- que você tá falando?" berrou ele) Isso que você ouviu. Duchamp, que nunca ia a museu algum e que dizia que detestava pintura, acreditem, é hoje a musa principal que inspira a nova academia: a que cria dezenas de alunos que não precisam aprender a desenhar, mas vão aprendendo que uma boa ideia vale mais do que mil palavras! (- "Não estou entendendo nada", resmunga Ingres).  Pois é, amigo, nem você, nem eu, nem ninguém. E para eles quanto menos gente entender melhor. ( - "Mas como não se aprende a desenhar se o desenho é a base de tudo?", insistiu Ingres) Simplesmente porque hoje em dia se você tiver uma formação conceitual dessa academia aí, não precisa mais desenhar. Desenhar o que? Desenhar pra que, se não é preciso criar nada daí? Hoje, artista e designer é tudo a mesma coisa. Se duvidarem de mim, podemos ir agora ao Museu George Pompidou e ver as salas separadas para apresentar a arte dos anos atuais: cadeiras, móveis, enfeites, badulaques de todo tipo, penduricalhos espalhados, mais parece um grande parque de diversões! E na tal da FIAC, então? (- "Que diabo é FIAC?", perguntou Pissarro) A tal da Feira Internacional de Arte Contemporânea. Vocês vão e lá e verão: penduricalhos, badulaques, trastes, trecos pendurados... É isso, hoje a arte é para ser divertida, tocada, brincada, manipulada, ultrapassada... (- "Principalmente ultrapassada", disse Seurat) Voilà, Seurat, isso mesmo!

Túmulo de Ingres, no Père Lachaise
Agora, não para por aí não. Os quadros que vocês fizeram e que nem venderam tanto enquanto vocês estavam vivos, hoje em dia não valem nada, quase nada perto de um tubarão envidraçado ou uma caveira de diamantes! (-"Que conversa é essa?" perguntou Delacroix. "Uma pintura de um tubarão e de uma caveira, o que isso tem de valor?") Não, meu caro Delacroix. Muito pior do que você pensa: o cara pegou um tubarão morto, jogou dentro de litros de formol, fechou num aquário de vidro e vendeu por milhões de dólares! (Os pobres coitados pintores me olhavam abismados) Porque hoje sabe quem manda no que se chama de arte contemporânea? O mercado. No tempo de vocês a igreja, a nobreza ou o Estado eram grandes compradores de arte. Hoje os grandes compradores são uns caras que ganham bilhões na Bolsa de Valores e, se compram alguma pintura de valor, é para ela ficar bem guardada esperando que valorize mais... Corot, ainda bem que seu amigo Gustave Courbet não está aqui hoje. Ele ia querer fazer outra revolução!

Mas meus amigos foram murchando, se movimentando lentos, cabisbaixos. Olharam para mim com pena. Corot ainda me perguntou se valia mesmo a pena ser pintora hoje. Vale, mesmo que seja por mim, respondi. Mas eles foram voltando quietos cada um pro seu canto. Minha reunião acabou sem ter acabado.

Gritei para eles:

- Mas há os que ainda resistem!

Delacroix fez um gesto amigo com as mãos. Ingres me desejou "bonnes chances, allez-y!", boa sorte, vá em frente.

Fui embora pra Bastilha.

Praça da Bastilha, Paris

domingo, 23 de outubro de 2011

Museu de l’Orangerie: de Monet a Sorolla

Parisienses no Jardim des Tuileries, se aquecendo ao sol


A tarde estava clara, céu azul e brilhante deste outono gelado. Nessa época do ano, o dia termina por volta das oito da noite, mas logo começa o horário de inverno e vai estender um pouco mais a luz sobre a cidade. As pessoas ficam lagarteando em cadeiras de ferro verdes espalhadas pelas Tuileries, buscando se aquecer ao sol, enquanto descansam. Ao fundo, à esquerda, lá longe, a Torre Eiffel desponta. Muitas pombas convivem aqui com as pessoas e patos nadam nas águas das fontes desse jardim imenso. Pessoas de todas as cores e línguas se cruzam.


