segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Pintar ou decorar

E a exposição vai entrando no décimo dia.

Mais uma vez, sou eu que fico de vigília aqui, eu e os quadros, como aconteceu em Paris, há alguns anos. Aproveito o tempo e leio, atendo os visitantes, mas a maioria não se manifesta, nem sabem quem sou eu, não ligam meus quadros a mim, isso não é óbvio. Mesmo que cada quadro que pinto seja eu toda, inteira, de um jeito que morro de vergonha de me mostrar... 

Mas existem aqueles que se aproximam, querem saber mais. Elogiam, principalmente aqueles que já fazem parte do mundo da pintura, o que é bom sinal. Mas há os que também elogiam por educação, ou porque de fato gostaram do que viram. Uma mulher me disse: "a arte de vocês é para chocar, conseguiram. Parabéns!" Agradeci, em dúvida se era um elogio, mas penso que sim. Os quadros se mostram para quem quiser vê-los, autônomos.

Estou lendo "A Pedra do Reino" de Ariano Suassuna e, de vez em quando acontece de eu precisar interromper a leitura para falar com algum visitante. Nessa hora parece que saio do livro como se fosse uma de suas personagens. Foi assim com Gabriel, um colombiano que já viajou muito, também desenha e pinta, e toca saxofone nos restaurantes de Cunha, para sobreviver. Faz uns desenhos à carvão, gigantes, depois imprime e cola nas paredes da cidade, lambe-lambes artísticos, expressivos, realistas. Me disse que só consegue vender alguma pintura se for decorativa. Se não, não. Concordei que as pessoas em geral só se interessam se o quadro combina com a decoração da sala. Quanto mais arte decorativa, mais chance de vender. Isso me aborrece de um jeito! Gabriel respondeu que precisa sobreviver, então é obrigado a pintar para fazer parte da decoração de alguém.

Hoje entrou um casal interessado em comprar. Os ouvi dizendo que precisavam escolher uma parede e, depois de escolhida, resolver entre dois quadros meus. Perguntaram sobre parcelamento, envio, etc. Chegamos a algum acordo, anotei um telefone, entrarei em contato. Quem sabe...

Que fazer! Não pinto para agradar cem por cento... mas seguirei pintando.



quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Para que a gente não se esqueça

No dia 5 de dezembro foi iniciada a exposição de pinturas a óleo, esculturas e peças em vitrofusão, na Casa do Artesão, na cidade de Cunha, interior de São Paulo. A mostra poderá ser visitada até o dia 2 de janeiro de 2026. Abaixo, imagens da exposição e das obras.













terça-feira, 25 de novembro de 2025

Viagem nordestina - III

Vestimentas e atabaques das religiões de origem africana em São Luís

São Luís é terra que acolheu minha família, na década de 1960. É onde passei minha adolescência e primeiros anos de juventude, antes de me mudar de vez para São Paulo, fazendo o mesmo caminho de tantos nordestinos antes e depois de mim. Quando chegamos lá, o povo era quase todo preto, descendentes de escravizados que foram arrancados de vários cantos da África, Guiné Bissau, Costa da Mina, Angola. Trouxeram sua cultura, que se misturou à dos indígenas, surgindo daí um imaginário riquíssimo que vai do Tambor de Mina ao Bumba-meu-Boi. Sua religião original, lá se configurou em recortes míticos, que passaram a incluir entre seus Inquices da tradição Bantu, os Encantados, os Voduns do Tambor de Mina da tradição Jeje e as figuras nativas, de inspiração indígena, os Caboclos. Assim que chegamos a São Luís, eu e minha família, passamos a ouvir os sons dos atabaques e tambores das Casas de Mina, sons que soavam estranhos a nós, que saímos de Caruaru. Aquelas reuniões de gente preta me atraíam e me intrigavam. Queria ir ver de perto, mas meu pai, muito católico, dizia que era coisa do diabo. Nessa época, não fui; depois, desobedeci, e adorei o que vi, ouvi e senti. Mas nem a proibição inicial me impedia de sentir as emanações que vinham dos terreiros. 

Mais à frente, vieram as histórias da lenda de Ana Jansen, uma assombração que percorria de noite as ruas da cidade. Ana Jansen tinha sido uma sinhá muito rica e muito má com seus escravizados. Quando morreu, por castigo, sua alma foi condenada a vagar sem descanso. Ela aparece em uma carruagem puxada por cavalos e mulas sem cabeça, que sai do cemitério do Gavião, no bairro Belira, toda noite de quinta para sexta-feira. 

Outras lendas também me arrancavam pavores, como das ilhas encantadas e das três serpentes que habitam o subsolo da ilha de São Luís. Sentia medo ao olhar para dentro das três janelas da Fonte do Ribeirão, no centro, onde as três serpentes moravam, habitantes dos três túneis que foram escavados no centro da cidade, nas guerras contra os holandeses e franceses. Até que um dia o feitiço passou e eu brincava alegremente nos blocos de carnaval que saíam exatamente da frente do cemitério ou da Fonte… 

São Luís é uma ilha, o mar recorta a terra. Os ventos fortes fazem as areias das praias beliscar nossas pernas, enquanto ondas pequenas mas muito extensas vão se quebrando em sequência rítmica. Todos os dias o sol se põe no mesmo lugar (com alguma variação) desde a minha adolescência quando, diariamente, ia para a beira do mar ver a noite chegar, aprendendo que vida é sequência. 

Com estes pensamentos, seguimos pela estrada, em direção inversa, margeando o litoral norte do Brasil. Assistimos a uma Lua Cheia brilhante às margens do Rio Preguiça, nas bordas dos Lençóis Maranhenses para, no dia seguinte, contemplar o sol tingindo o céu de inúmeros tons de vermelho, ao se pôr sobre o mar no Delta do Parnaíba. Vida seguindo, horizontes em movimento. 

Observatório no Centro Dragão do Mar

No final do dia, nos dirigimos para o Centro de Arte e Cultura Dragão do Mar. Estamos em Fortaleza, depois de rodar quase três mil quilômetros. O Dragão do Mar é o título que se dá a Francisco José do Nascimento, jangadeiro que se alinhou ao movimento abolicionista, que fez com que a abolição da escravatura se desse primeiro no Ceará. Um herói da pátria e dos pretos. Na praia de Iracema, bebemos água de coco vendida por um homem que havia deixado sua terra e passado anos a fio “sofrendo em São Paulo”. Voltou. “Aqui a vida não é fácil, mas é minha terra, minha gente”. E a viagem chegava ao fim, mas não antes de assistir ao filme de Kleber Mendonça, O Agente Secreto, no cinema do Dragão do Mar. 

O diretor é do Recife, o filme se passa no Recife. Pernambuco indecifrável, minha terra indefinível, o Real não te comporta sem que se abram espaços que te caibam. Nos minutos finais do filme, uma catarse emocional me fez chorar até a última palavra do letreiro. O filme faz chorar? Não, o conjunto todo da obra me emocionou, e não me contive. Ter visto este filme depois de 15 dias mergulhada na cultura e na alma do meu nordeste, para mim foi o clímax, o ponto culminante de uma experiência que carregarei comigo sempre. Mas farei meus comentários sobre este impressionante filme de Kleber Mendonça, no próximo post.

sábado, 22 de novembro de 2025

Viagem nordestina - II

Entramos como num lugar sagrado, pisando seu chão devagarinho… 

Fomos nos movimentando entre as figuras que habitavam a mente e o coração de Suassuna, seu reino mágico, onde a cultura brasileira - e a nordestina - é a maior riqueza a ser resguardada por todos nós. Em todas as colunas, paredes e tetos, arabescos pintados direto por Clécio em tons vermelhos, amarelos, azuis, verdes e terras, decoram e configuram a alma do castelo. Tudo absolutamente em acordo com o criador do Movimento Armorial. Há um andar dedicado ao cangaço, com fotografias, apetrechos, chapéus e roupas dos cangaceiros, mas também dos homens da Volante, os “macacos”. Crianças de uma escola vizinha chegaram e pediram licença à monitora para entrar. Ela consentiu, mas disse pra ninguém gritar. “Todo santo dia eles querem vir aqui”, disse ela. Fiquei pensando: como crescerão essas crianças, tendo frequentado esse castelo armorial mouro em Pernambuco, com suas estórias e histórias despertando fantasias e sonhos, falando de reinos distantes, de lugares chamados de Portugal e de Espanha? Uma gárgula verde concordou comigo, enquanto dois galos azuis e brancos, irmãos siameses, se entreolharam tocando os bicos. Aqui é o lugar onde o mistério habita. 

