quinta-feira, 11 de dezembro de 2025
Para que a gente não se esqueça
terça-feira, 25 de novembro de 2025
Viagem nordestina - III
| Vestimentas e atabaques das religiões de origem africana em São Luís |
São Luís é terra que acolheu minha família, na década de 1960. É onde passei minha adolescência e primeiros anos de juventude, antes de me mudar de vez para São Paulo, fazendo o mesmo caminho de tantos nordestinos antes e depois de mim. Quando chegamos lá, o povo era quase todo preto, descendentes de escravizados que foram arrancados de vários cantos da África, Guiné Bissau, Costa da Mina, Angola. Trouxeram sua cultura, que se misturou à dos indígenas, surgindo daí um imaginário riquíssimo que vai do Tambor de Mina ao Bumba-meu-Boi. Sua religião original, lá se configurou em recortes míticos, que passaram a incluir entre seus Inquices da tradição Bantu, os Encantados, os Voduns do Tambor de Mina da tradição Jeje e as figuras nativas, de inspiração indígena, os Caboclos. Assim que chegamos a São Luís, eu e minha família, passamos a ouvir os sons dos atabaques e tambores das Casas de Mina, sons que soavam estranhos a nós, que saímos de Caruaru. Aquelas reuniões de gente preta me atraíam e me intrigavam. Queria ir ver de perto, mas meu pai, muito católico, dizia que era coisa do diabo. Nessa época, não fui; depois, desobedeci, e adorei o que vi, ouvi e senti. Mas nem a proibição inicial me impedia de sentir as emanações que vinham dos terreiros.
Outras lendas também me arrancavam pavores, como das ilhas encantadas e das três serpentes que habitam o subsolo da ilha de São Luís. Sentia medo ao olhar para dentro das três janelas da Fonte do Ribeirão, no centro, onde as três serpentes moravam, habitantes dos três túneis que foram escavados no centro da cidade, nas guerras contra os holandeses e franceses. Até que um dia o feitiço passou e eu brincava alegremente nos blocos de carnaval que saíam exatamente da frente do cemitério ou da Fonte…
São Luís é uma ilha, o mar recorta a terra. Os ventos fortes fazem as areias das praias beliscar nossas pernas, enquanto ondas pequenas mas muito extensas vão se quebrando em sequência rítmica. Todos os dias o sol se põe no mesmo lugar (com alguma variação) desde a minha adolescência quando, diariamente, ia para a beira do mar ver a noite chegar, aprendendo que vida é sequência.
Com estes pensamentos, seguimos pela estrada, em direção inversa, margeando o litoral norte do Brasil. Assistimos a uma Lua Cheia brilhante às margens do Rio Preguiça, nas bordas dos Lençóis Maranhenses para, no dia seguinte, contemplar o sol tingindo o céu de inúmeros tons de vermelho, ao se pôr sobre o mar no Delta do Parnaíba. Vida seguindo, horizontes em movimento.
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| Observatório no Centro Dragão do Mar |
No final do dia, nos dirigimos para o Centro de Arte e Cultura Dragão do Mar. Estamos em Fortaleza, depois de rodar quase três mil quilômetros. O Dragão do Mar é o título que se dá a Francisco José do Nascimento, jangadeiro que se alinhou ao movimento abolicionista, que fez com que a abolição da escravatura se desse primeiro no Ceará. Um herói da pátria e dos pretos. Na praia de Iracema, bebemos água de coco vendida por um homem que havia deixado sua terra e passado anos a fio “sofrendo em São Paulo”. Voltou. “Aqui a vida não é fácil, mas é minha terra, minha gente”. E a viagem chegava ao fim, mas não antes de assistir ao filme de Kleber Mendonça, O Agente Secreto, no cinema do Dragão do Mar.