Museu de l'Orangerie
Como não dá para ter certeza quem é da terra e quem é turista, perguntei para um senhor de pele muito negra, que estava com um crachá da prefeitura, trabalhando na manutenção do Jardim: para que lado fica a entrada de l'Orangerie? Ele me apontou a direção, muito simpático, mas falando num francês super carregado de sua língua árabe-africana cujo “r” é impossível reproduzir. Vi alguns cabelos brancos despontando em sua cabeça, pensei o quanto já devia ter trabalhado nessa vida. E veio parar em Paris, para viver essa vida proletária, em busca da sobrevivência. Agradeci a ele e segui para lá, enquanto o rosto marcado e bonito desse homem passava pela minha mente, em massas que iam do azul ao laranja, do marron escuro ao verde; vontade de pintar seu rosto.
O Museu de l’Orangerie fica localizado no Jardim des Tuileries, à direita de quem está olhando para o Louvre e sua pirâmide de vidro. O Museu tem esse nome por ter sido construído sobre um antigo laranjal. Foi construído em 1852 pelo arquiteto Firmin Bourgeoais e concluído por seu sucessor Ludovico Viscontias. Era antes a plantação de laranjas do Jardin des Tuilleries. 
Uma das grandes "Nympheas" de Monet
Na entrada, como sempre acontece nos museus maiores daqui, fila para comprar o bilhete. Mas como eu estava com meu ticket para quatro dias, entrei direto.
Logo no piso superior, um anúncio de que ali estavam expostas as famosas Nympheas de Claude Monet, o grande pintor impressionista que postou seu cavalete ao sol de Giverny e pintou aqueles jardins cheios de plantas aquáticas. São telas gigantescas, dispostas em paredes arredondadas. Para ver a tela inteira, há que se tomar uma distância. Mas eu também gosto de ver o pincel do artista, então fiquei examinando seu trabalho com as cores. Aquilo que os pintores, a partir de Tiziano, tinham descoberto – rompido com o limite da linha – os impressionistas alcançaram o máximo da aplicação de pinceladas em massas grandes, sem linha. As Nympheas, bem de perto, chegam a ser abstratas. Mas quando se distancia, vemos que toques de tinta configuram flores, folhas e paisagens.
São duas salas grandes, ocupadas por essas pinturas de Monet.
As meninas, de Renoir
Desci a escada e fui para outra ala do museu. Lá estão os impressionistas, mas também outros pintores, com obras do final do século XIX e começo do XX: André Derain, Auguste Renoir, Paul Cézanne, Gauguin, Alfredo Sisley, mais Monet, Matisse, Modigliani, Rousseau... Mas o pintor que eu não conhecia e que me chamou a atenção foi André Derain. Fiquei com vontade de ler mais sobre ele, de saber mais sobre sua vida.
Derain, pelo que li nas descrições do Museu de l’Orangerie, tinha sido um pintor fauvista, depois cubista, até que um dia entrou no Museu do Louvre e algo mudou dentro dele. Estava escrito lá na parede do l’Orangerie o que ele teria dito: "Mes idées ont été entierement effarées quando j’ai vu au Louvre les impressionistes expos és au côté de Rembrandt, de Rubens, de Velazquez, de Watteau, de Poussin, de Raphael... (...) Um Le Nain tout gris démolissait les Monet” (minhas ideias foram inteiramente abaladas, quando eu vi, no Louvre, os impressionistas expostos ao lado de Rembrandt, de Rubens, de Velazquez, de Watteau, de Poussin, de Raphael. (...) Um quadro de Le Nain (os irmãos Le Nain, que viveram em Paris por volta de 1630) todo cinza demoliu os quadros de Monet). Nesse momento, Derain se convenceu da superioridade dos mestres antigos e, continua o texto do Museu: “Derain renovou a cadeia, o que é mais difícil do que rompê-la”! Fui ver imediatamente as pinturas de André Derain de depois desse dia: realmente ele mudou a maneira de pintar, voltou à pintura pictórica e profunda; sem ser acadêmico; mesmo mantendo um viés bem atual. Gostei deste André Derain!
Arlequim e Pierrot, de André Derain
Saí da sala de Derain e fui ver os espanhois, com avidez. Os espanhóis são bons há 500 anos! Logo na entrada da primeira sala, um texto explicava que a Espanha, no século XIX havia estancado numa sociedade fechada e sombria. O país passava por uma crise muito forte e, enquanto o resto do mundo se iluminava com as ideias da Revolução Francesa, aquele país permanecia envolto em si mesmo. Os pintores de então resgataram seus mestres de antigamente, Vélazquez, Goya, El Greco. E produziam telas densas, cujas cores fortes impressionam logo de cara!
Anotei os nomes, para futuras pesquisas: Modest Urgell, Ignacio Camarolench, Santiago Rusiñol y Prats, Ignacio Zuloaga, Julio Romero de Torres, Dario de Regoyos y Valdés, Nicolau Raurich, Hermen Anglada-Camarasa, Joaquim Mi i Trinxel, José Gutierres Solana e o grande (que eu já conheço um pouco) Joaquin Sorolla!
Telas de Pablo Picasso
Solana, Rusiñol e Zuloaga que, em primeiro momento eram pintores de paisagens, resolveram mudar totalmente para pintar cenas de rua, essas pessoas que perambulam por aí, vagabundos, bêbados, esfomeados, banidos.
Vários deles tinham vindo para Paris e se encontravam em ateliês e studios que eles dividiam entre si em Montmartre. Picasso foi um deles. Pintavam a realidade que viam nas ruas desse bairro parisiense. Mas com sua visão espanhola, característica, formada dentro do estilo de mestres do passado, mas especialmente de Francisco Goya, o que dá para ver pela insistência no uso das cores fortes. Por Paris também passaram Joan Miró e Salvador Dali. O Dali que está aqui é ainda o Dali pré-surrealista.
Joaquin Sorolla
Terminei minha visita parando muito tempo em frente a uma tela grande de Joaquin Sorolla. Me lembrando de todas as conversas que temos lá no Atelier Takiguthi, em São Paulo, vendo como Sorolla resolvia o problema das grandes massas aos pequenos toques. Ele é muito mais impressionante de perto! Tudo o que já tinha visto dele era dos livros. Mas aqui, frente a essa tela, sim, dá para ver que ele de fato dominava seu trabalho. Como todos os mestres, Joaquin Sorolla gastara dias, meses e anos em estudo minucioso do mundo da pintura e sabia exatamente onde colocar cada pincelada, com o valor preciso, no jeito correto. Trouxe, em pensamento, alguns colegas e amigos do Atelier, para olharem comigo aquele quadro: Alexandre, Cleir, Luis, Luciane, Sérgio, Marcelo, Marie, Jorie, Misael... e Maurício. Nesse encontro virtual provocado pela minha vontade de ter com quem comentar essa tela, “chegamos” a um só desejo: chegaremos lá, Sorolla! Para isso, vamos continuar ralando muito!
Joaquin Sorolla