Parte da biblioteca de Ariano está lá, em uma estante também doada por ele. Velhas espingardas, botas e chinelos que calçaram os pés de antigos pernambucanos, pendem das paredes. Clécio recolhe objetos assim por todo o sertão, tendo acumulado uma riqueza cultural histórica sobre a vida, os costumes, a indumentária, as ferramentas de trabalho dos homens e mulheres do campo. Seu irmão nos abordou na calçada do castelo e começou a nos contar sobre o cangaço, com tanta intimidade, com tamanha paixão, que nos arrancou do colo de Ariano e nos levou ao colo de Lampião, Corisco e Antonio Silvino. O sol ardia sobre nossas cabeças, Juazeiro nos esperava, já não éramos as mesmas que iniciamos esta viagem. 

Juazeiro do Norte, terra do padim padre Cícero, o renegado pela igreja católica, lá pelos idos do século XIX, porque acreditara que jorrou sangue da boca de uma mulher preta a quem ele tinha dado a hóstia consagrada em comunhão. Fomos ver a santa preta, com seu vestido azul celeste vibrante, o mesmo azul do céu sem nuvens que cobre a terra seca do nordeste. Romeiros tinham chegado, aos montes, para a romaria de finados. Missas se revezavam entre as igrejas, e os chapéus de palha ainda são em quantidade suficiente para reverberar o dourado em movimentos de saudação ao santo padroeiro. Sertanejos de tantos lugares, das Alagoas ao Rio Grande do Norte, ainda são atraídos para as promessas e para as bênçãos do santo, padrinho dos nordestinos, padre Cícero Romão Batista. 

Mas era preciso continuar a viagem. Mais de quinhentos quilômetros entre Juazeiro e Teresina, estrada difícil, farta de caminhões grandes e pequenos, que era necessário ultrapassar com cuidado sempre. A paisagem mudava de agreste e seca aos verdes dos carnaubais. No carro, ouvíamos Torquato Neto, o poeta piauiense que se suicidou aos vinte e sete anos, amigo de Caetano, dono de composições tão lindas quanto um dos hinos da minha própria vida: “mamãe, mamãe, não chore, a vida é assim mesmo eu fui embora. Mamãe, mamãe não chore, eu nunca mais vou voltar por aí…” Eu, que sempre volto a visitar minha mãe, como estou fazendo agora. 

Artesão de Teresina
Teresina tem a graça oculta pelo extremo calor; esconde grandes poetas, violonistas, artesãos e intensos compositores como Clôdo, Climério e Clésio, todos Ferreira, irmãos de sangue. Autores de várias músicas que cantamos, como “Um dia vestido, de saudade viva, faz ressuscitar… Casas mal vividas, camas repartidas, faz se revelar…”; “Teu amor é cebola cortada meu bem, que logo me faz chorar, teu amor é espinho de mandacaru, que gosta de me arranhar…” E toda uma nova geração de artistas piauienses que nunca ouvimos falar para os lados do sudeste… Mas ouvimos falar da bebida Cajuína, que Caetano fez o Brasil conhecer, após um encontro com o pai de Torquato em Teresina, que, de tão memorável, fez o artista baiano ir embora pensando na vida. “Existirmos, a que será que se destina?”

Minha mãe nos chamava, queria saber, lá de São Luís, que horas a filha e a neta iriam chegar. Lá pelas quatro da tarde, mamãe. Temos horas de estrada ainda, de Teresina a São Luís, ouvindo João do Vale, enquanto gigantescos caminhões nos cortavam, ou cortávamos, pela estrada ruim. “De Teresina a São Luís” é o nome de uma canção de João do Vale, compositor maranhense que Nara Leão levou o Brasil a ouvir, cantando - ela e Maria Bethânia - “Carcará”. Depois de ouvir tudo deste cantor, fomos ouvir Josias Sobrinho, compositor, maranhense também, que conheci pessoalmente e que me encanta quando canto suas canções, como esta “Dente de ouro”: “Se eu tivesse no peito um novelo, eu tecia com ele um caminho, com o rumo voltado pra dentro, e aberto pro mundo todinho”...

(CONTINUA NO PRÓXIMO POST)

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Viagem nordestina - I

Pernambuco não é definível, aqui a imaginação captura qualquer racionalidade. 

La Ursa
Na porta do prédio Oceania, na praia de Pina, cenário para o filme "Aquarius" do diretor Kleber Mendonça, iniciamos uma viagem dias atrás. De lá, vagueamos entre as figuras de Brennand, na ilha em frente ao marco zero do Recife. Alguns apressados em definições rápidas, diriam: é um surrealista. Não, Brennand é pernambucano. Perambulamos pela rua do Bom Jesus, olhando os prédios velhos, espremidos, de onde figuras misteriosas se avistam, e se projetam, de vez em quando, sobre os transeuntes. Até as árvores do centro velho do Recife não são eretas, desequilibram-se, torteiam-se no espaço, desenham seres de outro mundo. De outro mundo, como a Perna Cabeluda, a La Ursa e o Papangu.

No interior da antiga casa de Olinda onde ficam guardados os bonecos do carnaval, a sensação de que estamos margeando mundos fantásticos se acentua. As figuras carnavalescas nos sorriem um sorriso tão indefinível quanto a cultura de onde venho: eu é quem não ficaria sozinha ali à noite com esses bonecos que nos olham fixamente, enquanto riem!… Saindo de lá, caminhamos por ruas e casas coloridas que enfeitam o carnaval todos os anos, mas também entramos em antigas igrejas e velhos mosteiros, com seus padres-anjos, que recebem fiéis na porta do templo com abraços. Um deles nos fez um aceno de simpatia e acolhimento. Na mesma igreja onde se encontram os restos mortais de Dom Hélder Câmara... 

Caruaru é de onde vim para esta vida e foi pra lá que seguimos. Antes, entramos na casa-museu do mestre da xilogravura, J. Borges, em Bezerros. Eu tinha viajado com a obsessão de encontrar um coração, qualquer um, em minha Caruaru. Das mãos que traçava figuras do imaginário fantástico daquele pedaço de Brasil, ilustrador maior dos poetas do Cordel, do Repente e das histórias que se espalharam por todos os sertões, intensificando ainda mais o imaginário nordestino, adquiri uma pequena reprodução de uma xilogravura do mestre, estampada em azulejo: era um coração vermelho, chamejante de tons de rosas, azuis e amarelos, radiado de branco. Levei-o comigo, como uma relíquia, meu coração. 