O diretor é do Recife, o filme se passa no Recife. Pernambuco indecifrável, minha terra indefinível, o Real não te comporta sem que se abram espaços que te caibam. Nos minutos finais do filme, uma catarse emocional me fez chorar até a última palavra do letreiro. O filme faz chorar? Não, o conjunto todo da obra me emocionou, e não me contive. Ter visto este filme depois de 15 dias mergulhada na cultura e na alma do meu nordeste, para mim foi o clímax, o ponto culminante de uma experiência que carregarei comigo sempre. Mas farei meus comentários sobre este impressionante filme de Kleber Mendonça, no próximo post.
sábado, 22 de novembro de 2025
Viagem nordestina - II
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| Artesão de Teresina |
terça-feira, 18 de novembro de 2025
Viagem nordestina - I
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| La Ursa |
No Alto do Moura, onde viveu outro mestre, o Vitalino, a imaginação se evidencia. Dona Nicinha arregimentou as mulheres e protagoniza um movimento feminista de criadoras de figuras feitas em barro (antes restrita aos homens). Mulher pode fazer o que quiser, mulher pode criar arte, diz ela, enquanto seu filho surge na escada, um filho adulto com síndrome de down. No ateliê dela, imagens expressivas, totêmicas, orgânicas, intensas, nos chamavam. A "Abraçadeira", escultura de mulher preta e braços muito longos, criada por ela, nos enlaçava, enquanto uma lagartixa nos mostrava a língua. "Sou discípula do mestre Galdino", faz questão de apontar. Bichos com vários chifres nos divertiam, enquanto uma pomba branca sobrevoava um par de mãos. E aquele coração que a senhora criou? - Já tem outros donos… Qualquer hora faço outros.
terça-feira, 9 de julho de 2024
E os sonhos, sonhos são *
04/04/2023
O sol saiu, finalmente, e as luzes do outono já tingem as nossas vidas, nossas cidades, a Natureza. Sempre gostei desta luz, mais branda, parece que se espalha mais, porque desnuda mais as coisas do mundo. A luz forte do verão estoura nossa visão com complementares muito sombrias ou muito luminosas. Ou os dias são tórridos e resplandecentes, ou sombrios e acinzentados. E chove, muito. Neste ano então…
No Capinzal, onde se localiza nosso sítio , a estrada de terra ficou impossível com a chuvarada deste último verão. Em um determinado trecho, carros atolaram, caminhões evitavam passar, voltavam carregados de material que iriam entregar nas obras. Mas, após uma conversa entre moradores locais, surgiu a ideia de um abaixo-assinado pela vizinhança, para levar à prefeitura de Cunha. Deu certo. Dias depois um trator e um caminhão vieram consertar o trecho ruim da estrada. E os carros e caminhões voltaram a trafegar…
Minha construção caminha agora a passos mais largos, mesmo com calendário atrasado. Fernando já colocou toda a ferragem dos baldrames, já concretou sapatas e brocas. A etapa seguinte é concretar os baldrames, depois partir para o contrapiso para, enfim, começar a levantar as paredes da minha futura casa.
Dia desses sentei na sombra da árvore vizinha, observando o pedreiro trabalhar. A terra ainda estava úmida das chuvas do verão que foram torrenciais. Me lembrei dos dias e noites de angústia, quando ele me dizia que choveu muito à noite e não daria para ir no dia seguinte. Quando essa chuva vai parar? Pergunta egoísta, a chuva alegra a Natureza, a fertiliza, a prepara para as brotações todas. Então, sob a sombra da árvore, comecei a ver que a chuva tinha feito uma lavagem do terreno todo, uma lavagem do lugar que nos recebia. Para que reclamar? Os mistérios do mundo são maiores, assim o sabem as Iyawôs da Bahia, lavando as escadarias da igreja do Bonfim. Salve Oxalá!
Às cinco horas da tarde, depois do descanso porque o sol estava a pino, fui na casa de uma vizinha. Chamei da porteira, um cachorro latia, bravo. Ela saiu à frente da casa, brigando com o cãozinho e me falando para entrar. Tinha ido buscar um queijo que ela mesma faz com o leite das suas vacas, queijo delicioso, no ponto certo do sal. Mas, além do leite, levei uma sacola com limões e chuchus, enquanto ela me dizia para voltar dali uns dias porque iria ter laranja e mexerica. O povo da roça gosta de dar presentes, forma afetuosa de acolhimento. Sempre me surpreendem esses mimos pois, na cidade grande de onde venho, o dinheiro é o rei até mesmo das relações sociais. Talvez seja por isso que nos viciamos a não mais sonhar a não ser conosco mesmos, como acusa Davi Kopenawa, no “A queda do céu”.