Minha Caruaru, o que restou dela, “é só um retrato na parede, e como dói!” (plageando Drummond). Nordestinos de vários cantos, com suas demandas de comprar panos, tecidos e roupas, fez da cidade um imenso comércio. De tudo que há no mundo, de roupa, tem lá em Caruaru. Meu velho rio Ipojuca, nas margens onde brinquei tanto na minha infância, é um esgoto, cheira mal, e a casa onde nasci não existe mais. Mesmo assim, o povo permanece na mesma labuta pela existência, assim como carrega a mesma veia criativa que explode nas festas juninas todos os anos. Algum olhar apressado pode ir embora sem enxergar a pulsação que cá existe, porque nordestino é desconfiado mesmo, pois gosta de parecer o que não é, pra rir depois… 


No Alto do Moura, onde viveu outro mestre, o Vitalino, a imaginação se evidencia. Dona Nicinha arregimentou as mulheres e protagoniza um movimento feminista de criadoras de figuras feitas em barro (antes restrita aos homens). Mulher pode fazer o que quiser, mulher pode criar arte, diz ela, enquanto seu filho surge na escada, um filho adulto com síndrome de down. No ateliê dela, imagens expressivas, totêmicas, orgânicas, intensas, nos chamavam. A "Abraçadeira", escultura de mulher preta e braços muito longos, criada por ela, nos enlaçava, enquanto uma lagartixa nos mostrava a língua. "Sou discípula do mestre Galdino", faz questão de apontar. Bichos com vários chifres nos divertiam, enquanto uma pomba branca sobrevoava um par de mãos. E aquele coração que a senhora criou? - Já tem outros donos… Qualquer hora faço outros.

A estrada nos chamava novamente, e partimos em direção a São José do Egito e Itapetim, terra dos meus pais, avós, bisavós… São José me ficou oculta desta vez, mas me pregou uma peça. A casa onde nos hospedamos era quase uma entidade, começou a falar comigo, não nos queria ali, atormentou meu sono, reativou meus medos, tive que gritar que não! não quero falar com você, aquelas sombras que passavam quase me agredindo, entidades donas daquela casa que invadimos com nossas presenças, bateram a porta de alumínio nos meus dedos, gritei de dor, elas riram, nos suportaram por uma noite e se livraram de nós na manhã seguinte. E nós dela, não dormiria ali de novo. 

Itapetim é a terra onde os poetas do Cordel e do Repente brotam em abundância, da forma mais natural. De lá são meus pais, registrados em cartório. No centro da praça da matriz, duas estátuas nos chamavam para abraçá-las: Padre João Leite, um antigo vigário que pregava que o povo tinha que se libertar da exploração, tinha que lutar e criar outro mundo, de justiça. O sertão vai virar mar! Um pouco mais atrás dele, o poeta Rogaciano Leite, com o braço esquerdo estendido, recitava um poema, enquanto concordava com o padre João. Rogaciano tem um poema - Os trabalhadores - inscrito numa pedra na Praça Vermelha, em Moscou. São nossos primos. Mas ainda tem nosso bisavô, Jovino Leite, que virou nome de rua em Itapetim. Ele era uma espécie de médico, misto, talvez, de curandeiro, pois atraía doentes de todos os lugares, de Pernambuco, Ceará, Paraíba, que o procuravam para se queixar - e se curar - de algum problema de saúde, nos idos dos primeiros anos do século XX… Isso bem antes do Padim Cícero e de Frei Damião…

Novamente a estrada se abriu, o sol andava alto, iluminado e quente, e no asfalto nos enganava com sugestões, quase delirantes, de alagamento no pavimento. Até o sol não é definível no sertão; lá ele também brinca com nossas certezas, nos faz ver o que não existe, pois o que não existe existe tanto quanto o que existe… Sorriso. Um portal à nossa frente, São José do Belmonte nos convida a entrar nas ruas da pequena cidade. E entrar no Castelo Armorial de Ariano Suassuna, feito por Clécio Novaes, no meio do sertão. Olhando assim, Belmonte é uma cidadezinha pequena comum; olhando assado, um universo de figuras míticas, místicas, misturadas a cangaceiros, profetas, reis e rainhas e a… Dom Sebastião, o rei de Portugal que nunca ninguém viu seu corpo morto e, por isso costuma renascer pelos recantos do Brasil. Iluminando o surgimento de figuras messiânicas como Antonio Conselheiro, de Canudos, e João Ferreira, da Pedra do Reino. O mar vai virar sertão!

(CONTINUA NO PRÓXIMO POST)

terça-feira, 9 de julho de 2024

E os sonhos, sonhos são *


04/04/2023

O sol saiu, finalmente, e as luzes do outono já tingem as nossas vidas, nossas cidades, a Natureza. Sempre gostei desta luz, mais branda, parece que se espalha mais, porque desnuda mais as coisas do mundo. A luz forte do verão estoura nossa visão com complementares muito sombrias ou muito luminosas. Ou os dias são tórridos e resplandecentes, ou sombrios e acinzentados. E chove, muito. Neste ano então…

No Capinzal, onde se localiza nosso sítio , a estrada de terra ficou impossível com a chuvarada deste último verão. Em um determinado trecho, carros atolaram, caminhões evitavam passar, voltavam carregados de material que iriam entregar nas obras. Mas, após uma conversa entre moradores locais, surgiu a ideia de um abaixo-assinado pela vizinhança, para levar à prefeitura de Cunha. Deu certo. Dias depois um trator e um caminhão vieram consertar o trecho ruim da estrada. E os carros e caminhões voltaram a trafegar…

Minha construção caminha agora a passos mais largos, mesmo com calendário atrasado. Fernando já colocou toda a ferragem dos baldrames, já concretou sapatas e brocas. A etapa seguinte é concretar os baldrames, depois partir para o contrapiso para, enfim, começar a levantar as paredes da minha futura casa.

Dia desses sentei na sombra da árvore vizinha, observando o pedreiro trabalhar. A terra ainda estava úmida das chuvas do verão que foram torrenciais. Me lembrei dos dias e noites de angústia, quando ele me dizia que choveu muito à noite e não daria para ir no dia seguinte. Quando essa chuva vai parar? Pergunta egoísta, a chuva alegra a Natureza, a fertiliza, a prepara para as brotações todas. Então, sob a sombra da árvore, comecei a ver que a chuva tinha feito uma lavagem do terreno todo, uma lavagem do lugar que nos recebia. Para que reclamar? Os mistérios do mundo são maiores, assim o sabem as Iyawôs da Bahia, lavando as escadarias da igreja do Bonfim. Salve Oxalá!

Às cinco horas da tarde, depois do descanso porque o sol estava a pino, fui na casa de uma vizinha. Chamei da porteira, um cachorro latia, bravo. Ela saiu à frente da casa, brigando com o cãozinho e me falando para entrar. Tinha ido buscar um queijo que ela mesma faz com o leite das suas vacas, queijo delicioso, no ponto certo do sal. Mas, além do leite, levei uma sacola com limões e chuchus, enquanto ela me dizia para voltar dali uns dias porque iria ter laranja e mexerica. O povo da roça gosta de dar presentes, forma afetuosa de acolhimento. Sempre me surpreendem esses mimos pois, na cidade grande de onde venho, o dinheiro é o rei até mesmo das relações sociais. Talvez seja por isso que nos viciamos a não mais sonhar a não ser conosco mesmos, como acusa Davi Kopenawa, no “A queda do céu”.

Eu, que sempre sonhei e tinha orgulho dos meus sonhos fantásticos, havia parado de sonhar. Há anos, minhas noites vinham sendo um apagar-me de mim, por algumas horas. Breu, ausência, vazio. Restava-me alimentar os grandes sonhos-projetos, como os que me trazem a pintura, a poesia, a arte. Devanear, sonhar acordada, sempre fui boa nisso. Mas sentia falta dos meus sonhos noturnos, quando o corpo descansa e a alma pode voar pelos espaços e tempos infinitos. Graças às minhas recentes aproximações com outros mundos, os mundos dos indígenas brasileiros como Kopenawa e Krenak, ou os mundos da sabedoria africana dos Orixás sagrados, tenho descoberto que a vida é mais rica do que pode imaginar a nossa cada vez mais vã filosofia ocidental…

Neste sentido, essa transição a que me propus, de deixar a vida em São Paulo e ir em direção às raízes, mudando para o campo, tem muitos mais elementos a serem percebidos. Não é só arrumar as coisas, chamar um caminhão de mudança e levar tudo o que tenho, com meus três gatos, para minha nova morada. Ah as chuvas… Tanta reflexão pude fazer enquanto a chuva caía sobre a minha terra, que adiava a feitura da minha casa. Fui lendo Kopenawa e Krenak, fui absorvendo o conhecimento rico e profundo das nossas tradições mais puras, escondidas pelas florestas. Fui me entregando ao Ilê, dançando para os Orixás, me vestindo de branco, reverenciando essas heranças ancestrais que atravessam tempos não-lineares e que me levam a mundos fascinantes, dos quais antes não tinha conhecimento. 

Minha formação é padrão: branca, ocidental, racional. Um mais um somam dois, jamais pode ser três, porque nesse mundo as potencialidades são assim pré-definidas. As aparências de tudo o que posso ver são estas mesmo, nada há por detrás. Nada do que se encantar que não seja dado pelo dinheiro. O antropocentrismo é inquestionável, a vida humana é a mais importante. A mente humana então? Nada é mais rico no universo. E assim seguimos destruindo nosso planeta e vivendo vidas secas: sonhando com altos salários, casas na cidade e na praia, os melhores SUVs do momento, as mais caras viagens pelo mundo, enquanto tomamos diazepans e rivotrils ou as melhores drogas anti-depressivas e anti-stress aprovadas ou não pela anvisa… Estima-se que até 2030 a depressão seja a doença mais comum no mundo inteiro…

Quando se volta a sonhar, o mundo se encanta. Tudo está interligado por um sutil encadeamento que faz árvore, pedra, estrela, pássaro, serpente, oceano, cachoeira, galáxia, planeta, buraco-negro, matéria-escura, criança, micróbio, areia, animal, átomo, rio, tudo dançar! E como esse mundo é embriagante, vamos nos embebedar dele, como propõe Baudelaire:

“É preciso estar sempre bêbado. Tudo está certo: única questão.

Para não sentir o horrível fardo do tempo que curva teus ombros e te faz curvar em direção ao chão, é preciso que você se embriague sem medo.

Mas se embriagar do que? De vinho, de poesia, ou de virtude, como você escolher. Mas se embriague!

E se alguma vez, sobre os degraus de um palácio, sobre a erva verde de um fosso, na solitude morna de seu quarto, você se levantar com a bebedeira já diminuída ou desaparecida, pergunte ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que se move, a tudo o que se lamenta, a tudo o que fala, a tudo o que canta, pergunte que horas são; e o vento, a onda, o pássaro, o relógio, irão te responder: – é hora de se embriagar! 

Para não ser mais um escravo martirizado do tempo, embriague-se sem cessar! De vinho, de poesia, do que você quiser.”


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  • * trecho do poema de Calderón de La Barca.

Tempo, vou te fazer um pedido!

 02/03/2023

Uma casa tem vida e construí-la é um processo de amadurecimento — do lar e de quem lá viverá. Na ecomunidade, o terreno é aplainado; os alicerces logo serão fundados. E esta gravidez de habitar já está povoada de novas e velhas sensações.

O clima chuvoso não tem dado trégua. Desde novembro, praticamente todos os dias chove na região de Cunha. Desde leves e insistentes garoas até pancadas d’água rápidas e vultosas, ou mesmo chuvas tempestuosas que duram horas, deixando a terra encharcada. Enquanto isso, o projeto da minha futura casa foi se modificando, porque o ente “casa” é um ser vivo, se movimenta por dentro de mim e também no papel e no terreno real.

Mas antes é preciso dizer que nada do que sei agora, eu sabia há poucos meses. Por exemplo que, para dar vida ao projeto é preciso preparar a terra; o terreno deve estar moldado para ser uma base plana e sólida, onde o pedreiro vai escavar as valas para o alicerce, montar as sapatas, abrir as brocas. Mas as chuvas vêm atrasando toda esta fase. O tratorista conseguiu, em um abrir de sol de dois dias, passar a máquina e deixar a terra aplainada. O pedreiro Fernando, que também é artista ceramista, pouco tem conseguido fazer com o trabalho de escavar as valetas. Ainda não chegou nas sapatas e nem nas brocas, porque… ah… chove, chove, chove…

Enquanto isso, a área coletiva vem ganhando riquezas incríveis: temos três pontezinhas de madeira feitas por nossos amigos Dito e Rodolfo. Elas agora nos permitem atravessar os pequenos riachos e áreas encharcadas. Também chegou nossa energia elétrica: foi instalado um poste e um grande transformador. A distribuição através do terreno será feita por estes dias, uma rede elétrica interna da Eco Bem Viver, feita com postes de eucalipto tratado. Nossa horta coletiva já produz abóbora, abobrinha, feijão, milho, melancia. Na terra fértil, a vida é um arrebentamento! Arrebata!

Pretendemos respeitar todas estas formas de vida, neste lugar que escolhemos para viver. Afinal, neste momento em que vivemos, é esta uma das grandes lições que nosso maltratado planeta está a nos mostrar: a cadeia imensa que envolve todas as formas de vida avisa como é importante o trabalho das abelhas, das formigas, dos fungos, dos sapos, das serpentes, das árvores, dos morcegos, dos arbustos, das gramíneas, de cada besouro grande ou pequeno que toda noite, no verão, “fica dando volta em volta da lâmpida”, dentro de casa.

Em apenas um ano já traçamos as ruas, definimos as cotas, roçamos, plantamos, colhemos, construímos. Temos uma pequena casa de dois cômodos, varanda e banheiro seco. Será nosso lugar de guardar ferramentas e beneficiar as coisas da horta na varanda. Nosso lago, que antes era um buraco informe, está cheio de água da chuva, ainda barrenta, mas que atrai os sapos e pequenas formas de vida. Consigo vê-lo no futuro: água limpa, espelhada, com peixinhos nadando, cercado de flores e pequenos lugares cobertos de plantas, criando sombras para os bancos onde nos sentaremos para contemplar essa beleza.

As primeiras duas casas em construção - a minha é uma delas - terão paredes de tijolo ecológico, o tijolo que não precisa queimar madeira, nem soltar fumaça. Também não precisa de todo o cimento da construção de alvenaria tradicional, onde se usa fazer chapisco e reboco. As paredes de tijolo ecológico, quando levantadas, praticamente já anunciam que a casa está pronta, e apenas precisa receber o telhado. Para o acabamento, penso também em simplicidade e muita criatividade com pias, balcões, torneiras, cimento queimado, iluminação. Teremos um sistema de aproveitamento das águas das chuvas. Os banheiros terminarão num sistema biodigestor, assim como as águas “cinzas” serão reaproveitadas para as plantas que usam muita água, como as bananeiras.

Mas dizia que minha casa é um ser vivo. Sua concepção inicial nasceu de uma conversa entre mim e um amigo arquiteto, que se dispôs a me auxiliar no projeto. Sua ideia: uma casa grande, com uma grande sala redonda coberta por uma laje também redonda, onde eu poderia subir para pintar de dia e contemplar as estrelas de noite. Que encanto! Falei dela e dos efeitos que me causou em outro texto aqui. Passei três meses me imaginando dentro dela, adorando suas curvas que remetiam às curvas naturais, das árvores às galáxias. Mas a realidade foi me mostrando os limites desta construção: estruturar uma forma redonda, desde sua fundação, passando por suas paredes e todo o sistema de sustentação da grande laje é um processo muito difícil, que exige muito primor e custa caro.