Eu, que sempre sonhei e tinha orgulho dos meus sonhos fantásticos, havia parado de sonhar. Há anos, minhas noites vinham sendo um apagar-me de mim, por algumas horas. Breu, ausência, vazio. Restava-me alimentar os grandes sonhos-projetos, como os que me trazem a pintura, a poesia, a arte. Devanear, sonhar acordada, sempre fui boa nisso. Mas sentia falta dos meus sonhos noturnos, quando o corpo descansa e a alma pode voar pelos espaços e tempos infinitos. Graças às minhas recentes aproximações com outros mundos, os mundos dos indígenas brasileiros como Kopenawa e Krenak, ou os mundos da sabedoria africana dos Orixás sagrados, tenho descoberto que a vida é mais rica do que pode imaginar a nossa cada vez mais vã filosofia ocidental…
Neste sentido, essa transição a que me propus, de deixar a vida em São Paulo e ir em direção às raízes, mudando para o campo, tem muitos mais elementos a serem percebidos. Não é só arrumar as coisas, chamar um caminhão de mudança e levar tudo o que tenho, com meus três gatos, para minha nova morada. Ah as chuvas… Tanta reflexão pude fazer enquanto a chuva caía sobre a minha terra, que adiava a feitura da minha casa. Fui lendo Kopenawa e Krenak, fui absorvendo o conhecimento rico e profundo das nossas tradições mais puras, escondidas pelas florestas. Fui me entregando ao Ilê, dançando para os Orixás, me vestindo de branco, reverenciando essas heranças ancestrais que atravessam tempos não-lineares e que me levam a mundos fascinantes, dos quais antes não tinha conhecimento.
Minha formação é padrão: branca, ocidental, racional. Um mais um somam dois, jamais pode ser três, porque nesse mundo as potencialidades são assim pré-definidas. As aparências de tudo o que posso ver são estas mesmo, nada há por detrás. Nada do que se encantar que não seja dado pelo dinheiro. O antropocentrismo é inquestionável, a vida humana é a mais importante. A mente humana então? Nada é mais rico no universo. E assim seguimos destruindo nosso planeta e vivendo vidas secas: sonhando com altos salários, casas na cidade e na praia, os melhores SUVs do momento, as mais caras viagens pelo mundo, enquanto tomamos diazepans e rivotrils ou as melhores drogas anti-depressivas e anti-stress aprovadas ou não pela anvisa… Estima-se que até 2030 a depressão seja a doença mais comum no mundo inteiro…
Quando se volta a sonhar, o mundo se encanta. Tudo está interligado por um sutil encadeamento que faz árvore, pedra, estrela, pássaro, serpente, oceano, cachoeira, galáxia, planeta, buraco-negro, matéria-escura, criança, micróbio, areia, animal, átomo, rio, tudo dançar! E como esse mundo é embriagante, vamos nos embebedar dele, como propõe Baudelaire:
“É preciso estar sempre bêbado. Tudo está certo: única questão.
Para não sentir o horrível fardo do tempo que curva teus ombros e te faz curvar em direção ao chão, é preciso que você se embriague sem medo.
Mas se embriagar do que? De vinho, de poesia, ou de virtude, como você escolher. Mas se embriague!
E se alguma vez, sobre os degraus de um palácio, sobre a erva verde de um fosso, na solitude morna de seu quarto, você se levantar com a bebedeira já diminuída ou desaparecida, pergunte ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que se move, a tudo o que se lamenta, a tudo o que fala, a tudo o que canta, pergunte que horas são; e o vento, a onda, o pássaro, o relógio, irão te responder: – é hora de se embriagar!
Para não ser mais um escravo martirizado do tempo, embriague-se sem cessar! De vinho, de poesia, do que você quiser.”
* trecho do poema de Calderón de La Barca.


