Era começo de dezembro e chovia. Eu em São Paulo, esta ilusória zona de segurança. Sempre durmo bem, deito e adormeço. Mas isso começou a se alterar: ficava horas mudando de lado na cama, corpo irrequieto porque a cabeça estava longe dali. Descobri que o corpo dói e não encontra boa posição quando os pensamentos afastam a cabeça do corpo. Era preciso tomar uma atitude. Tomei. E o projeto da casa se movimentou: as paredes curvas se tornaram retas, a laje se transformou em telhado, a casa encolheu, ficou mais aconchegante. Voltei a dormir…

Por isso, ainda bem que choveu o tempo justo para que a casa fosse amadurecendo em mim. Como numa gravidez, vou pegando meu projeto nas mãos, afagando sua forma, redesenhando-a, me familiarizando com os lugares que vão ser criados, imaginando minha vida dentro dela, enfeitando-a, cuidando dela, ela cuidando de me dar abrigo e proteção. Já me sinto intrinsecamente ligada a esse ser em construção.

Nessa gravidez, mil pensamentos ficam dando volta em volta de mim, como os besouros. Ideias surgem, algumas são afastadas; de outras, tomo nota. Sensações novas ou velhas me povoam, assim como emoções e lembranças. Todo este processo tem sido vivido com uma intensidade que eu nem sei… Dia desses me perguntaram: — em nenhum momento você tem dúvidas? Resposta: — sim, muitas vezes! Vez por outra acontece de o espaço-tempo parar, numa singularidade que é minha conhecida, e tremo diante da constatação de que mais uma vez farei uma inflexão importante em minha vida. Mas não tem mais volta. A escolha já foi feita e não há como voltar a uma vida que não faz mais sentido e nem à mulher que já não sou. São Paulo ficou pequena demais para a menina que nasceu em Caruaru e que está envelhecendo… Por isso está chegando a hora de partir, a hora de mais uma vez queimar meus navios, ou parte deles. Vou para a casa ainda em construção,  quase como se viajasse para meu próximo futuro?

A meu ver, volto para mim mesma, a garotinha, filha, neta e bisneta de pessoas simples que viviam uma vida simples no sertão nordestino. Mas se às vezes me espanto e prendo a respiração, é só para que o pulsar da vida lateje com mais vigor. Sonhando para que, nesse ritmo, a vida seja mais poesia.

Os festeiros do Divino em casa

 8/12/2022

A sala se transformou num terreiro circular, e onde estavam os quatro homens surgiram sumaúmas com suas raízes profundas. Não eram mais quatro vozes, eram milhares, porque toda a ancestralidade se fez presente. Nossas almas se encantavam.

Era meio-dia e tudo estava em silêncio, até os pássaros e os ventos. Domingo claro de sol, céu azul. Terminei de guardar as coisas que trouxe de São Paulo, dei uma olhada geral na casinha alugada, nosso pouso até termos os nossos. Ouvi o som de motor de carro, alguém passando em alguma estrada de terra. Logo soube que íamos receber visitas!

Minutos depois dois carros chegaram, uma Kombi e um Fiat. De dentro deles saiu uma ruma de gente, vestida de vermelho e branco, carregando um mastro cheio de fitas coloridas, encimado por uma coroa de rosas vermelhas em torno de uma pequena pomba branca. “São os festeiros do Divino Espírito Santo”. Depois de nos cumprimentar, se apresentaram: uma moça disse que ela e o esposo eram um dos sete casais escolhidos para fazer a Festa do Divino de 2023. Vinham com ela os festeiros, as rezadeiras. Dois homens portando duas violas, um outro um tambor e um quarto trazia seu triângulo. Pediram licença, entraram na sala.

As mulheres puxaram as rezas e todos nos portamos em círculo em volta de uma pomba branca. Veio junto o mastro com suas fitas coloridas e rosas vermelhas. Ele trazia bênçãos para nossas casas, famílias, o bairro todo. Pensamentos, racionalidade, urbanidade logo se afastaram: eu me via novamente surpreendida pelos mistérios do mundo. É quando sou outra.

O canto começou. As duas violas fizeram uma espécie de introdução seguindo o ritmo do tambor e do triângulo. Quatro vozes masculinas, em tonalidades diferentes, entre baixo, contralto, tenor e soprano trouxeram uma música que atravessou tempos, séculos e tradições. Era alguma louvação ao Divino Espírito Santo que lembrava o velho cantochão dos monges da Idade Média. Em ritmo suave, as sílabas se estendiam com a respiração dos quatro camponeses que arrancavam do fundo de suas respirações e almas um novo impulso sonoro, mais grave, mais agudo, mais intenso.

Na minha miragem, nu lugar da sala onde se postavam os quatro homens, vi surgirem quatro árvores, com raízes muito profundas como Sumaúmas, Ipês e Sibipirunas. Aquele canto virou um canto da Terra, que subia através das raízes e se alastrava pelo ambiente, cujo ritmo alongado, lento, parecendo um lamento, reverberava em nossos corpos, mulheres e homens naquela sala. Não eram mais quatro vozes, eram milhares, porque toda a ancestralidade de todas as pessoas se fez presente. Nossas almas cantavam, encantadas. A música, sabemos, fascina e carrega misteriosos encantamentos capazes de nos arrancar de determinado espaço-tempo. 

Os Festejos do Divino se espalham pelo Brasil inteiro. Foram trazidos pelos portugueses, mas se fala de registros destas festas no século XIII na França. Chegaram na Península Ibérica, alcançaram Portugal, atravessaram o Atlântico. Aqui chegando cruzaram com duas tradições fortíssimas: os indígenas e os africanos. Que acrescentaram de si a esta festa, enriquecendo-a com sons, cores, danças, falas, línguas, culinárias, gestos. Amálgama cultural brasileiro. Antropofagia belíssima que somente acontece em nossa terra.

Em Cunha, a mistura se fez com brancos, indígenas e africanos. Por isso, naquele canto a quatro vozes, grave, em andamento larghissimo, que eu me esforçava para compreender alguma palavra, podiam conter francês, português arcaico, latim, tupi-guarani, yorubá, português brasileiro… “Tupi or not Tupi”… E ressalte-se que, em julho, nos dias dos festejos do Divino haverá a Congada, tradição africana de origem angolana e congolesa, festa milenar que aqui também passou, como outras, pela nossa oswaldiana canibalização, nossa mania de “comer” e deglutir o estrangeiro… 

Terminada a cantoria, fomos convidados a acompanhá-los num almoço num sítio vizinho, onde a dona da casa iria receber os festeiros e todos os que quisessem se juntar a eles. Lembrei das festas de Santo nos terreiros de Candomblé, onde todos os presentes se reúnem numa grande ceia, ao fim da festa, se alimentando do Axé do Orixá.

Aqui esta festa que já dura 300 anos, a preparação se inicia meses antes, como agora, onde um casal de festeiro guia os outros para recolher donativos que garantirão a grande festa. No dia, mulheres jovens e velhas saem de suas casas carregando suas peneiras para ajudar a catar o feijão do almoço. São sacas e sacas de feijão e arroz, kilos e kilos de carne. Já se chegou a alimentar mais de 20 mil pessoas há alguns anos. Todos são convidados a esta imensa mesa, cheia de axé, cheia de bênçãos, feita por tantas mãos. 

Deixaram conosco um pequeno pacote de sal. “Sal bento”, afirmaram. É pra ser acrescentado ao sal da casa, ao sal dos animais, semear nas plantas. Tudo isso trará fartura e prosperidade para a casa e a família. Saravá! 

Entre a metrópole e os vagalumes

24/11/2022

A chuva desaba sobre o ranchinho, onde a ecomunidade começa a existir. De manhã, todos chegam para celebrar juntos, caiando as paredes; um ano de construção! Na cidade, meu coração bate como o desafio dos sapos: estou? Não estou?

Os preparativos para o começo da construção da minha casa estão iniciados. Agora sonho com tijolos, me vejo dentro de paredes erguidas em prazo mais curto do que jamais pude prever, passeio e danço em minha sala redonda.

De novo peguei a estrada, domingo de manhã. Há poucos dias o Presidente Lula foi eleito e a extrema-direita ainda estrebucha. Vi suas marcas em dois pontos do asfalto da rodovia Presidente Dutra, pontos onde queimaram pneus, bloquearam o trânsito, estes fascistas. Manchas ameaçadoras, elas trazem de volta esses seres capazes de gritar as piores barbaridades, de pregar as piores mentiras, de acreditar nos maiores absurdos, cegos de fanatismo. Mas … “a História é um carro alegre, cheio de um povo contente, que atropela indiferente todo aquele que a negue”… Melhor me ligar na voz de Bituca.  

Levo comigo dentro do carro, além de um fogão usado e outros objetos que serão úteis nesta fase inicial da comunidade, a planta baixa da casa e imagens em 3D do projeto. O pensamento volta: que alívio termos derrotado a extrema-direita nestas eleições presidenciais. Novamente podemos sonhar! Todos os nossos projetos, pessoais e coletivos, estão autorizados a serem sonhados e executados. O contrário disso seria viver num país impossível, vendo serem erguidos valores carcomidos pelo tempo e pela história; seria continuar a assistir ao desmonte da cultura, da educação; da derrubada de mais hectares das nossas florestas; da perseguição e da violência contra os indígenas, contra os defensores do meio-ambiente e contra nosso povo preto. As hienas fascistas ainda permanecerão grunhindo por um tempo. Uma hora qualquer se calarão.

Cheguei em Cunha, fui direto pro Capinzal, onde fica a terra. O dia estava nublado, sem sol, mas iluminado. Nuvens cinzentas se avistavam na Mantiqueira, ao longe, e na Bocaina. A previsão é de chover durante a semana toda, mas ainda não começou. Passei na casinha alugada, peguei a chave do rancho que construímos, para deixar lá o fogão. Estava sozinha para carregá-lo mas encostei o carro o mais próximo possível e lembrei da velha máxima de Arquimedes que sempre uso como argumento quando alguém se espanta com a minha força: “dê-me uma alavanca e um ponto de apoio e moverei o mundo”. Mundos movidos, fogão lá dentro, volto para a casinha.

Passei a primeira noite da vida sozinha numa casa de roça. Sensação nova, instigante. A noite veio sem lua no céu, mas ela está lá, cheia, escondida atrás de densas nuvens. Amanhã o Sol a eclipsará totalmente. E como eclipses e luas movem coisas cá embaixo, as nuvens desabaram. Um barulho de vento e chuva e raios e trovões caiu sobre a pequena casa de tijolos de olaria. Mas durou pouco, depois veio o silêncio. Eu já me deitara sob mil cobertas por causa do frio de 10 graus de novembro (!) e ouvia o silêncio… Dentro dele, identifiquei um som longínquo de um avião passando a quilômetros de altura, em sua rota aérea. Depois outro, depois outro… Até que veio a cantoria dos sapos: foi, não foi! Fui, não eu! Foi sim, fui não…

Amanhecido, o dia trouxe outras pessoas. Fui para o local da minha cota de terra, observar o rapaz e sua roçadeira cortando o mato que já ia alto, por causa das primeiras chuvas. Também limpamos os pés de milho, fava, feijão e abóbora da nossa primeira horta coletiva. Fomos, munidas com o facão, cortar alguns pés de Lírio-do-Brejo, abrindo uma trilha para encontrar o pequeno riacho que margeia nossa mata. Mas as águas tinham subido e o terreno estava encharcado. Resolvemos limpar o mato em volta do nosso lago e plantar mais sementes na horta. Aproveitei, peguei a enxada e fui transplantar três mudas de abacate que tinham sido colocadas bem no local onde ficará minha futura casa. Plantei-as em lugares mais seguros, assim como tinha feito com minha muda da árvore Pau-Ferro, que agora define um dos cinco cantos da minha cota.

Sentei no meio do chão roçado, contemplando meu lugar, tomando posse. A Ecomunidade Bem Viver completou, em 7 de novembro, o primeiro ano de existência. Resolvemos comemorar todos juntos no próximo fim de semana. Quanta coisa aconteceu em tão pouco tempo! Em um ano apenas, compramos o terreno, registramos os documentos, roçamos a terra, o trator abriu as ruas entre as futuras casas, construímos uma primeira casinha, captamos as primeiras águas da fonte que nos abastece, solicitamos a instalação de eletricidade, demarcamos doze cotas, e duas casas estão prestes a serem erguidas. Mais outras virão, em breve.

Era pra chover todos os dias, mas choveu pouco. Mesmo assim, os dias estavam nublados e frios, as noites escuras. A luz amarela que ilumina a casinha aquece pouco o ambiente. Mais aquecem nossas conversas, lembrando de tempos idos de nossas vidas, de tempos futuros que virão e nos encontrarão habitando aquele lugar emoldurado pelas montanhas e pela Mata Atlântica. Como background, o somo dos sapos: – foi, não foi! Foi, não eu! Foi sim, foi não… E assim seguia a arenga que se repete todas as noites. 

De repente, surge um brilho que foi crescendo e se tornou uma pequena nuvem luminosa na escuridão: vagalumes se acendiam e se apagavam, ritmadamente, acendendo a noite com seu pequeno lume. Estes insetinhos bioluminescentes, os vagalumes, surgiam como se estrelas descessem à terra para brincar com nossa imaginação e nos fazer novamente voltar a ser crianças, brincando de correr atrás das luzes enquanto repetiam a cantoria dos sapos, verdadeiras disputas que nos arrancavam gargalhadas. Foi não, foi sim…

O fim de semana trouxe todos os amigos do grupo, contentes de nos encontrar fisicamente depois de tantos meses. Semanalmente nos reunimos virtualmente, colocamos o papo em dia, resolvemos coisas, ações a serem tomadas, perrengues a serem enfrentados, decisões. E vamos nos conhecendo mais e mais, constatando que, como um coletivo, temos muita capacidade de criação e de empreendimento. Que grupo de pessoas fortes, aguerridas, dispostas ao imenso desafio de viver valores outros que não os somente impostos pelo sistema sufocante do capitalismo. Comemoramos este primeiro ano com festa e trabalho. Um deles, fazer à mão, com terra e cal, o reboco da primeira casinha que construímos, enfeitando-o com recortes de vidro colorido doados pela artista da modelagem com vidro, Sandra Tami, uma de nós.

De novo estou em São Paulo, de novo me preparando para voltar a Cunha. Hoje, lá fora, o tempo é inamistoso, as ruas estão barulhentas como sempre. Chove forte e meu pensamento voa em direção ao tempo em que eu era pequena, desobediente e rabugenta, sempre pensando em fugir. Estou fugindo deste lugar, baby… Desta vida na metrópole que cresce em verticais e que há algum tempo tem me feito sentir-me de novo deslocada, outsider outra vez. Daqui do meu sofá, nesta cidade, canto como os sapos: – Estou, não estou! Pertenço, não pertenço! Vou? Não vou! Vou!

O fim da ladeira?

 27/10/2022

Os dias se iluminam mais cedo na medida em que a primavera avança em direção ao verão no hemisfério sul. Época das primeiras chuvas. Acordei na casinha alugada na roça com os primeiros lampejos de luz, mas eram fracos. Choveu a noite inteira e ainda estava chovendo forte. Abri a porta da cozinha e olhei para fora: Zina, a cachorra, que sempre dorme ao relento, desta vez tinha se rendido e se enroscado ao lado do tanque na pequena área coberta. A natureza lá fora estava parcialmente oculta pelas gotas de chuva que caíam em cascata, deixando um vapor que se espalhava pelos morros. Os pássaros, sempre barulhentos e namoradores na primavera, se ocultavam em seus galhos. Mas eu precisava voltar para São Paulo, que fazer?

Os cinco quilômetros de estrada de terra que nos separa do asfalto são íngremes, irregulares. Numa parte há o cascalho, que até ajuda a passar com a terra molhada. Mas há trechos em que a terra havia virado um pó fino depois de meses sem chover. Há quatro ou cinco subidas e descidas que desafiam nossos carros feitos para o asfalto. A direção do carro fica quase incontrolável, ele desliza, entregue à lama, transversalmente à estrada. Na subida, isso complica pois os pneus patinam. Na descida, há que se impor ao carro o peso da gravidade, para que ele não saia desembestado ladeira abaixo. Perigo. Mas há qualquer coisa dentro de mim que sente uma força danada em situações difíceis… Deve ser porque sou brasileira.

Certa feita, há muito tempo atrás, eu estava dirigindo um Fiat 147 por uma estrada de terra no interior do Maranhão. Ia com dois rapazes, o carro cheio de panfletos e um megafone. Nos dirigíamos a um povoado distante da cidade mais próxima, Pedreiras, para apresentar aos camponeses do lugar o programa do primeiro candidato comunista depois do fim da ditadura militar. No Maranhão chove muito, quase o ano todo. A estrada era sofrível do começo ao fim, mas o carrinho era forte, fácil de manobrar nos buracos. Até que chegamos a um verdadeiro charco, que bloqueava a passagem. A única possibilidade era atravessar por uma rampa inclinada a uns 45 graus. Que fazer? Olhei pros meninos: vamos? Eram dois rapazes fortes, parceiros, sorridentes. Fomos. Eu na direção, guiando o carro através da rampa até quase virar, mas não virou, porque os dois seguravam o pequeno fiat do lado oposto ao meu. E chegamos no povoado rindo e nos sentindo os mais valentes.

Olhei para o aplicativo do celular, a previsão era de chuva o dia todo. Resolvi esperar para ver se a chuva diminuía. Mas eu queria viver a experiência de dirigir na chuva, nesta estrada de Cunha. Queria ver o tamanho do perigo. Lembrei daqueles dois amigos, por onde andarão? Que farão? Têm filhos? Estarão vivos? Nunca mais soube nada deles, depois que vim pra São Paulo em 1987. Resolvi sair porque a chuva não diminuía por nada! Me despedi de Lumena, que me desejou boa sorte, fui. Muito devagar, sentindo o carro, sentindo o chão, cada pedra, cada poça d’água, cada lamaçal. O pior eram as descidas, mais inclinadas quando se vai em direção a Cunha, pois no sentido contrário são subidas íngremes demais. Passei por três delas, controlando o carro. Restava ainda uma, a maior, que desabava logo depois de uma área plana. Parei o carro antes de descer, respirei fundo, clamei por Exú, o Orixá que abre todos os caminhos e protege dos perigos. Com a primeira marcha engatada, as quatro rodas grudadas na terra enlameada, ia deixando a gravidade agir sobre o carro para baixo, usando o freio motor, a primeira marcha, o freio, o freio, o freio… E o carro foi descendo colado à terra, controlado por meu corpo, mãos, pés, cabeça, emoção, medo, decisão, desafio… Adrenalina estimulada, meu corpo é o do animal acuado que, ou foge ou luta, lutei. E chegamos sãos e salvos, eu e meu carro, na parte final e plana da estrada. Parei, respirei profundamente, minhas mãos tremiam, mas eu estava feliz. 

Na semana seguinte reuniões com Eduardo, o dono da olaria que fabrica os tijolos ecológicos da minha futura casa. Victor, o arquiteto, trabalhando na fase final do projeto. O pedreiro com quem já iniciei contatos, se colocando à disposição para daqui a um mês. Frio na barriga! Me sinto pulando direto do meu sonho na realidade! Em breve meus caminhos me levarão para o grande desafio de erguer a minha casa com os poucos recursos de que disponho. Mas em momento algum duvido de que dará certo! Victor, Eduardo, Lumena, Patrícia, Flávio, Luciana, Johnny, Jéssica e Leo, Sandra, Jane, Gabi, Antonio, Jeosafá, minha mãe, meus irmãos, meus alunos, meus amigos, todos estão ao meu lado incentivando, vai dar certo, vai dar certo! Não duvidem, não duvido.

Parei para tomar um ar. E voltei ao meu país que, desde 2018, vem descendo ladeira abaixo, desmoronando e forçando a todos nós um jeito de viver que “no equilíbrio da lata, não é brincadeira”. Estamos todos tensos. Noites mal dormidas, pesadelos, um acordar de manhã no susto, um medo tão grande de que no próximo dia 30 a gente patine nesta estrada mal-ajambrada, que o país desembeste em direção ao abismo, ao perigo, ao fascismo. Nós que vivemos no período da ditadura militar tememos ainda mais: por nossa liberdade, por nosso sossego, por nossas vidas. O país hoje é um grande caldeirão de experimentos malignos: reativação de valores ultrapassados, violência alastrada, discriminações e preconceitos aflorados, manipulações de toda ordem travestidas de religiosidade alcançando a cabeça de milhões de brasileiros simples, pessoas humildes, exploradas, maltratadas por séculos de injustiças sociais que são guiadas por falsos guias, estranhos capitães que arrastam multidões atrás de si em direção a um impossível paraíso celeste, já que o terrestre eles mesmos ajudaram a tornar insuportável. Por trás disso tudo, movimentando os pauzinhos, a mesma velha elite brasileira: egoísta, inculta, orgulhosa, sentada sobre uma riqueza acumulada em séculos de exploração do povo pobre. Elite desgraçada, elite que governa um país que permitiu 350 anos de escravidão do povo preto. Elite miserável, que é capaz de elogiar a distribuição de renda dos países nórdicos mas incapaz de olhar para seus empregados como seus iguais.

Não, não é possível tergiversar! Suspendam-se todos os sonhos! 

Fui ao mercadinho do MST ontem de manhã. No caminho, levas de miseráveis deitados às centenas, com seus trapos, nas calçadas. Quase todos pretos. Um e outro atravessando entre os carros, tontos de tanta desgraça que caiu sobre suas vidas. Avistei a loja, entrei. Um ar fresco me alcançou logo na entrada, onde uma banca portava adesivos da campanha de Lula, bandeiras dos movimentos sociais, bonés com a logomarca do Movimento Sem Terra. Há esperança! Desde 1500 vivemos de esperança, e nosso povo jamais deixou de resistir. Duas mulheres arrumavam coisas nas prateleiras, arroz orgânico, feijão, frutas e verduras sem agrotóxicos. Perguntei onde encontrava o milho, me apontaram a outra prateleira e deram passos ao meu lado na mesma direção, me ajudando a encontrar, solidárias.

O fim desta trágica ladeira parece estar acabando no domingo. Nós três fizemos o sinal, quando me despedi: o L que nos salvará de despencar no abismo.

Adeus à selva do capital: “Agora não lamento mais”

 29/09/2022

O sonho de viver em comunidade sai do papel. Entre o mar de montes e as matas, tijolo por tijolo ecológico, minha sala-ateliê será redonda tal a abóbada celeste. Respiro ar puro. E, neste domingo, poderemos aspirar outro futuro.

A configuração do terreno já saiu do papel e já está na terra real: o trator finalizou a abertura das ruas, fazendo as retas e as curvas necessárias para que se possa passar através delas, a pé, de carro ou de bicicleta. Falta o acabamento das encostas, as valetas para captar e direcionar as águas das chuvas. Com tudo isso acontecendo, as cotas individuais foram reveladas e já é possível a cada um de nós olhar para elas através dos sonhos de moradas leves.

Fez um ano que me associei a este grupo Ecomunidade Bem Viver. Nestes doze meses couberam muitas reuniões, decisões importantes, risadas, alguns entreveros, muitas idas e vindas, a compra do pedaço de chão de três alqueires, encontros presenciais, busca de fornecedores, do contador ao arquiteto e o pedreiro, roçadas, horta, projeto geral, o master plan, a construção de um pequeno rancho que sirva de moradia inicial e depois de oficina. E a água então, temos com abundância, saída das duas nascentes ricas que tivemos a sorte de encontrar. Além disso, redesenhamos o lago, que já atraiu pequenas criaturas como sapos e pequenos peixes.

Mas há um detalhe ainda mais importante dentro deste projeto todo: as relações humanas. Nossos vizinhos, que dia-a-dia se tornam nossos parceiros e nossos amigos, estão alegres acompanhando toda essa mudança no pequeno local que ocupam na imensidão das montanhas de Cunha. Dito, Rodolfo, Francisco, Douglas, Maria e mais alguns outros têm nos apoiado nas roçadas, nas limpezas do terreno, na construção da horta, na primeira casinha de tijolos, nos palpites, nas opiniões e na sabedoria de quem tem total familiaridade com as questões da terra. Temos aprendido muito com eles em tão pouco tempo!

Tempo que nem é linear mesmo, é uma flutuação que torna leve o caminhar dentro do sonho. Caminho por aquelas estradas, feliz como nunca! Vou acompanhada do meu amigo arquiteto Victor Chinaglia que está tirando minha futura casa de nossas conversas e de sua imaginação. Mas, antes da prancheta, há que se ver o espaço real: a direção Norte, onde nasce o sol e onde ele se põe, a direção do vento principal, aquele ente que quando vem, vem varrendo e tirando coisas do lugar, com seu poder de Iansã. Em nosso caso, o vento forte vem do Sul, o que significa que passa pelo mar, trazendo murmúrios de longínquas canções, sons diversos tangidos pelos ventos de Oiá.

Mas das bravezas dos ventos estou protegida, dito e alivanhado pelo arquiteto. A cota de terreno que me coube fica em parte mais baixa, protegida por um morro onde estarão localizados alguns dos meus amigos. Em torno da minha futura casa há um mar de montes, morros e montanhas, uma pequena mata, árvores à direita, à esquerda e à frente. Um pequeno riacho passa também na frente, mas ainda se encontra completamente escondido pelos lírios e taboas, se movimentando silenciosamente atrás de um bambuzal grande. Área de preservação ambiental, que cuidaremos com afeto.

Nos cinco dias que passei lá, recentemente, fomos eu e minha amiga Lumena conhecer uma olaria onde se fabrica tijolo ecológico. O dono, Eduardo, nos recebeu com muita simpatia e nos deu uma verdadeira aula de construção com estas peças de solo-cimento, que se encaixam em estilo macho-fêmea. Dispensam argamassa, reboco. São muito resistentes mesmo assim, alcançando até quatro vezes mais resistência do que os tijolos feitos de outros materiais. São fabricados de forma quase artesanal, sem fogo: o processo de “cura” dura 30 dias e mais outros quinze para a secagem. Ou seja, completamente inseridos em nossos planos de construir e viver de forma sustentável, com mínimas agressões à Natureza. 

Voltamos da olaria e eu já me decidi a utilizar estes tijolos na construção da minha casa. O processo de montagem das paredes é mais rápido e tão simples que qualquer um de nós pode auxiliar o pedreiro. Ele tem dois furos, por onde podem ser conduzidas as instalações elétricas, hidráulicas e de esgoto, assim como irão conter – a cada metro – a estrutura de toda a casa. Ainda por cima, com mais economia.

A minha sala-ateliê vai ser redonda, me adiantou o arquiteto amigo!

Na mesma noite em que Victor me apresentou um esboço de suas ideias, eu perdi o sono. Ficava me vendo andando, correndo na forma circular da minha casa, imaginando mil formas de organizar, de decorar, de enfeitar… E quando dormi sonhei um sonho curto como um símbolo: eu me via dentro de uma espécie de gruta feita de tigelas de barro, que me rodeavam de todos os jeitos, pequenas, em forma de panelas, com uma linha pintada de vermelho ao redor das “bocas”. Eu me sentia em susto, tomada por uma certa claustrofobia. Mas respirei e o ar era puro, amigo. Teria voltado ao útero de minha mãe, das mulheres todas da minha ancestralidade? Redondo é o útero que nos acolhe, redonda é a terra onde giramos em movimentos circulares. Dias depois sonhei com minha bisavó.

Sala redonda a significar a sazonalidade das estações, a circularidade do tempo. Dividido em 360 graus, o círculo é a ampliação do ponto primordial, que reúne todas as linhas retas num único lugar, o centro. O círculo é a forma em que se desenvolvem os troncos das árvores, e também é circular nossos desenhos da abóbada celeste. É a forma em que as tribos indígenas brasileiras se reúnem, constroem suas casas redondas, reunidas em círculo, como suas danças. É a forma da taça em que nos embriagamos com o prazer da vida, a forma do infinito, do eterno-retorno. O círculo é a roda que gira, gira. Como o movimento dos barcos sobre as ondas, “movimento dos barcos, movimento” como canta Jards Macalé. O círculo da minha sala é onde convidarei meus amigos para cantar, pintar e dançar em circum-ambulação. E onde faremos nossas rodas de boas conversas…

Domingo, 2 de outubro, há uma imensa possibilidade de voltarmos a respirar com um pouco mais de paz em nosso país, tomado pelo ódio de origem fascista nos últimos quatro anos. Já pensou poder voltar a sonhar? Já pensou poder voltar a imaginar mil futuros brilhantes para nossa gente, nossas matas, nossos bichos, nossos povos originários, nossas crianças, nossos adolescentes que haviam parado de sonhar? Lula representa tudo isso, neste momento. E tudo o que descrevi acima será tão mais possível e tão mais viável se nosso país voltar a sonhar e nossa cultura voltar a nos trazer encantamentos! 

Preciso concluir mas, como não ando só, invoco um trecho do poema “Canto da estrada aberta” de Walt Whitman para ilustrar todas essas circularidades, arquitetônicas, históricas, temporais, políticas, às vésperas – provavelmente – de viver nossos maiores momentos de alegria ao final deste processo eleitoral:

“À pé e de coração leve

eu enveredo pela estrada aberta

saudável, livre, o mundo à minha frente,

à minha frente o longo atalho pardo

levando-me aonde eu queira.

Daqui em diante não peço mais boa sorte,

boa sorte sou eu.

Daqui em diante não lamento mais,

não transfiro, não careço de nada;

nada de queixas atrás das portas

das bibliotecas, de tristonhas críticas;

forte e contente vou eu

pela estrada aberta.”

Axé para o Brasil, muito Axé!